Quinta-feira, 20 de Março de 2014

Como se faz um post

1- O plágio

Arranca-se de um jornal uma dessas notícias da treta, tosca, parva, estúpida e informe; e depois que se desbastou o que não interessa, agarra-se no computador e, dedos nas teclas, começa-se a formar o post. Primeiro, período a período, depois frase a frase até à palavra por palavra. Adoça-se aqui, apimenta-se ali, arredonda-se acolá, prepara-se o “suspense”, emenda-se isto, substitui-se aquilo, estica-se se estiver curto, corta-se se estiver comprido, até ficar um texto aceitável, talvez até publicável.

 

2- O plagiado

 

O Estatuário (Padre António Vieira)

 

Arranca o estatuário uma pedra dessas montanhas, tosca, bruta, dura, informe; e, depois que desbastou o mais grosso, toma o maço e o cinzel na mão, e começa a formar um homem, - primeiro, membro a membro, e depois feição por feição, até a mais miúda; ondeia-lhe os cabelos, alisa-lhe a testa, rasga-lhe os olhos, afila-lhe o nariz, abre-lhe a boca, avulta-lhe as faces, torneia-lhe o pescoço, estende-lhe os braços, espalma-lhe as mãos, divide-lhe os dedos, lança-lhe os vestidos; aqui desprega, ali arruga, acolá recama; e fica um homem perfeito, e talvez um santo que se pode pôr no altar.

 

3 – A explicação


Um destes dias, acordei com o “Estatuário” na cabeça. Como não uso barrete de dormir, fico com a cabeça livre para nela entrar qualquer coisa. Conheço o texto desde a minha 4ªclasse, pois fazia parte do “Livro de Leitura”. No liceu voltei a encontrá-lo e aprendi a apreciar a precisão de cada um dos verbos que aparecem no texto. Depois de me rebolar duas vezes na cama sem conseguir “sacudir” o Vieira, resolvi que o melhor era fazer um post, “a meias” com ele.

Foi assim que mostrei como se faz um post em “3 tempos”.

 

Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico - convertido pelo Lince.        

publicado por Carapaucarapau às 10:12
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10 comentários:
De Maria Teresa a 20 de Março de 2014 às 12:19

Ó Carapauzito consegues fazer com que os meus neurónios funcionem a uma velocidade tal que qualquer dia lançam faíscas!
Do que te havias de lembrar quando devias estar nos braços de Morfeu (talvez tal não acontecesse se em vez de Morfeu, existisse uma Morfina)!
Plágio por plágio aqui vai um "arremendo"!


O ESTATUÁRIO

É dono de alguma loucura
Fará uma obra que ofusca.
Duma pedra bruta e dura
Sobe a montanha em busca
Com o maço e o cinzel
Molda-lhe os braços, as pernas
À vista bem agradável
Continua a tratar delas
Abre fendas e janelas
Janelas que são os olhos
Olhos que não quer mirar
Porque tem medo dos brilhos
Que deles podem emanar
Veste-o de acordo com a moda
Tira pedaços, aumenta…
Coloca uma saia de roda
E uma blusa que ostenta
Belos seios, bem moldados
Que vão dar nome à escultura
Um nome entre os abençoados
Ela partirá à aventura…

E agora fico-me por aqui porque tenho um compromisso!
Mas deixo uma beijoca num dos teus opérculos!


De Carapau a 21 de Março de 2014 às 13:02
Se plagiamos, não parece
grande, o pecado cometido.
Logo fizemos uma prece
e agradecemos a benesse
de nisto nos termos metido,
pois acabamos de mostrar
(tu muito melhor que eu)
que quando fazemos obra,
saia lagarto ou cobra
ou outro qualquer camafeu,
não há Vieiras, nem Camões,
Bocages, Pessoas ou Garretts,
(a quem eu tiro e tu pões
fazendo versos aos molhos).
E sem andarmos pelos cafés
a vender a nossa mercadoria,
ainda arregalo os olhos
a abotoar os meus botões.
Assim, entre aplausos e olés,
Fique bem Vossa Senhoria!

Assim mesmo, sem plágio, tirado à pressão, com um chapelinho em forma de beijo, a enfeitar.


De Labirinto de Emoções a 20 de Março de 2014 às 20:16
Meu queriso Carapau, tu que és peixe lindo, elegante e reluzente, terás certamente ouvido contar através dos teus antepassados O Sermão aos Peixes do Padre António Vieira...e como não plagio ninguem, e como não me apetece ir dar voltas na cama com o Pª Viera na cabeça, levas já com ele...:-)))

".....• . Sermão de Santo António aos Peixe Trabalho de Padre António Vieira
• √Foi pregado em S. Luís de Maranhão, no dia 13 de junho de1654;√Todo o sermão é uma alegoria, porque os peixes são a personificação dos homens;√ Com uma construção literária e argumentativa notável, o sermão louva algumas virtudes humana se, principalmente, censura com severidade os vícios dos colonos;√Este sermão foi pregado três dias antes de Padre António Vieira embarcar ocultamente (a furto) para Portugal, para obter uma legislação justa para os índios;
• . “Com esta última advertência vos despido, ou me despido de vós, meus Peixes. E para que vades consolados do Sermão, que não sei quando ouvireis outro, quero-vos aliviar de uma desconsolação mui antiga, com que todos ficastes desde o tempo em que se Livro da Bíblia, cuja finalidade é regular o culto entre os hebreus.o Levítico” publicou O nome vem-lhe do facto de ter si do a tribo de Levi a escolhida para o serviço litúrgico. O primeiro livro do Levítico pode considerar-se um ritual dos sacrifícios.
• . PERORAÇÃO utilização de um desfecho forte para impressionar os ouvintes. O orador retoma os pregadores de que falava no conceito predicável, servindo-se dele próprio como exemplo alegando que não estava a cumprir a sua função. Alega também que ele (homens) e os peixes, nunca vão chegar ao sacrifício final Padre António Vieira diz que a irracionalidade, a inconsciência e o Os peixes já vão Os homens vão instinto dos peixes, são melhores do que mortos; mortos de a racionalidade, o livre arbítrio, a espírito; consciência, o entendimento e a vontade do homem.
• . “Louvai a Deus, porque vos criou em Repetição da expressão tanto número. Louvai a Deus, que vos Louvai a Deus distinguiu em tantas espécies; louvai a que acentua a finalidade do Deus, que vos vestiu de tanta Sermão : o louvor a Deus variedade e formosura; louvai a Deus, que todos devem prestar. que vos habilitou de todos os instrumentos necessários para a vida”“(…) e assim como no princípio vos deu sua benção , vo-la dê também Quiasmo: Sugere a transposição dos agora. Ámen. Como não sois peixes para os homens: já que os capazes de Glória, nem de Graça, peixes não são capazes de nenhuma não acaba o vosso Sermão em dessas virtudes, sejam-no os homens.Graça e Glória.”

Esperando que não te falte o folego para ler tanta sabedoria do Dr. Google, me despeço com um beijo sub-aquatico..:-)))))))


De Pe. António Vieira a 21 de Março de 2014 às 13:43
Caro Carapau:
Tu, que quando ainda eras jaquinzinho, assististe ao meu célebre (desculpa-me a imodéstia) sermão, sabes a imensa consideração que tenho por ti, pois foste dos poucos que a ele assistiram com compostura e mais, dos poucos, senão o único, que o entenderam. Além disso é a 2ª vez que fazes referência à minha obra neste teu lugar de “coltura” (desculpa fugir-me o pé para as latinices…), o que muito me honra. Dito isto e esperando que continues em boa forma, aqui te deixo um abraço e também a resposta a essa Senhora que “copiou e colou” do Google (que nem latim sabe) umas tretas sobre mim. Portanto, sabendo que me permites esta usurpação do teu espaço, aqui lhe deixo a resposta:
Minha Senhora:
Vos quibus rector maris, atque terrae
Jus dedit magnum necis, atque vitae;
Ponite inflatos, tumidosque vultus;
Quidquid a vobis minor extimescit,
Maior hoc vobis dominus minatur.

Aceite, todavia, os meus respeitosos cumprimentos.
Pe. António


De GL a 21 de Março de 2014 às 00:44
Chama-se a isso batota!
Ora deixe lá o Padre em paz e escreva um post de sua autoria.
Agradecida.
Sem abraço.


De Carapau a 21 de Março de 2014 às 14:00
Batota, minha Senhora, seria apresentar coisas como sendo minhas, sem o serem.
Aqui está tudo clarinho que nem água pura, o próprio Vieira acabou de enaltecer as qualidades deste espaço (de "coltura" lhe chamou), como pode ver num comentário anterior.
O próprio Vieira me mandou um sms que passo a reproduzir para que conste.
Diz assim:
" A essa tua distinta comentadora responde assim: ponite inflatos, tumidosque vultus".

E pronto, eu respondi.
E aqui fica, da minha autoria, o abraço que me negou, minha Senhora. :))


De GL a 25 de Março de 2014 às 11:16
Ainda não acabei o curso intensivo de latim, logo, não estou à altura de responder a V. Senhoria.
Espero que regresse, e depressa, à sua condição de simples e analfabeto carapau, um bichinho (sim, um bicho!) lindo de morrer e que, por acaso, até é alimento de muitos.
Vá, volte. Não sei se já tem alguma coisa "alinhavada", mas olhe que o tempo urge.
Disse.
Disse e vou-me embora. O latim espera-me.
Permite-me que o abrace?
Sinta-se abraçado. Eu? Eu vou tratar das picadelas que V. Senhoria me fez com suas delicadissimas barbatanas.


De Maria Araújo a 24 de Março de 2014 às 18:29
A arte de plagiar.
Ai, Carapau, que são tantas as vezes que me acongece dar voltas na cama, só porque tenho de fazer isto ou aquilo, ou porque sonho com algo e não me quero esquecer e, olha, fazer disto um post.
Muito gostas tu do Vieira.

BJ


De Maria Araújo a 24 de Março de 2014 às 18:30
* acontece


De Carapau a 25 de Março de 2014 às 15:57
Vou-te dizer uma coisa, que nunca disse a ninguém. O "Vieira" trabalhou comigo uns tempos, daí eu ser unha com carne com ele.
Nunca tinha dito isto antes e oxalá não vão pensar que eu lhe dei uma ajuda nos sermões...

Agora a receita para ti: "tem na mesinha de cabeceira um pequeno bloco de apontamentos e um lápis (caneta tb serve :)).
Quando acordares a meio da noite com uma "coisa" na cabeça de que não te queres esquecer, acende a luz e escreve no bloco. Assim dormirás descansada o resto da noite e, de manhã, já está o apontamento à tua espera".
Entendido? Isto são muitos anos a virar frangos...
Claro que há sonhos que este processo não resolve, mas isso já é tratado no departamento ao lado. :)
Bjo e muita saúde! E não esqueças os Rolling Stones.... :)


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