Quinta-feira, 2 de Janeiro de 2014

Calendário

Um ano acabou, outro começou ontem, hoje já vamos no segundo dia, houve troca de calendários, a Terra continua a girar, repetem-se os gestos.

Nunca tive o costume de usar agendas ou calendários. Guio-me pelos papéis que vou escrevinhando para não me esquecer das coisas que tenho que fazer e dou, ou “arquivo” no lixo, os calendários que, todos os anos, recebo pelo correio.

Quando andava na escola primária, lá na minha aldeia, parte da “nossa vida de jovens estudantes” girava à volta do calendário. Ele estava pendurado, na parede ao lado do quadro preto e era de folhas de “papel de seda”, (como lhes chamávamos, por serem muito fininhas) e todos os dias havia a “cerimónia”, ao começar a aula, de atualizar o calendário, arrancando a folha do dia anterior. Operação feita pelo professor, que entregava a folhinha a um dos alunos. A qual? Àquele, que nessa manhã, primeiro o tivesse cumprimentado com a “sacrossanta” frase: “Bom dia Senhor professor, hoje é o dia Tal”.

Durante bastante tempo a folhinha vinha ter, quase sempre, comigo. Porque eu era madrugador? Porque era um viciado pelas tais folhas? Porque os outros não se interessavam? Nada disso. Por uma razão muito especial. Eu vivia ao lado do Professor e ele todos os dias antes de sair para a rua, atravessava um pátio que nos era comum, e eu “disparava” o meu “bom dia sr. Professor, hoje é dia tal”.

Quando ele saia para a rua a caminho da escola, era bombardeado por vários “bons dias” mas todos eles já sem direito à folhinha de “papel de seda” com o número correspondente ao dia anterior.

E eu lá ia colecionando folhas…

Até que um dia, o professor deve ter reparado que eu era um açambarcador e “saiu” nova legislação: só eram válidos os cumprimentos a partir do momento em que ele pisava a rua. Perdi a minha vantagem de vizinho, ainda que não totalmente, pois bastava eu estar atento à saída dele de casa…

Não me recordo se as folhas, além do número correspondente ao dia anterior, também tinham uma quadra. Suponho que sim, mas fica a dúvida. Por o papel ser tão fino e transparente elas não serviam para nada, mas eram muito desejadas.

Claro que no primeiro dia de aulas de cada novo ano letivo a disputa era elevadíssima, pois estavam em causa as folhas correspondentes aos três meses das férias grandes. A minha “vantagem relativa” mantinha-se mas nessas datas a coisa complicava-se.

Deve ser por isso que de então para cá (e já lá vão “toneladas” de folhas de calendário) eu não me interesso pelos calendários e agendas que me oferecem. Falta-lhes a adrenalina da disputa, o sabor doce da conquista, de ser o primeiro.

Tudo o que nos cai no regaço sem esforço, até pode dar jeito, mas não tem sabor.

Andasse eu ainda na escola primária da vida e daqui a uma semana lá estaria de sentinela a gritar primeiro que todos, “bom dia senhor professor, hoje é o dia 6”, “só” para conquistar umas vinte folhinhas correspondentes às férias do Natal.

Quem há por aí, hoje, capaz de se bater por uma simples folha de calendário, mesmo que premiada com uma quadra popular?

 

Quem 1º aqui deixar rasto da sua passagem tem direito à folhinha de calendário abaixo publicada, dizendo simplesmente "Bom dia Sr. Carapau, hoje é dia 7".

 

Bom ano para quem este post ler (e para todos os que por cá andarem…ainda).

 

 Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico - convertido pelo Lince.       

              

    

     

publicado por Carapaucarapau às 14:53
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14 comentários:
De Labirinto de Emoções a 2 de Janeiro de 2014 às 16:12
E lá fui eu a primeira
Com pouco jeito pra quadrar
Mas tive pontaria certeira
Pra ser a primeira a um beijo te dar!

A folhinha é minha, lool. quero-a embrulhada em papel de seda com lacinho e tudo..:-))))

Bom ano meu querido carapau...mu@@@@@


De Labirinto de Emoções a 2 de Janeiro de 2014 às 16:31
Ah! que falta imperdoavel esqueci-me da frase...Bom dia Sr. Carapau...mas...mas hoje é dia 2...!!!! (espero que a frase valha na mesma..:-P)

E como recordar é viver, adorei as recordações dos teus tempos de menino...:))

E lá fica mais um beijinho...


De Carapau a 3 de Janeiro de 2014 às 18:50
É nitidamente mais um caso à portuguesa: fazer de uma coisa simples uma coisa complicada. A regra, simples estava lá bem expressa: o cumprimento era fundamental (nele até estava implícita uma ligeira vénia, mas enfim...) e mesmo assim a fórmula não foi respeitada (pelo menos à 1ª).
Assim sendo, por se poderem levantar dúvidas, irei pedir a fiscalização sucessiva da questão que aqui se levnta, pelo que aguardarei, sentado, a resolução do Tribunal Constitucional. :)
Isto não impede de desejar um bom ano e de retribuir o bjo.

Esta resposta diz respeito aos 2 comentários, como se torna evidente...


De Anónimo a 3 de Janeiro de 2014 às 21:09
Pronto...penitencio-me e farei uma "romaria" de joelhos, esperando que o TC faça a sua fiscalização e não me corte o "orçamento" para 2014...:-P

E lá vai mais um beijo...(pode ser que a graxa pegue..:-)))))


De Labirinto de Emoções a 3 de Janeiro de 2014 às 21:38
O comentario saiu em anónimo...coisas do PDI...:-)))


De Maria Araújo a 3 de Janeiro de 2014 às 21:12
Boa noite senhor Carapau
Uma folha não vou receber
Não cheguei a horas
De bom dia te dizer.

Mas vieste tu, Carapau
Contar mais uma história
E no baú das minhas memórias
O calendário com quadra
Foste recordar.

Lembro-me doutors calendários
Nas paredes cá de casa
E era sempre eu a primeira
A folha do fim do mês, eu rasgar.

Mas Carapau uma fina folha
Com o número 7 de prenda
É número que eu gosto
E a tempo de o receber.
Dar-te-ei de recompensa
O beijinho de sempre com prazer.




De Carapau a 7 de Janeiro de 2014 às 14:25
Vou pensar no teu caso,
Que merece ser pensado.
Aqui nada se faz ao acaso
Acato o que for deliberado.

Mas como gostas do sete,
Que não está em questão,
O Carapau desde já promete
Arranjar uma solução.

Lá terei de pintar o sete,
A macaca ou a manta.
Em tudo em que se mete
Quanta habilidade, quanta?!!
:)

Vamos aguardar pela decisão. :)
Bjo.


De GL a 3 de Janeiro de 2014 às 23:48
Não pode ser "Boa noite, Sr. Carapau, amanhã é dia 4"? É que não me apetece ficar de vela à espera das 12 badaladas, mas QUERO uma folhinha, ouviu?!
Deliciosa a tua história!
Não eras nada batoteiro, tu!

Beijinho.


De Carapau a 7 de Janeiro de 2014 às 14:36
De noite todos os gatos são pardos e não há calendários para ninguém. Se a menina esteve atenta, a folha só é arrancada no dia seguinte, quando óbviamente, já não faz falta.
Tenho de repetir tudo meia dúzia de vezes? :)
Quanto a ser batoteiro (ou a ter sido, para ser mais preciso) acho que não fui. Tinha uma ligação especial ao professor, quer por vizinhança, quer por ser amigo da família e ele não me deixava pôr o pé em ramo verde, que é como quem diz, impedia-me de tirar partido da minha posição estratégica.
A maior parte das vezes eu só o cumprimentava depois de saber que outros já o tinham feito.
Feitios :)
Bjo.


De Labirinto de Emoções a 7 de Janeiro de 2014 às 00:07
Como já é dia 7.........BOM DIA SR. CARAPAU!!

E pronto regra cumprida sem complicação...:-))))

Beijosssss


De Carapau a 7 de Janeiro de 2014 às 14:40
Ah!Ah! Ah!
A menina a querer dar a volta ao texto, não?
O que estava em causa era o dia 6.
Recebi acordão do tribunal há minutos e já "dei ordem aos serviços" para procederem de acordo com as instruções. :)
Bjo.


De Maria Teresa a 7 de Janeiro de 2014 às 23:11
Folha a mais ou folha a menos
Tanta disputa para nada …
Marcar o tempo para quê?
Para não ser abandonada?

O tempo passa a correr…
O tempo passa devagar…
O tempo passa a varrer…
O tempo passa num sussurrar…

Esquecendo o tempo passado
Agora estou no presente
Que neste momento é abalado
Porque há muito ando ausente…

Com a lábia que tu tens
E com chouriços a encher
Deixaste um testemunho
Que até me fez estremecer

Aos poucos vou regressando
A vida assim me permite
Comecei por aqui passando
O que me obriga a um convite

Vou abrir a minha “casa”
Por quanto tempo não sei
Mas por lá está uma “brasa”
Que vai continuar o que iniciei

Beijocas nos opérculos (já tinha saudades)


De Maria Teresa a 8 de Janeiro de 2014 às 00:38
Folha a mais ou folha a menos
Tanta disputa para nada …
Marcar o tempo para quê?
Para não ser abandonada?

O tempo passa a correr…
O tempo passa devagar…
O tempo passa a varrer…
O tempo passa num sussurrar…

Esquecendo o tempo passado
Agora estou no presente
Que neste momento é abalado
Porque há muito ando ausente…

Com a lábia que tu tens
E com chouriços a encher
Deixaste um testemunho
Que até me fez estremecer

Aos poucos vou regressando
A vida assim me permite
Comecei por aqui passando
O que me obriga a um convite

Vou abrir a minha “casa”
Por quanto tempo não sei
Mas por lá está uma “brasa”
Que vai continuar o que iniciei

Beijocas nos opérculos (já tinha saudades)


De Carapau a 9 de Janeiro de 2014 às 15:03
Quem por muito tempo se ausenta
Esquece o que lhe foi explicado.
Daí, por exemplo, servir a ementa
Em duas doses. Sim, em duplicado.

Mas como voltaste às lides
E abriste a "casa" ao público,
Vou comprar umas pevides
E entrar nela com ar púdico.

Dizes que está lá uma brasa,
(Palavra que me causa arrepio);
Mas vou já a correr à tua "casa"
E encostar-me a ela, com frio...

E mais não ponho na carta.
De desabituados, os opérculos ainda estão a zumbir...
Bjo.


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