Quinta-feira, 9 de Maio de 2013

Diálogos

Há conversas que não passam de muito palavreado, mas nada dizem.

Outras que em meia dúzia de palavras dizem tudo e nem precisam de um desenho para as entendermos.

 

Por essa altura eu vivia no Porto com mais os dois Carapaus que constituíam o cardume. E continuam a constituir, louvado seja o Senhor, ainda que navegando em oceanos diferentes.

Estava-se em princípios de setembro e só eu ocupava a caverna que nos servia de abrigo, os outros estavam de férias, mais para sul. Era um sábado, ainda se trabalhava aos sábados por essa altura (uns só de manhã, outros o dia inteiro). Eu tinha começado a trabalhar há meia dúzia de meses, daí o manter-me na “Mui Nobre, Leal e Invicta Cidade do Porto” e só não escrevo carago, porque essa palavra não faz parte de divisa.

Estamos portanto num sábado à noite e eu sozinho por ali…

Deve ter sido por medo da solidão que não dormi na caverna. Procurei outra onde, menos solitário, pudesse passar a noite. Se fui pescado por arrastão ou por um anzol isolado já não me recordo bem, talvez até tenha eu passado a pescador…

Não sei se por estranhar a cama, habituado que estava à velha cama de algas, se por outro motivo qualquer (mas vou por esta segunda hipótese) a verdade é que devo ter dormido pouco “e depressa”. Daí o ter-me levantado mais tarde e lá para o fim da manhã regressei a penates, isto é, ao 3º andar e último, do prédio onde tinha a caverna.

Ao chegar ao patamar desse último andar dei de caras com um outro Carapau, sentado no chão e encostado à porta. Desenvolveu-se então um dos diálogos mais prolixos que já tivemos até hoje (e quando nos encontramos falamos pelas barbatanas).

Convém dizer que fui apanhado de surpresa, não era suposto o Carapau em questão voltar tão cedo de férias. Foi então que:

- Tás aqui? – perguntei com ar espantado.

- Tou. – Respondeu com ar ensonado.

- Há muito tempo?

- Desde ontem.

- E não entraste?

- Não tenho chave.

Abri a porta e entramos sem mais palavras.

 

Há dias, no último encontro que tivemos, onde relembramos certas cenas passadas, perguntei-lhe se se lembrava desta. Disse que não.

O que prova que há coisas e situações que para uns ficam gravadas e para outros não.

Lembro-me também do diálogo, que ouvi a certa altura dessa noite, que se passava no quarto ao lado e tão distintamente que deveria haver uma comunicação qualquer entre eles, de que aliás não me apercebi.

Foi também um diálogo eloquente, que só não transcrevo aqui porque isto é um blog sério (quantas vezes o hei de gritar ao mundo?) e também porque diálogos ouvidos em “albergues espanhóis” não devem ser divulgados.

 

Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico - convertido pelo Lince.        

publicado por Carapaucarapau às 13:48
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13 comentários:
De Maria Araújo a 9 de Maio de 2013 às 16:12
Cá para mim, Carapau, ele até se lembra mas não quer falar nisso, aliás, não quis nem quer saber porque foste dormir para outra caverna.

Beijinho


De Maria Araújo a 9 de Maio de 2013 às 16:15
Ah! Se foste de arrastão ou pescado por anzol, ou pescador, quem me diz que sabes muito bem, mas como são águas passadas, não convém revelar.
Bj


De Carapau a 11 de Maio de 2013 às 16:24
A verdade é que não me lembro de alguns pormenores. Digamos que fixei o essencial e esqueci o acessório.
E pelos vistos não fui só eu que me esqueci...
Bjo.


De Labirinto de Emoções a 10 de Maio de 2013 às 20:52
Hum...hum...pescador ou pescado por anzol isolado ainda acredito, agora por arrastão, nem pensar, não és carapau de arrastão..:))))
E a cama...oh a cama, essa não devia ser de facto grande coisa...pois ainda te deu para ouvires conversas alheias... fosse ela fofa, macia e confortavel... não terias tu tido tempo para os sentidos auditivos em alerta...:)))
E como isto é um blogue sério...fico-me por aqui...(para não notares que já dei uma gargalhada)
Beijocas em silêncio...e sem desenhos..:)))))


De Carapau a 11 de Maio de 2013 às 16:30
Às vezes eu até durmo em pé, quanto mais deitado.
Acontece porém (acontecia, melhor dito) que durmo sempre com os ouvidos abertos e atentos. E qualquer carapau que se preze consegue fazer várias coisas ao mesmo tempo. :))
E garganta também nunca lhe faltou. :))
Bjo.


De Rafeira a 12 de Maio de 2013 às 13:52
Passaste uma noite de Rodriguez ? Não havia necessidade .....


De Carapau a 13 de Maio de 2013 às 10:38
Eu sei quase tudo :) percebo tudo :) só que às vezes não m'alembro.
Portanto terás de me explicar quem é ou era o Sr. Rodriguez. Pelo Z final deduzo que podia ser o porteiro do "albergue espanhol", mas não me recordo nada de o ter visto por lá...
Eu conheci dois Rodriguez. Eram irmãos e um era Emiliano (de certeza) e outro Manuel (sem certeza).
Mas não deve ser nenhum desses o teu Rodriguez.
Mesmo que não seja um Sr. recomendável e mesmo considerando a seriedade deste blog, conta-me lá a história, sff.
Bjo. (E Paris? para quando?)


De Rafeira a 13 de Maio de 2013 às 12:27
Há uns tempos, mais ou menos largos, em Espanha, a maioria dos casais que iam passar uma noite, só uma, em Hotéis, Pousadas e afins, registavam-se invariavelmente como Sr. e Sra. Rodriguez .
Hoje, com a crise, não sei se a tradição se mantem.
Para concluir, Rodriguez á muitos :-)


De maria teresa a 12 de Maio de 2013 às 14:35
Uma situação perfeitamente normal, atendendo que na altura eras um Carapau que não tinha formulado votos de castidade, nem tinhas que justificar as tuas acções.
O outro Carapau estava na mesma situação que tu, o que pudesses ter feito ou não, era-lhe indiferente, tão indiferente que esqueceu o "incidente", é apenas estranho é não se lembrar da incomodidade de dormir sentado num patamar de um prédio, à porta de casa. Já alguma vez pensaste que ele provavelmente fez o mesmo que tu, quando verificou que não estava ninguém em casa (uma justificação para a indiferença), e foi dormir a outra caverna, chegando pela manhã, tal como tu?
Num blogue sério como tu, apenas hipóteses sérias, normais, bem elaboradas (ou não fossem feitas por mim), com lógica, reveladoras de um raciocínio dedutivo, com inferências analíticas bem elaboradas, numa simbiose perfeita entre o conhecimento e e reconhecimento.
Uma análise criteriosa, num universo abstrato, atendendo que os dados do problema podem ter sido contaminados com o tempo que separa a acção da narração.
À priori é uma questão simplista atendendo à época em que os Carapaus referidos no texto, pertenciam a uma faixa etária propícia a este quadro de atuação...

No habemos problema, habemos é uma bruta constipação que me está a prender em casa e a dar cabo da caixa dos neurónios.

Como te adoro e não quero ser a causa de um Carapau, mesmo sendo um Senhor Carapau, ficar doente, não te envio nenhuma espécie de contacto físico.
Mas, se me quiseres enviar um miminho, eu aceito.






De Carapau a 13 de Maio de 2013 às 11:08
Deduzo, empregando o método dedudivo e fazendo a análise da situação em que te encontras, que costumas dormir descalça. Ora quem dorme descalço corre riscos. Um deles é o de ficar com os pés de fora, ter um arrefecimento brusco e apanhar uma constipação. Que fazer depois dela apanhada? Tratá-la. Como se trata uma constipação em plena Primavera? Puxando pela mona. Desta maneira os humores (e o humor) sobem à cabeça e essa subida ajuda muito a tratar a malvada.
O teu comentário não foi outra coisa que um tratamento para a tal constipação. Puxaste pelo humor, veio mais do que um (daí se chamarem os humores) e fizeste considerações histórico-filosóficas que fariam inveja aos Kants, mesmo constipados.
A hipótese de o outro Carapau também ter aproveitado para procurar algas noutra caverna, também passou pela minha brilhante mente. Só que eu não trabalho só sobre hipóteses. Eu vou ao fundo das questões e quando tenho uma dúvida, por menor que seja, não sigo esse caminho. Não atiro o barro à parede para ver se cola. Comigo ou cola ou não é barro. (Estás a seguir o meu raciocínio?)
A seriedade do blog não me permite divagar sobre hipóteses que podem estar inquinadas (na altura os próprios "albergues espanhois" estavam por vezes inquinados...), que podem estar inquinadas, dizia, eu, pelo meu ponto de vista de observador/comprometido com teses que... (pronto, já vi que me entendeste).
Assim sendo que posso eu fazer? Tratar-te da constipação certamente. Mas como uma pessoa como tu, imbuida de um tão alto espirito analítico que equaciona racionalmente os problemas, que és mesmo brilhante quando queres ( e pões uns pozinhos de purpurina na cara) já deves ter tomado as tuas precauções e feito uns "cháses" e outras mezinhas eu não preciso de fazer nada. Ternho aqui uma longa alista de Videntes, Curandeiros, Profs, Mestres,Astrólogos, até mesmo um "Bispo", que te tratarão da saúde, se vieres a precisar. Mas com um chá, isso vai passar.
Para compensar a falta do habitual "contacto físico a nivel opercular" (e vindo embrulhado não traria grande perigo), aqui ficam dois e repinicados (esperando eu que o "repenique" ajude o chá).
As melhoras.


De Carapau a 13 de Maio de 2013 às 11:10
Reparo agora que me alonguei e bem podia ter aproveitado a resposta para ter feito o próximo post. Com a falta de imaginação com que ando, bom jeito me dava.
Carapau! Ganha juizo!


De maria teresa a 13 de Maio de 2013 às 14:27
Foi um alongamento bem alongado que demonstra a capacidade técnico-pedagógica-medicinal de que estão imbuídos, o texto e tu.
Acertaste em todas a mezinhas que utilizei, nomeadamente defumar o lar, doce lar, quando não está amargo, não com folhas de eucalipto, ideia que surgiu num ápice nessa tua mente brilhante, mas com pauzinhos de incenso comprados nos "amigos" dos amigos dos meus familiares indianos ( por acaso até já não são familiares "mas isso agora não interessa nada")
Com a discrição que me caracteriza não te vou perguntar nada mais (aliás nem mais nem menos não te perguntei) sobre albergues espanhóis e canos entupidos...
Numa pequeno aspecto erraste, eu não durmo descalça e passo a explicar. Como tenho vários sapatos de salto bem alto e pouco ou nada os uso, não tenho um braço gentil em que me apoiar (creio que o braço não é gentil, o gesto do cavalheiro que me o possa oferecer é que é gentil) então para que não ganhem mofo, durmo com eles calçados, uma noite é o par azul, na outra o vermelho e assim sucessivamente, até usar todas as cores, voltando depois aos primeiros. Não podes deixar de concordar que as minhas noites são bem coloridas, a nível das extremidades dos membros inferiores. Assim se tiver que me "alevantar" de "arrepente" saio bem calçada.
Supondo que um ladrão me entra pela casa "adentro", eu "alevanto-me" toda desgrenhada , com um pé em riste, pronta a perfurar-lhe o baixo ventre, o fulaninho dá um grito de bradar aos céus e corre como uma lebre perseguida por um furão.
Perdi-me no discurso...talvez porque me veio à mente uma outra cena, mas como isto é um local muito sério, vou achar-me e afastar a ideia "louca" que até me fez tossir.
Pois é isso! Estava a falar (mas não disse quase nada sobre a minha maleita)! Agora que estou na fase de recuperação passei a ter uma tosse que só surge quando me rio, conclusão: não me posso rir! Isto para mim é que é uma verdadeira doença, rir não paga imposto, é de borla e faz milagres na pele.
Quem agora se alongou mas espero que não tanto como tu, também não me apetece verificar porque isto não é uma competição, porque se fosse outro galo cantaria ou , no meu caso, outra galinha cacarejava.

Atendendo aos sintomas decrescentes do meu mal, hoje envio-te uns tantos ou quantos beijinhos opérculares mas embrulhados em papel pardo.

Fica bem!


De Carapau a 13 de Maio de 2013 às 18:01
Esta resposta vai ser telegráfica, para compensar.
Se não te podes rir, deixa-te ficar por aqui, que isto é local sério.
Fico com inveja das tuas noites coloridas, mas que posso eu fazer?
(Só uso sapatos castanhos e sem salto alto...)
Aproveito o papel pardo para te enviar estes 2 bjos.


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