Quinta-feira, 10 de Outubro de 2013

O valentaço

Só conheço uma coisa pior que ter de aturar um bêbado: é aturar dois ao mesmo tempo. Coube-me em sorte, algumas vezes, ter de desempenhar esse papel. Era uma grande chatice, porque não há maneira de fazer desistir um bêbado de levar os seus propósitos avante. A partir de certa altura fui arranjando “calo” e deixei de me importar com ele (ou eles, conforme a ocasião). Quando o apanhava distraído, pirava-me.

Perguntar-se-á porque motivo os tinha de aturar? Simplesmente porque faziam chantagem: “é pá vem connosco que só demoramos meia hora; se não vieres acabamos por ir beber mais uns copos e acabamos por nos perder”. Eu lá tinha de ir fazer a minha boa ação de “escuteiro”. Só que não me lembro de alguma vez ter sido só “aquela meia hora”… e que não tenham continuado nos copos.

Acontece ainda mais um pormenor. Eles, que no dia a dia eram tão pacatos e respeitadores, transformavam-se nas noites de copos. De pacatos passavam a turbulentos, de respeitadores a carroceiros, de calmos a briguentos. Qualquer pequena coisa os punha logo a querer esfolar uns e outros.

Até que um dia…

Aquela noite estava a ser ainda mais complicada que outras. Por essa altura eu já não tinha paciência e fui-me embora, deixando-o (nessa noite era só um) entregue à via sacra de correr as capelinhas habituais.

No dia seguinte vim a saber o que acabou por acontecer. Deu-lhe nessa noite, para desafiar qualquer pessoa para jogar à porrada. Entrava num tasco bebia “mais um” e de seguida perguntava em voz alta: “há por aí algum filho da puta que queira jogar a porrada comigo?”. As pessoas olhavam-no, viam o estado de embriaguês em que estava, riam-se e não lhe davam mais troco. Ele saia e passava ao tasco seguinte. A cena repetia-se. E repetiu-se por mais 3 ou 4 vezes. Até que, ao desafio, houve “um filho da puta” que se levantou, esperou-o à saída e enfiou-lhe uma tal carga de porrada, que ele nem reagiu, tal ela foi. Remédio santo. Bebedeiras, continuou a apanhar muitas, mas sempre de “bola baixa” não se metendo com ninguém.

Passaram uns anos, cada um de nós foi para seu lado e um dia vim encontrá-lo em Lisboa. Tinha enveredado pela carreira militar e continuava a beber.

Do resto, triste, já não tem piada nenhuma falar.

 

Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico - convertido pelo Lince.        

publicado por Carapaucarapau às 14:18
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2 comentários:
De Labirinto de Emoções a 16 de Outubro de 2013 às 14:48
Ao ler este teu post não pude deixar de sorrir e recordar uma história que era contada como verdadeira e que a minha avó recordava diversas vezes e que se passava com o meu bisavô:
"Ele e um amigo andavam sempre bêbados, eram companheiros diarios na corrida pelas tascas antes de irem para casa.
Um dia o meu bisavô apanhou uma gripe tremenda e como não podia sair da cama, nesses dias não houve copofonia..
O Outro amigo, estranhando a falta do meu bisavo, resolveu ir visita-lo, e como é logico ia bebado que nem um cacho...
Quando o amigo se foi embora...diz o meu avô agarrado à cabeça:
- Conheço este gajo há mais de 30 anos e nunca o tinha visto bêbado...!!!...lool

E com esta me vou .. com um beijo e um sorriso..:-))))



De Carapau a 18 de Outubro de 2013 às 10:27
Já eu não posso dizer o mesmo que disse teu avô.
A este(s) a que me referi e com quem convivi uns anos vi-os muitas e muitas vezes "etilizados" (que é assim amodosque bêbados ...). :))
Bjo. sem álcool.


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