Quinta-feira, 27 de Junho de 2013

As linhas da memória

 Aviso prévio: o presente post era para ser uma coisa e acabou por sair outra. Lá para o final aparece uma cena que parece tirada dos autos do Gil Vicente (guardadas as devidas distâncias) pelo que se recomenda a quem não gostar do género, que não leia a parte final.

.

 Como noticiaram as revistas da High Society, nomeadamente a “Revista de Caça e Pesca” e “100 Maneiras de Fazer um Bom Churrasco”, encontra-se em veraneio pelos mares do sul o autor deste blog. Desta maneira a imensa

 multidão de frequentadores deste espaço, que por uma questão de inibição não se costuma manifestar, está devidamente informada sobre o assunto.

Acoitado numa gruta cedida por um amigo pertencendo à ilustre família dos Scombridae, género Thunnus e que a malta conhece por atum, resolvi prestar aqui uma homenagem a esse ilustre peixe, que em geral nos aparece dentro dumas latinhas. Logo ele que não tem lata nenhuma. Longe vão os tempos do copejo, em que os mesmos eram massacrados até à morte, quando se dirigiam ao Mediterrâneo para “passar férias”. A maior parte não passava da costa algarvia.

Estava eu a recordar-me disto e lembrei-me do que ainda acontece na praia da Nazaré com os carapaus. Pescam-nos e depois abrem os pobres peixes, tiram-lhes os interiores, espalmam-nos e põem os pobres a secar ao sol, horas a fio, ou mesmo dias, até ficarem secos. Santa inquisição que ao pé disto eras uma brincadeira de crianças a fazer tropelias…

Quando eu ainda nem pensava virar Carapau, veraneava na Nazaré. Era a praia que estava mais à mão, exatamente porque era a que ficava mais ao pé (da porta) e aí assisti à lenta transformação da sociedade local, que começou por ser essencialmente ligada a pesca. Não havia porto de mar, os barcos eram puxados para o areal por juntas de bois e toda aquela zona era uma mistura de restos dos peixes, lixo das limpezas dos barcos, merda dos bois, palha e alguma areia. O areal destinado aos veraneantes ficava ao lado, mas separado por uma zona neutra.

Era na zona da praia que se passavam as grandes cenas, nos meses de verão.

Para não alongar o escrito, aqui fica um dos diálogos a que assisti e que se passava no então chamado paredão, que separava o areal da rua e que era ao mesmo tempo um dos passeios dessa mesma rua. Cena entre duas “peixeiras”, assim eram conhecidas as varinas da Nazaré, com os veraneantes a assistir:

(A entoação e a pronúncia local, bem característica, não a sei reproduzir aqui).

As duas mulheres passam uma pela outra no paredão.

- Ao largo que a rua tem dois passeios.

- E este é só teu, ah mulher!

- Ao largo que não gosto de cheiro a porca.

- Porca serás tu mai-la a tua familia. Ah!

(Entretando vão se separando e ficam afastadas uns 20 metros uma da outra. A “conversa” passa a fazer-se em alta gritaria).

- Porca eu? Olha, olha, mais limpinha que o prato onde comes. (E dizendo isto levantava as 7 saias, e dava umas palmadas nas próprias nádegas).

- Baixa as saias, porca, que só cheiras a mijo.

- Anda cá, anda que te faço cheirar outra coisa.

- Ai que medo, ai que medo! Desavergonhada! (A “conversa aumentava de tom).

- Cala a boca mulher! Sua puta! Se tivesses vergonha nem saias à rua!

- Puta eu? E tu o que és, que quando o teu “home” vai prá safra do bacalhau metes as calças todas da vila lá em tua casa?

- Mentirosa! Vadia. Qualquer dia perco a cabeça e estrafego-te.

- Ah! ah! Ai que medo. Podes vir tu e trazer os “homes” todos da vila que já se deitaram contigo!

(O diálogo gritado continuava neste tom até chegar ao momento alto, para gáudio de todos a que ele assistiam).

- Tu tens é inveja! Sua mal fodida!

- Mal fodida eu? Até tenho calos no cú dos colhões do meu “home”.

E perante a gargalhada dos assistentes a “conversa” acabava aqui.

 

Hoje passo pela Nazaré de vez em quando, a vila virou cidade, as “sete saias” só aparecem em dias de festa, e poucas, já nem o turismo subsidia estas cenas pícaras.

Nas entradas da cidade veem-se algumas das representantes das antigas peixeiras, sentadas e com um cartaz a anunciar “aluga-se quarto, chambre, room, zimmer”. O linguarejar castiço deu nisto.

 

Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico - convertido pelo Lince.        

publicado por Carapaucarapau às 10:03
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7 comentários:
De maria teresa a 27 de Junho de 2013 às 21:01
A minha queixada inferior caiu, tenho andado de traseiro no ar em busca dela! Ainda não a encontrei!
E retiraste tu um poste de Carnaval de há uns 2 ou 3 anos, porque aqui é um lugar muito sério, (?) o que lá se registou era "um menino de coro" comparado com o dialogo que acabei de ler.
Como ainda não fiz o jantar e estou com fome, volto mais tarde para uma conversa mais "aprofundada" (onde é que já li isto?)
Saíste da caverna! Ou se saíste!
Beijinhos operculares mas nada de abusos, ok?
rsrsrsrsrsrsr


De Carapau a 30 de Junho de 2013 às 00:24
Vou responder a cada comentário separadamente. Assim sendo não percebo porque te caiu a queixada. Se calhar estava mal aparafusada.
Eu sei (calculo) que o teu espanto não passa duma figura de retórica. :))
Eu limitei-me a transcrever, tanto quanto possivel à letra, o que a memória registou já lá vão uns bons anos.
Se "adoçasse a pilula" e escrevesse por ex. "mal comida eu, que até tenho calosidades no meu rabiosque dos talhões do meu homem" era ou não era ridículo, no mínimo?
Transcrevi a "voz do povo" e a voz do povo "peixeiro" da Nazaré é de lhe retirar o chapéu (barrete é o que eles usavam naquela altura).
Pena tenho eu de não ter registado nessa altura a riqueza do diálogo para a transcrever na íntegra. Fiquei muito aquém da realidade.
E não ponho mais na carta.
Bjo.
PS: Já agora que raio serão os "talhões"? :))


De maria teresa a 30 de Junho de 2013 às 10:14
Para ajudar um bocadinho vou tentar dizer qualquer coisinha sobre talhões.
Talhão é algo que existe entre dois regos, no plural e no contexto vejo dois, talhões rimam com "balões" e outras palavras terminadas em "ões".
Melões (pequeninos), limões, ...tudo com uma forma mais ou menos esférica.

Como sabes perfeitamente, não me intimida, não me retrai, não me envergonha ler ou escrever em português vernáculo, ele explode na boca do povo, é genuíno. Gostei das tuas memórias, mas tinha que brincar :) :) :)
Prefiro essa "pureza" de linguarejar à da atual que por tudo e por nada mete na conversa obscenidades sem ser num diálogo de discussão e em locais onde se encontra outras pessoas que não têm nada a ver com o assunto, nem sequer são mirones

O dia está lindo e eu com pouca vontade de fazer o que quer que seja...continua as tuas férias passeando pelos teus locais de eleição e traz-nos as tuas recordações.
Abraço enoooooooorme! (Ando muito pródiga)


De maria teresa a 29 de Junho de 2013 às 12:25
Voltei como prometi. Sim, porque eu cumpro as minhas promessas.
Estou a teclar sem rede, não faço tenções de voltar a reler o que escrevi, não vá o testamento ficar anulado, como sou previdente (o que, muitas vezes, não me serve para nada), peço desde já desculpa se sair uma gralha.
Levei um tempo imenso a vir da cozinha para a sala, fiz o jantar, emparrei-me na sala de jantar, uma pequena mentira pois comi uma posta de pescada (que horror, uma parte de uma familiar tua) com uma batata e uns brócolos e primeiro que voltasse ao ponto de partida levei estas horas todas.
Na nossa (tua e minha) juventude, mais na pré-puberdade, frequentámos locais muito próximos, quiçá os mesmos. Os meus pais alugavam casa na Nazaré, Pedrógão, Vieira de Leiria e depois já na minha adolescência nas Azenhas do Mar, Praia das Maçãs.
Voltando à Nazaré, tenho ideias muito difusas, lembro-me das barracas serem armadas perpendicularmente ao mar (estarei errada), gostava de brincar na praia, os dias eram longos, fazia-se a sesta … e pouco mais. Da praia da Vieira tenho mais recordações.
A minha mãe não trabalhava de modo que íamos para Vieira de Leiria todo o Verão, como o meu pai apenas tinha um mês de férias, ele ficava em Lisboa com a minha avó materna, a eterna sacrificada (a minha mãe era uma senhora adorável, mas muito mimada quase sempre colocava-se em primeiro lugar) nós ficávamos sem meio de transporte (não sei se havia público). Lembro-me de percorrer 3km para chegar à praia e de fazer outro tanto para regressar à casa que se tinha alugado. Nessa praia lembro-me de ver os bois a puxarem as redes, lembro-me da foz do rio Liz, lembro-me de algumas ruelas serem forradas a caruma, lembro-me de ir a uma desfolhada, lembro-me de na “biblioteca”, requisitar livros do Salgari, foi ai que li todas as aventuras de Sandokan, o tigre da Malásia, o homem de olhos verdes que a minha imaginação fértil levava-me a sonhar com ele.
Os meus pais conheciam os Feiteiras e pela primeira vez ouvi falar nas amantes do “velhote”, “conheci” até uma que era ostracizada pela aldeia, passada os dias fechada em casa, era bastante jovem e muito bonita, não me lembro como se chamava…
Por lá provei o peixe seco, secado ao sol, na altura comia hoje já não me lembro do sabor…
O meu pai nasceu para aquelas bandas, mais precisamente na Martingança, será que temos alguma relação parental, o apelido que uso no gmail herdei do meu pai…
Vou terminar por aqui, qualquer dia cortas-me o pio…teria tanta coisa para dizer, com este teu post fizeste-me evocar um tempo em que transpirava FELICIDADE por todos os poros.
Obrigada querido AMIGO! Um abraço terno!


De Carapau a 30 de Junho de 2013 às 00:59
Pois muito me contas!
Afinal frequentámos ambos alguns sitios, nos "tempos que já lá vão". O meu poiso de praia sempre foi a Nazaré, mas de vez em quando também passava um dia aqui ou ali, isto é, Praia da Vieira, Paredes, Pedrogão, S. Martinho do Porto, Foz do Arelho. Ainda hoje, e quase todos os anos, faço esse itinerário, a partir duma "base" que tenho na região (sou de lá como já dei a entender aqui no blog, por várias vezes).
Já quanto passei a viver em Lisboa e nos primeiros anos, frequentei a Praia das Maçãs e principalmente a Praia Grande.
Por essa altura é muito provavél que o teu olhar tenha sido atraido por um matulão loiro de olhos azuis, musculado e com outros atributos que aqui não digo. :))) (mentira, tudo mentira)
Voltando à Vieira. Tu certamente tinhas casa na Vieira e a praia ficava a uns 3 kms, distância essa que percorrias. Quanto à família Feteira, não conheci nenhum deles, mas o meu Pai e um Tio meu tinham relações comerciais e de amizade com eles. Uma altura houve em que até faziam "torneios de sueca" (pretexto para uns comes e bebes).
O peixe seco, em geral carapaus, ainda é hoje seco e comercializado na Nazaré, como sabes certamente.
Na praia da Vieira desagua como dizes, o rio Liz, que também leva as águas do rio da minha terra.
Martigança fica a "meio" caminho entre a Nazaré e a Marinha Grande é a estação da CP (linha do Oeste) que serve a região.
Vamos agora ao Salgari! Já uma vez publiquei um post em que falava dele (se não foi post foi outra qualquer coisa que escrevinhei). Li-o de fio a pavio, tudo, tudo, incluindo a "saga" Sandokan, o Tigre da Malásia (o braço direito dele era português, lembras-te?).
Finalmente a hipótese de sermos ainda "aparentados" já que temos um apelido comum. Esse apelido é muito corrente em toda a região. Se provém duma família original ou não, não sei. Suponho que esse nome "nasceu" da profissão que alguns homens tinham (ligada à caça- montaria. Em Espanha os caçadores são chamados pelo nosso apelido comum).
De qualquer maneira pertencemos à grande família dos antigos caçadores.
Assim sendo, um grande abraço, prima, e uma beijoca repenicada (quanto mais prima mais se lhe arrima, diz-se por lá. :)))


De maria teresa a 30 de Junho de 2013 às 10:39
Não conheço a praia de Paredes, mas sabia da existência do rio Lena, aquele que deve ser o que citas como passando pela tua terra natal.
A Praia Grande que não mencionei, ainda é uma que de vez em quando frequento.
Lembraste do eléctrico que ia das Azenhas do Mar a Sintra (na actualidade está a funcionar mas só no Verão e parte da Praia das Maçãs) que era aberto, de bancos corridos?
Adorava andar nele! Nunca mais o fiz!
Como sabes a praia que fica perto do meu Refúgio é a do Magoito, gosto muito dela, nela tenho passado grande parte da minha vida de adulta, este ano está cheia de rochas a descoberto e tornou-se demasiado visitada por aqueles visitantes que não sabem estar numa praia. Os tempos mudam e a calmaria que sentia num passado não muito distante, passou a ser uma agitação imensa, com gente a jogar à bola num local onde não devem, com crianças a passarem por cima de nós, com as tais obscenidades gratuitas, de tal modo que até falam dos filhos dizendo: "aquele filho da p***" (com um enorme sorriso nos lábios :):):)
Querido primo vou pensar em que ocupar o meu tempo hoje...talvez numa espreguiçadeira do meu mini-jardim a continuar a ler "A Piada Infinita" de David Foster Wallace, com 1197 páginas (fui verificar) :):):)
Um ótimo domingo para ti e restante família, adoçado com umas beijocas minhas


De Carapau a 2 de Julho de 2013 às 19:37
Confirmo o nome do rio e fico admirado com o nº de páginas do livro. Tratando-se duma "Piada Infinita" se calhar até devia ter mais páginas. Eu é que já não tenho braços para aguentar tanto papel. Olha se eu adormecesse durante a leitura e o calhamaço me caisse no peito! Era uma vez um Carapau! :))
Bjo.


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