Quinta-feira, 28 de Maio de 2015

Eu e a ajuda do CCB

Ainda a (des)propósito do acordo e desacordo ortográfico, pedi ajuda a um senhor de farta bigodaça, que se disponibilizou para fazer parte do post desta semana. Aqui fica a colaboração dele:

 

   “ Leitores! Se ha verdade sobre a terra, é o romance, que eu tenho a honra de offerecer ás vossas horas de desenfado.

   Se sois como eu, em cousas de romance (que no resto, Deus vos livre, a vós, ou Deus me livre a mim) gostareis de povoar a imaginação de scenas, que se viram, que se realisaram e deixaram de si vestígios, que fazem chorar, e fazem rir. Esta dualidade, que caracterisa todas as cousas d’este globo, onde somos inquilinos por mercê de Deus, é de per si um infallivel symptoma de que o meu romance é o unico verdadeiro.

   Eu sou um homem, que sabe tudo e muitas outras cousas. Não espreito a vida do meu próximo, nem ando pelos salões atraz d’uma idéa, que possa estender-se por um volume de trezentas paginas, que, depois, vil espião, venho vender-vos por 480 réis. Isso, nunca.

   Tudo isto que eu sei, e muito mais que espero saber, é-me contado por uma respeitável senhora, que não vai ao theatro, nem aos cavallínhos, e que tem necessidades orgânicas, mas todas honestas, e, entre muitas é predominada pela necessidade de fallar onze horas em cada dez. Desde que tive a ventura de conhecel-a, não invejo a sorte de ninguem, porque vivo debaixo das mesmas telhas com esta boa senhora, e posso satisfazer a mais imperiosa necessidade da minha organisação, que é estar calado. É que não podemos fallar ambos ao mesmo tempo”.

(…)

 

Chegados aqui, pensarão: “este tipo passou-se”.

A verdade é que “ainda não me passei”. Achei piada deixar transcrita uma parte do prefácio do Camilo Castelo Branco (o tal da farta bigodaça a que me referi) a um dos seus romances.

Foi publicado a 1ª vez em 1855 no Porto e a 6ª edição, que é de 1918, em Lisboa. (Foi desta última que me servi para extrair aquele pedaço de prosa).

E porque transcrevi isto?

Para se ter uma ideia de como se escrevia há um século atrás (refiro-me à ortografia). Também para deixar a pergunta: por que então os “puristas e defensores” (alguns, uma pequena parte aliás) da pátria língua que estão contra a nova ortografia não defendem que devíamos escrever como há um século? Ou há dois, ou há oito?

Também não entendo como “esses” exijam, dos meios de comunicação onde escrevem, que os seus textos sejam publicados segundo a “velha” ortografia e esses mesmos meios de comunicação, que seguem as regras do novo acordo ortográfico, lhes aparam as “birras”.

 

Quanto ao romance do Camilo, (re)li as primeiras páginas e dei umas sonoras gargalhadas. Não fora o trabalho que me daria e ele passaria a ser colaborador assíduo do blog. Assunto a pensar…

 

O Lince estava danadinho para aparecer aqui e estragar-me a obra. Mas eu amarrei-o curto e nem os dentes o deixei mostrar. Querias não, ó Lince?

 

publicado por Carapaucarapau às 13:48
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8 comentários:
De maria teresa a 28 de Maio de 2015 às 15:59
Deixei de "discutir" o acordo.
Tenho amigas que são de "letras" e estão em total desacordo com o acordo mas nenhuma delas o leu por inteiro com eu o li, até me ofereci para lhes emprestar um "livro" onde foi publicado e que eu me apressei em adquirir.
Há certas palavras que me fazem alguma confusão mas não sou linguista (embora tenha língua) e acredito que várias equipas dos ditos que trabalharam no A.O. saibam certamente muito mais do que eu.
Odeio que me digam que devíamos honrar a "língua" de Eça, que os franceses continuem a escrever acteur e nós passámos a escrever ator... e não se apercebem que o "c" para elas não é mudo... "odeio" , "odeio", "odeio" os pretensos "intelectualóides" que falam sem terem o "assunto" bem estudado.
Estamos na época de "eu digo" mas não penso no que digo...
Não discuto o A.O.! Caso contrário falava latim ou ainda grunhia!
Os puristas que se entendam mas a "língua" deve ser dinâmica.
Pior que o acordo, muito pior, é a submissão à língua inglesa, a toda hora ouvimos no discurso do dia a dia palavras inglesas
Com esta vou deixando one kiss, a kiss is just a kiss!!!! :))))))

Gostei desta tua postagem, és um "idiota" cada vez mais "idiota" :)


De Carapau a 30 de Maio de 2015 às 19:51

Ora bem, a minha posição é concordante com a tua. Claro que não entendo nada de linguística, ainda que goste de línguas de gato, de línguas de bacalhau, língua de vaca e ainda outras línguas; gosto também daquelas tiras de papel a que os jornalistas chamam (chamavam) linguado e portanto, como ignorante, não me pronuncio tecnicamente sobre as alterações introduzidas E QUE ESTÃO EM VIGOR da nossa língua comum (salvo seja). Aprendi a escrever duma maneira e portanto custa-me escrever de maneira um pouco diferente, mas vou tentando. Embirro é com aquelas pessoas que escrevem "à antiga" e "exigem que no fim dos seus textos fique anotado que Fulano escreve de acordo com a antiga ortografia". Claro que acho uma parvoíce maior os jornais e revistas "admitirem isto" quando oficialmente seguem o novo A.O:
Mas o nosso país é mais ou menos de opereta e temos que aguentar tudo isto.

Este texto foi escrito como eu aprendi a escrever, mas suponho que também está de acordo com o A. O. Em vigor
Abraço.



De GL a 30 de Maio de 2015 às 01:14
Pensava que tinha tido a ajuda do CCB, ou seja, Centro Cultural de Belém, o que me estava a deixar apreensiva.
Esclarecida a dúvida, avancemos.
A língua e dinâmica, muito bem, até aí estamos todos (ou quase) de acordo, mas fazer alterações idiotas, em cima do joelhito, não obrigada.
Conversem, debatam com linguistas, com Homens da fonética e deixem-se de amadorismos bacocos.
Olhe, vou-me embora, porque para apoquentaçao já basta a que tive hoje num encontro do 2, ou 3, ou 4 grau.
Passe bem,
Não lhe desejo bom fim-de-semana porque não me apetece.
Caso o venha a ter? Olhe, melhor para si!

Abracito, que a crise não dá para mais.


De Carapau a 30 de Maio de 2015 às 20:02
Não vou repetir o que já deixei escrito no post e no comentário anterior, mas não entendi essa "das alterações idiotas feitas em cima do joelho (...)" e, ao que entendi, não feitas pelos especialistas na matéria.
Tanto quanto me lembro o novo AO andou a ser discutido anos e muitos se pronunciaram pró e contra e defenderam os seus pontos de vista. A verdade é que está em vigor e temos de fazer os possíveis (cada um de nós) para escrever de acordo com ele, quanto mais não seja para ajudar aqueles que começam agora a aprender a ler e a escrever.
O resto é ruido de fundo
Se não fosse eu ter pegado no livro do Sr. Camilo, nem tinha voltado a este assunto que já em tempos "tratei" aqui.
Abraço e cuidado com os encontros imediatos.


De Maria Araújo a 30 de Maio de 2015 às 12:18
Ui, como se escrevia no tempo do CCB (pensei que ias escrever algo ligado àquele edifício perto dos pasteis de Belém ).
O que tenho para dizer sobre o AO?
Vou escrevendo conforme me dá na veneta.
Mas que algumas palavras me fazem confusão, fazem, ou exemplo na frase: Uma mulher de pelo na ventas" não tem a mesma piada de "uma mulher de pelo na venta".
Bom fim de semana.


De Carapau a 31 de Maio de 2015 às 12:36
Uma mulher de pelo na venta fica pior que quando o vento passa pelo pelo do homem...
Também vou escrevendo conforme sopram os ventos. Mas oficialmente escreve-se escrever de acordo com o AO.
Bjo.

Quanto aos pasteis...ainda não foi desta. :))


De Labirinto de Emoções a 30 de Maio de 2015 às 15:25
Que susto me pregaste, quando li o título pensei que já andavas a falar com as paredes... mas depois descansei, foste falar com o homem do bigode...

Pois bem, eu de facto não discuto o acordo, e muito menos lê-lo, (com tanto livro bom para me distrair..lool)se de fato eu o fosse fazer tinha de vestir algo mais apropriado assim estou de fato de treino...))))

Os puristas da lingua que o façam, que eu vou continuar a escrever como a minha velhinha professora da instrução primária me ensinou!

Se não perceberem a minha escrita, eu dou explicações e de borla, ahahah

E por aqui me fico que o tempo está bonito e eu vou uma regata que está a passar mesmo em frente à minha janela.

Bj e bom fim se semana (tadinho do Lince, vou fazer queixa à protectora dos animais)


De Carapau a 31 de Maio de 2015 às 12:43
Escreverás como a tua velhinha professora te ensinou, mas escreves mal. A maior parte das vezes também escrevo assim, mas sei que estou a escrever mal, concorde ou não com a nova ortografia. Creio que nas reformas anteriores também terá havido confusões e pessoas que sempre escreveram como aprenderam, só que ninguém fazia alarde disso nem as posições e discordâncias eram divulgadas como hoje o são.
A carta do Pero Vaz der Caminha a D. Manuel a comunicar o achamento do Brasil, também não respeita o novo AO. :)
Há palavras que estão sempre de acordo com os sucessivos acordos: este beijo, p. ex.











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