Quinta-feira, 1 de Novembro de 2012

Tétano

 

Ontem tomei a vacina contra a gripe e a enfermeira perguntou-me como estavam as outras vacinas, sobretudo a do tétano.

Disse-lhe que não fazia a mínima ideia e não me lembrava de alguma vez ter tomado tal vacina. Fiquei em tratar disso.

De uma “história” relacionada com esta vacina do tétano me lembro bem, apesar de muita água já ter corrido sob as pontes, de então para cá.

Num belo agosto de um belo ano, eu e um amigo agarramos nas malas e zarpámos por aí fora: Grécia, Turquia e Itália (por esta ordem) eram os destinos a atingir.

Na Grécia aproveitamos e visitamos 3 ilhas, num cruzeiro de 3 dias e 2 noites ou coisa parecida. Numa das ilhas, depois da visita guiada às ruínas de um qualquer templo (?), o calor era tanto que nós os dois e duas italianas nos atiramos ao mar, enquanto o resto do grupo se refrescava num bar. Viemos a saber depois que não era recomendado tomar banho naquela zona. Era tarde, porém. Quando saímos da água, todos vínhamos a sangrar de vários golpes que nos foram provocados pelos muitos pedras que havia no mar. Pedras das ruínas de antigas construções pré helénicas sobre as quais o mar tinha exercido o seu processo de erosão, deixando nelas os veios mais rijos que eram autênticas lâminas que cortavam quem se aventurasse a entrar na água. Daí a recomendação, que não vimos antes, para não tomar banho.

Quando saímos parecíamos quatro guerreiros saídos de uma qualquer batalha contra Esparta. Feita a análise aos ferimentos concluímos que eram superficiais e sem importância de maior. Só o meu amigo tinha um na planta do pé, bastante profundo e que sangrava um pouco mais e lhe doía.

De regresso ao barco desinfetaram-no e fizeram-lhe um penso e o assunto ficou resolvido. Julgava ele.

No dia seguinte estávamos de novo em Atenas e programamos umas excursões pelas redondezas aproveitando a “boleia” das italianas ou elas a nossa, já não me lembro.

E então o meu amigo começou a queixar-se com dores e a ter dificuldade em andar.

Teve de ir ao hospital. Aí contou o que lhe tinha acontecido, foi examinado, fizeram-lhe o curativo e vacinaram-no contra o tétano. E entregaram-lhe uma papeleta onde estava tudo o que não podia comer nem beber durante um ou dois meses. Parecia a lista da lotaria do Natal da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, naquele tempo em que a lista continha todos os números premiados. Concluindo, e por exclusão de partes, podia comer massa, arroz e batatas e beber água. Tudo o resto lhe era vedado. Eu fiquei muito admirado, porque em tempos tinha levado uma injeção antitetânica, na sequência dum pequeno acidente, e não me lembrava nada de me terem impedido de comer fosse o que fosse. Ele porém cumpriu a recomendação e enquanto eu me batia com um bife, ou uma dourada, ele “batia-se” com um prato de arroz ou massa, acompanhado por uns copos de água…

Dois dias depois fomos para Istambul, no dia da chegada ainda demos umas voltas pela cidade, ele a queixar-se outra vez do pé, e no dia seguinte com dores e sem conseguir andar começou a pensar em voltar para os pátrios ares. E eu? Que ficava a fazer por ali sozinho?

Disse-lhe então que íamos fazer uma última tentativa. A primeira operação era tirar o penso e ver o aspeto da ferida. Assim se fez e não podia ser pior. Tinha todo o ar de uma grande infeção. Perguntei-lhe se era homem para aguentar uma “operação” por um “técnico de elevada competência”, ele encolheu os ombros pouco convencido, mas lá fui à farmácia comprar álcool, gaze, algodão e uma pomada com um antibiótico (um pormenor que não esqueci: no meio das moedas do troco e na falta duma qualquer moeda, vinha um comprimido,  avulso e desembrulhado, o que serviu para animar os ânimos). Chegado ao hotel, mandei-o deitar e morder uma almofada (as italianas tinham ficado para trás não podia contar com elas para uma mordidela…) e atirei-me ao trabalho. Fiquei banzado com o que saiu da ferida infetada. Depois de ter sido tratado por um “enfermeiro” de primeiros socorros no barco e de ter sido “tratado” no hospital, quando espremi aquilo tudo saiu uma camioneta de areia, pus e mais algas do que eu tenho aqui na minha caverna para me deitar!

No dia seguinte já quase não tinha dores e no outro dia já corria e saltava como um gamo. Entretanto “dei-lhe alta” no que dizia respeito à alimentação e ele lá foi dando umas dentadas no peixe e na carne. Ainda hoje diz, a gozar comigo, que lhe salvei a vida.

A vida não, mas parte das férias dele e minhas, salvei com certeza.

Até hoje não fui incomodado pela Ordem dos Médicos, por exercício ilegal da medicina…

 

Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico - convertido pelo Lince.        

publicado por Carapaucarapau às 21:53
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5 comentários:
De Labirinto de Emoções a 2 de Novembro de 2012 às 18:48
Menino Carapau

Que a Ordem dos Médicos não o leia senão ainda é julgado em "iudicium extra praz" por ato ilicito de medicina corroborado por 2 italianas (que nem direito tiveram a dar uma trinquinha no doente e no enfermeiro "digo eu" sem nenhuma convicção...)
Brincadeiras à parte, ponha lá o bracinho a jeito para levar as 3 doses da vacina que com o tetano não se brinca.
Como sempre o seu artigo está escrito com o sentido de humor que lhe é peculiar e delicioso de ler.
Beijocas


De Carapau a 5 de Novembro de 2012 às 15:14
Como não há voluntários para novas experiências cirúrgicas, sou mesmo capaz de me submeter à vacina.
Bjo.


De maria teresa a 3 de Novembro de 2012 às 19:19

Por esta eu não esperava
Caíram-me até os queixos
O Carapau pelo mundo andava
E eu pensava que ele não saía dos eixos

Ainda por cima… um horror!
Andou com italianas atreladas
Por terras onde se parla “amore!
Nadou com elas peladas?

Os deuses estavam atentos
E o castigo logo o marcou
Levou com uns bons cortezinhos
Mas o amigo é que pagou

Coitado! Pobre rapaz…
Como ele foi corajoso
Deixar que tu lhe tocasses
É caso p´ra ficar famoso

Médico à força tu foste
E com enorme sucesso
Por acaso já pensaste
Que podes ter um processo?

Com o tétano não se brinca
Nada de medo ou tabu
Vai rápido tratar dessa …..(não encontro a rima)
Caso contrário podes virar urubu

Só por teres contado essas heroicas aventuras dois beijos, um em cada opérculo.

Nota: Não notei nada de diferente! Missão cumprida!


De Carapau a 5 de Novembro de 2012 às 15:39
Dessa... "trinca", querias tu dizer,
Mas não encontraste a palavra.
Assim tive eu que escrever
Uma que devia ser da tua lavra.

Procura de leste a oeste
Nalguma gaveta ou baú
Porque a rima que perdeste
Pode estar lá, no de Judas, o ...
(agora fui eu quem perdeu a rima)

As voltas que o mundo dá!
Dantes era eu o enfermeiro.
Agora se quero uma vacina, lá
tenho de ir ao Centro, ligeiro.

Obrigado pelo perfeito desempenho
Da missão a que te "obriguei".
A verdade é que me falta o engenho
Para resolver o problema que arranjei.

Já descobri que o problema só acontece neste PC, pois para quem vem "de fora" está tudo ok. Obrigado pela colaboração.
2 bjos também: um pela visita outro pela missão. :))


De Teresa Santos a 6 de Novembro de 2012 às 18:33
E depois deste testemunho público de exercício ilegal da medicina, continuas impune?

Eis, a prova, provada, de como funciona a "justiça" neste país!!!!!

Deus me livre de semelhante "médico"...

Pensando melhor...

Tão lindo, tão habilidoso, tão competente, tão...
... tão desejoso de poder continuar o belo passeio.

Matreiro, tão matreiro!!!!

Abraço (fecha as barbatanas. É preciso estar sempre a dizer o mesmo?!)


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