Quinta-feira, 3 de Janeiro de 2013

Conversa matinal

                         

                   O importante é que reflita corretamente

 

 

- Tu já viste isto?

 

- O quê? Cortaste-te outra vez?

 

- Raramente me corto, mas agora estão na moda os cortes…

 

- Não sei do que estás a falar.

 

- Não admira, não sais daí…

 

- Não saio porque me amarraste. Daqui só para o chão…

 

- E ias à vida feito em mil pedaços, não?

 

- É o meu destino, mais dia, menos dia. E o teu?

 

- O meu quê?

 

- Destino.

 

- Ah! Em mil pedaços acho que não vai ser, mas em milhões e milhões…

 

- Tu e a mania das grandezas. Sempre em grande…

 

- Eu diria sempre em pequeno e cada vez mais pequeno. Vamos lá ver se percebes: quantos mais milhões, mais pequenos os pedaços.

 

- Não estudei essas coisas. Nem contar sei…

 

- Mas tens-me “contado” cada uma…

 

- Isso são contas doutro rosário…agora de números não sei nada.

 

- E achas que perdes alguma coisa?

 

- Eu nem perco nem ganho. Como sabes só reproduzo fielmente o que vejo.

 

- Fielmente…talvez seja exagero teu. Aqui e ali já não é bem assim…

 

- Engano teu, meu caro. Onde há falhas, eu não reproduzo nada, portanto não falho.

 

- A fazer trocadilhos baratos?

 

- Nem sei o que isso é.

 

- A conversar a conversar, cheguei ao fim da barba.

 

- Olha que ali no pescoço ainda deves fazer mais uma passagem…

 

- Para a outra margem?

 

- Para ficares mais apresentável.

 

- Se não fosses tu…

 

- Não ironizes…se não fosse eu, era outro.

 

- Olha que nem sou muito disso.

 

- Não sei dessas coisas. Só sei do que se passa aqui.

 

- E sorte tens tu, com janela para a rua…

 

- Já tenho refletido um ou outro raio de sol mais atrevido.

 

- Estás a ver? Nem todo se podem gabar disso.

 

- Não sou gabarola.

 

- E eu sou?

 

- Só emito opiniões que me tenham sido dirigidas. Aliás. Emito-as, refletindo-as…

 

- Muito preciso…

 

- Quando é preciso.

 

- Há quantos anos já estás aqui?

 

- Não sei, não tenho calendário nem relógio, tu é que deves saber.

 

- Pensando bem, não é assim há muitos anos. Não foste o primeiro…

 

- E serei o último?

 

- Isso, meu caro, não sei. No entanto arrisco dizer que se não entrar um golpe de vento pela janela que te atire ao chão, há muitas probabilidades de isso acontecer.

 

- Não percebi o que disseste, só entendi essa do golpe de vento, já tenho abanado.

 

- Também eu não percebo certas coisas tuas…

 

- Como, por exemplo?

 

- Algumas, mas uma especialmente me traz intrigado há muitos anos.

 

- Posso saber qual é? Talvez te possa explicar.

 

- Como sabes, em geral quando te enfrento fico a um meio metro de ti.

 

- Sim. E qual é a dúvida?

 

- Reparo que a imagem que me devolves, está também esse meio metro atrás de ti.

 

- E?

 

- E…por detrás de ti está uma parede com uns 25 ou 30 centímetros de espessura.

 

- Se tu o dizes…

 

- E por detrás dessa parede está o quarto de banho da minha vizinha…

 

- Onde queres tu chegar?

 

- Melhor dirias onde eu não posso chegar…

 

- Porquê?

 

- Porque eu devia estar no quarto de banho da minha vizinha e sei que ela toma banho todos os dias e eu devia vê-la e nunca a vi.

 

- Grande trapalhada tu estás a fazer. Sabes que te digo?

 

- Estou à espera.

 

- Estuda para saberes por que não vês a tua vizinha a tomar banho e não me faças perguntas parvas.

 

- Já percebi que também não me sabes explicar e então refugias-te no insulto…

 

- Então para que falaste para mim?

 

- Não falei para ti, falei para os meus botões.

 

- Também…falas com todo o mundo…

 

- Julgavas que era só contigo?

 

- Não, isso não. Já te tenho ouvido falar com pessoas e coisas.

 

- Sou um poliglota, amigo!

 

- Tu lá sabes, sobre isso não reflito nada.

 

- Ah! Ah! Aprendeste essas piadas comigo! Mas enfim…prova que não caiem em cesto roto as minhas conversas.

 

- Ainda bem que falas em cesto roto, porque ali o …

 

- Calma, já sei. De qualquer maneira obrigado pela atenção que prestas ao que se passa à tua volta.

 

- É que ouvi um queixume já faz tempo…

 

- Ah! Ele então queixa-se?

 

- Pergunta-lhe!

 

- Não desço tão baixo.

 

- Põe-o em cima do banco, sempre fica mais a jeito de veres…

 

- Não te metas onde não és chamado.

 

- Já cá não está quem falou. Já não me ouves nem mais uma palavra.

 

- Ai sim? Zangado? Então bom dia! Começou um novo ano.

 

 Vou-me à vida.

 

 

 

Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico - convertido pelo Lince.        

 

 

 

 

publicado por Carapaucarapau às 18:04
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7 comentários:
De maria teresa a 7 de Janeiro de 2013 às 10:14



Querido Amigo Carapau, melhor do que tu, ninguém sabe quanto gosto de ti e que a última coisa que queria fazer era magoar-te.
Quero falar no teu espelho, tens o direito de saber com quem lidas todos os dias! Recebi dele uma carta da qual passo a transcrever apenas uma parte (talvez assim te poupe a algum sofrimento):
“Querida Maria Teresa, ícone de beleza, elegância, inteligência, perfeição (…) foi com muito desgosto que vim a saber que és amiga do safado do Carapau que me mantem amarrado a uma parede de uma casa de banho, é certo que estou numa situação em que consigo observar tudo o que se passa na dita.
Todos os dias, logo pela manhãzinha me pergunta: Espelho, espelho meu, há no mundo algum carapau mais bonito do que eu? O que devia perguntar era: Espelho, espelho meu, há no mundo algum carapau mais feio do que eu?
Vaidoso do caraças! Logo em seguida começa com a dança das barbatanas, espeta as peitorais, eleva as laterais, aquelas que ele abre quando abraça as percas, as pescadas (…), mira-se e remira-se, um horror! Sinto-me tão envergonhado que tu não consegues imaginar!
E o ribombar de trovões que por aqui se ouvem? Apanho cada susto!
Esta casa de banho é pior que o metro em hora de ponta, com ele cá dentro, entrou outro dia uma sardinha pequenina que sabia o abc, tu sabes de quê, eu sinto-me a encolher só de pensar nas cenas que vi.
(…)
Vem-me buscar minha querida deusa, tira-me deste inferno, pior que o de Dante, embora esse nunca tenha visto, para que eu possa morrer serenamente e que leve para o céu dos espelho a tua bela imagem e o teu impecável comportamento sanitário.

Teu quando o desejares
O Espelho (no degredo) ”

Como vês, acho-o um lambe botas, embora diga algumas verdades sobre mim, sobre ti, não acredito em nada! Também cortei mais de metade da carta.

Um abraço carinhoso para te consolar um pouco, a mágoa deve ser muita!


De Espelho a 7 de Janeiro de 2013 às 15:15
Carapau:
Ouvi as tuas gargalhadas quando leste esse rol de mentiras que uma Senhora Maria Teresa te mandou, dizendo que tinha recebido uma carta minha. Ouvi também os epítetos (esta palavra aprendi-a contigo, quando te cortas soltas alguns epítetos…) que lhe chamaste quando terminaste a leitura. Confesso que até fiquei um bocado chocado e logo eu, que desde criança, ainda simples vidro da Covina e já estava habituado a ouvir as conversas e os impropérios dos operários lá da fábrica, donde sou natural. (Impropério é assim a modos que um epíteto mas mais pobrezinho, suponho que saibas).
Carapau! Conhecemo-nos há um bom par de anos, sabes que te sou mais fiel que um cão, e que portanto reproduzo fielmente tudo o que me é dirigido. Como é que eu poderia (mesmo que fosse Espelho de maus instintos) mandar uma carta a essa Senhora que nunca vi por aqui. Para mim a única pessoa que me merece todo o crédito és tu Carapau duma figa (é assim que ás vezes me tratas também: “ah espelho duma figa que me estás a fazer mais velho”) a quem me dedico e dedicarei até ao fim da minha existência, seja a minha reforma devida a um golpe de vento ou a uma zanga tua, como fizeste com uma tal cadeira…
Não sei se estás a pensar levar este caso a tribunal (agora toda a gente manda tudo para o tribunal, conforme ouvi hoje nas notícias, mas então terás de usar uma gravata, pois até os desengravatados do costume levavam gravata hoje, quando foram bater à porta do tribunal. Desculpa esta deriva mas também ouvi os nomes que lhes chamaste quando os viste assim). Se levares a Senhora a Tribunal conta comigo e os dois “fazemos-lhe a folha” (também aprendi esta na Covina e não me esqueci).
Depois…aquela referência deselegantíssima ao “ribombar dos trovões”, como se um Carapau da tua espécie (não oriundo da Covina) fosse “desses”.
Carapau: com amigas dessas, não irás longe. Atraiçoam-te a cada esquina, ainda que façam juras de eterna amizade. Só te digo uma coisa: se um dia o acaso a pusesse à minha frente, ela ia a ver-se ao espelho como nunca se viu. Certamente lá por casa há espelhos descendentes (se não eles mesmos) dos ilustres cristais da Boémia, desses que mentem para se manterem vivos e que bajulam as mulheres quando em frente a eles compõem os elegantes chapéus. Comigo ela ia ver como eu “lhas cantava” (não as janeiras que foram já ontem, mas umas coisas que aprendi lá na escola do vidro…)
Já vai longa a conversa, conta comigo Carapau para desmascarar os impostores deste mundo!
Abraço do teu Espelho que nuca te engana.


De maria teresa a 7 de Janeiro de 2013 às 19:18
Espelho malvado, tens duas faces e eu a acreditar em ti!
Vai para tribunal vai, reles espelho da Covina, que eu levo como testemunhas todos os meus espelhos de cristal da Boémia, circundados por molduras de prata!
Vou até às últimas instâncias para provar que foste tu que me enviaste a missiva a trair o teu dono.
Contigo não falo mais, serás contatado através dos meus advogados, contratei 17 a fina flor de Portugal e arredores.
Vou pedir uma indemnização igual à nossa dívida externa e então, só então, compreenderás o que é mentires a uma Senhora do meu calibre!
Que te partas em milhares, não, em milhões de pedacinhos!


De Carapau a 7 de Janeiro de 2013 às 15:23
Caríssima Maria Teresa:
Depois do que disse e escreveu o Espelho, que te posso dizer eu?
Resolvam lá o diferendo, que eu, embora tenha toda a confiança no que me diz o Espelho, não me meto nessas polémicas.
Independentemente do que disseste que ele te disse, conta com o meu beijo, porque se há alguma coisa que os dois têm em comum, é isto do beijo.
Nunca o beijei a ele nem a ti. :))


De maria teresa a 7 de Janeiro de 2013 às 19:25
Querido Carapau estou incomodadíssima com esta situação.
A nossa amizade vai manter-se inalterada não acreditei nele. Vou tratar do assunto em tribunal, talvez até vá meter uma cunha ao TC e, se receber a indemnização pretendida ainda te calha metade, pelo incómodo que te estou a causar!
Nada de beijos! Um abracinho que é mais ternurento acompanhado das minhas desculpas!


De Labirinto de Emoções a 7 de Janeiro de 2013 às 20:47
Carissimo Carapau...que leio eu por aqui...que lavagem de roupa suja ... acho que o teu espelho ficou cheio de ciumes ao referires a tua vizinha, ao pensar que poderias ir fazer a barba para o espelho dela e assim juntares o util ao agradavel...fazias a barba e vias ela nuinha da silva no banho...e ele ficava a ver navios à porta da gruta...depois vem "limpar-se" com desculpas ... que está incondicionalmente ao teu lado, ou melhor à tua frente...
Queres um conselho? Compra um espelho mudo como o meu, veja o que vir...não tuje nem muje...lool
Toma lá o meu beijinho com sabor a maresia...tem um bom ano e ... não partas o espelho de uma figa que são 7 anos de azar...:-)))))


De Carapau a 8 de Janeiro de 2013 às 12:50
Com essa dos 7 anos de azar fiquei convencido, vou passar a ter mais cuidado com ele. Quanto ao resto... eu acredito mais no Espelho do que "no resto". Ele nunca me traiu ainda que não me tenha favorecido nunca. Acho mesmo que anda a "distorcer-me", pois cada vez me pareço menos comigo. :)
Com respeito à mudeza do "bicho" não gosto. Quero resposta às minhas dúvidas e uma boa conversa matinal é meio caminho andado para as esclarecer.
Agora que ando a pensar em pedir a "fiscalização sucessiva" das imagens dele, isso ando. Serei só mais um na imensa fila que já se está a formar. :)
Beijos com sabor a maresia? Gosto. Fazem-me lembrar percebes. :)))
Bjo.


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