Sexta-feira, 7 de Dezembro de 2012

O colar e o peru

     

 O colar não era este, que supostamente                   O peru sim, era este, aqui em pose

seria da Maria Antonieta, a rainha.                            de acasalamento.

     

Faltava pouco tempo para o Natal, as pessoas já andavam atarefadas a correr de loja para loja para comprar prendas e prendinhas, ninguém sonhava ainda com a chegada da dona crise, quando o acaso pôs ao alcance do Alfredo Penso Rápido, conhecido pelos amigos como o Diplomata, uma informação preciosa. Estava ele no café a apreciar a sua aguardente, já tomado o café, quando ouviu uma conversa que se passava na mesa ao lado. Um Doutor, assim o tratavam os outros companheiros de mesa, todos amigos ao que entendeu, contava sobre a prenda que tinha oferecido dias antes à amantíssima esposa, quando fizeram anos de casados. Nada menos que um colar de diamantes, coisa ao alcance de poucas bolsas mesmo com auxílio do cartão de crédito. Acrescentou ele que a própria amantíssima achou um exagero, mas que se apressou a pô-lo ao pescoço e a admirar-se ao espelho e achou que lhe ia muito bem com o tom de pele.

Alfredo, atento, registou tudo, escondido atrás do jornal desportivo, que lhe dava o ar de intelectual da bola e bolou logo um esquema. Tinha de saber onde morava o Doutor e depois deixar que o destino o ajudasse. Engoliu às pressas o resto da aguardente, pois os vizinhos da mesa ao lado preparavam-se para levantar voo e, com o ar mais aéreo que pode arranjar, saiu do café atrás deles. Com sorte, quem sabe, o doutor morava perto e ia a pé até casa.

Não foi o caso. O homem meteu-se no carro, uma “bomba” de acordo com o tal colar, arrancou rapidamente, que tempo é dinheiro, e desapareceu. Alfredo só não ficou a ver navios porque já estava preparado para essa eventualidade. Perdeu o homem, mas não perdeu a matrícula do bólide.

Alfredo tinha amigos, muitos nem sabiam as linhas com que ele cosia a vida, e no dia seguinte chegou à fala com Paulo, que trabalhava na Conservatória do Registo Automóvel e contou-lhe uma história, coisa em que era perito. Um palonço dum gajo dum certo carro tinha-lhe dado uma panada na bicicleta e pôs-se na alheta sem dizer água vai. Felizmente tinha conseguido tirar a matrícula e agora precisava de saber o nome do panasca e a morada para tratar do assunto, que aquilo não ia ficar assim. Havia de pagar tudo com língua de palmo.

Para o caso interessava pouco se o Paulo sabia ou não que Alfredo mal sabia andar a pé quanto mais de bicicleta. Ao fim da tarde o amigo deu-lhe os elementos: nome, morada, idade, profissão e mais coisas que nada lhe interessavam.

Durante uns dias Alfredo estudou a situação “in loco”. Moradia em bairro residencial, jardim na frente da casa, umas arrecadações e um pequeno galinheiro nas traseiras, doutor a sair cedo e a entrar à noite, a mulher a ausentar-se com frequência, uma empregada a tomar conta da casa. Dois ou três dias bastaram para saber que no fim de semana haveria festa rija em casa duns amigos do casal. Altura ideal para o golpe. Faltava pouco mais de uma semana para o Natal, a ideia saltou rápida. Ao fim da tarde do dia da festa, pouco depois do doutor mais a amantíssima terem saído de casa, convenientemente vestidos para o evento, Alfredo, fardado de motorista de gente importante, boné de pala a atestar a profissão, e com um peru vivo debaixo do braço toca à campainha da moradia. Aparece a empregada, a quem se apresenta:   - Sou motorista da família Tal, onde os seus patrões foram a uma festa e mandaram-me vir aqui entregar este peru, que lhes foi oferecido.

E disseram-me para me entregar um colar que a Senhora recebeu há dias de prenda, ela disse-me que você sabe qual é onde está. Esqueceu-se de o levar com ela e quer mostrá-lo às amigas.

Sem hesitação a mulher recebe o peru e foi buscar o colar. Alfredo agradece, deseja-lhe um bom Natal e sai calmamente.

O resto adivinha-se. No dia seguinte ao dar por falta da joia, pergunta à empregada e esta, com a maior ingenuidade possível, conta o que aconteceu. Doutor e Mulher arrepanham os cabelos, barafustam com a empregada, mas só têm uma coisa a fazer naquela altura: apresentar queixa à Polícia, contra desconhecido.

Passam três ou quatro dias e numa tarde em que os donos da casa estão fora, entram em cena Matias da Beata e Chico Torto, ajudantes de campo de Alfredo, a quem recorre quando precisa de mão de obra. Devidamente vestidos e compondo o melhor ar de polícias da Judiciária, apresentam-se na moradia, tocam a campainha e entram à fala com a empregada.

- Boa tarde minha Senhora. É aqui que mora o Doutor F. T.?

- É sim, mas os senhores não estão em casa.

- Para o caso não interessa muito. Nós somos da Judiciária e vimos comunicar que já apanhamos o meliante que roubou o colar. Diga por favor aos seus patrões para passarem lá pela Judiciária para levantarem o colar e assinarem a papelada, para podermos encerrar o processo. Não se esquece?

- Ai que bom, a minha Senhora vai ficar tão contente, ainda bem que o apanharam. Não esqueço não, logo que chegue conto-lhe tudo.

- Muito bem. Agora vá buscar o peru para o levarmos, porque ele também foi roubado e é para o entregarmos ao dono.

 

E foi assim que, naquele Natal, em casa de Alfredo houve festa farta, com peru na mesa e um colar valioso bem guardado, para ser transacionado mais tarde, quando a poeira assentasse.

 

Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico - convertido pelo Lince.        

publicado por Carapaucarapau às 14:19
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6 comentários:
De Labirinto de Emoções a 12 de Dezembro de 2012 às 21:00
Aqui posso incluir o proverbio...com papas e bolos se enganam os tolos...só tenho pena do desgraçado do peru que andou de andas para bolandas e não escapou a servir de repasto na noite de Natal...
Por mim os peruzitos podem ficar sossegados que não os como, nem no Natal nem no resto do ano...sou mesmo muito mais adepta do peixito grellhado, sem excluir os carapaus...ahahahah
Beijocassssss


De Carapau a 12 de Dezembro de 2012 às 22:04
Aposto que deve ter caído um dente com a gracinha...
Caso para dizer que em bons assados se mete quem quiser grelhar o Carapau. :)
Mas o problema aqui chama-se peru, também não sou um grande apreciador, mas não deixo de lhe dar umas dentadas, quando me aparece pela frente, de preferência recheado.
Não consta da história, mas talvez o Alfredo o tenha recheado com o colar...
Bjo.


De Maria Araújo a 14 de Dezembro de 2012 às 19:21
Ó Carapau, adorei o que li.
Cuidado com o pormenor do plano arquiteatado(tantas dicas!)...Nos dias que correm.

Beijinho


De Carapau a 15 de Dezembro de 2012 às 17:50
Este blog também existe para dar ideias a quem as quiser aproveitar... :)
Mas no caso presente só o perú me parece prejudicado. Já não há colares como dantes... :)
Bjo.


De Teresa Santos a 18 de Dezembro de 2012 às 18:22
Carapauzito,

Pensavas que ia embora definitivamente sem dizer "água vai"? E como é que sobrevivias sem a dita?

Adiante.

És um artista a contar histórias, olá, se és!

Obrigada pelos belos momentos que me proporcionaste, obrigada pelas discussões tão interessantes e pertinentes.
Se vou ter saudades tuas? O que te parece?
Irei espreitando, sorrateira, o que se passa por este aquário.

Santo Natal, óptimo(?) 2013.

Abraço grande (barbatanas fechadas?! Ok!)


De Carapau a 23 de Dezembro de 2012 às 14:43
Por acaso eu até sou daqueles animais que não pensam nada sobre as outras pessoas...:))
E com água ou em seco, cá me vou movimentando, às vezes com vontade de fazer como tu.
Mas...herdei dum avô esta mania de persistir e por cá vou andando.
O teu "sítio" era um bom local para discutir coisas, mas fechou, tá fechado, já dali não vem corrente de ar.
Quando ao Natal...na resposta que te dou no post seguinte, dele falarei.
Aqui fica o meu abraço.


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