Quinta-feira, 30 de Janeiro de 2014

Que Alá vos proteja

                    

É a 2ª vez que utilizo esta foto no blog. Num outro post divaguei sobre ela. Agora vem mesmo a propósito…

 

Um dos itinerários das minhas marchas (leia-se “passeios”) passa junto a um supermercado, por acaso daquela cadeia que só tem uma vogal. Ontem, quando me aproximava do local, vi caminhar na minha direção um casal, já de certa idade, com o cavalheiro à frente a coçar a barba e a senhora, um ou dois metros atrás, a puxar, com manifesta dificuldade, o carrinho das compras.

Pensei “o sacana bem podia levar o carrinho” e a verdade é que no segundo seguinte o cavalheiro deu dois passos atrás e lançou a mão a ajudar. “Chiça! Estás cá com um poder de mente que até faz impressão”, sussurrei para os meus botões, admirado por tanto poder.

A verdade é que a mulher portuguesa “gosta” muito de andar carregada com sacos, saquinhos e saquetas. Digamos que não admira, já que é ela quem a maioria das vezes se encarrega sozinha das compras para a casa. Depois também tem as suas compras “particulares”…

A cena que acabei de descrever fez-me lembrar uma coisa que li há muito tempo no “Reader’s Digest”, as conhecidas “Seleções”. Tratava-se do resumo dum artigo, publicado uns anos antes num jornal americano, que fora escrito por um jornalista que, pouco depois da 2ª guerra mundial ter acabado, visitou alguns países do norte de África. Como se sabe aquela zona foi teatro de violentas batalhas, a chamada “guerra do deserto”.

Um dia, o tal jornalista deparou, numa zona meio rural/desértica, com o seguinte quadro: uma mulher com um pesado feixe de lenha à cabeça seguia a pé e, uns 30 metros atrás um cavalheiro, aparentemente a 2ª metade do casal, seguia escarranchado no seu burrico, a fumar descansadamente uma cigarrada.

O jornalista resolveu parar o burro e entrar à fala com o cavalheiro. A conversa foi mais ou menos assim:

- Boa tarde! Posso falar consigo uns minutos?

- Sim, senhor pode.

- Aquela senhora que vai ali à frente é a sua esposa?

- É sim, senhor.

- E por que vai ela a pé e carregada e o senhor aqui sentado no burro?

- Porque ela é mulher e este trabalho pertence a ela fazer.

- E o senhor que faz?

- Acompanho-a.

- E não seria melhor a carga ir no burro e os dois irem a pé?

- Não senhor. O burro é para me transportar e a minha esposa para levar o feixe da lenha.

- E acha isso bem?

- Não entendo, senhor.

- Se acha bem que seja ela a levar a carga e o senhor ir no burro. Por que não leva o senhor a carga e ela vai no burro?

- Senhor! Seria uma desconsideração para a minha esposa, que podia achar que era uma inútil. Isto faz parte da nossa tradição, da nossa cultura.

- Então foi sempre assim ao longo dos anos?

- Foi sim, senhor. Sempre assim…com uma pequena alteração.

- Alteração?

- Sim, senhor. Antes da guerra eu é que ia à frente sentado no burro e ela vinha 30 metros atrás. Agora depois da guerra, como o senhor viu, quem vai atrás os 30 metros sou eu.

- E qual a razão para essa alteração?

- Por causa das minas, senhor…

 

Esta a história tal como a li e me recordo.

Porém agora não resisto a deixar aqui um comentário, assim à laia de moralidade da história.

O que um homem não faz para proteger o seu burrico…

 

Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico - convertido pelo Lince.        

publicado por Carapaucarapau às 10:35
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Quinta-feira, 23 de Janeiro de 2014

Testemunhas

 

Saí de casa a saber que entre outras coisas tinha três assuntos para resolver, sem falta, hoje. Escrever um post, escrevinhar umas coisas que me tinham sido encomendadas e fazer um investimento.

Sobre o primeiro assunto estava em branco e não tinha a mínima ideia sobre o que fazer, do segundo tinha umas luzes, porque a encomenda tinha um tema e só sobre o terceiro eu sabia o que queria: comprar uns pares de peúgas, que fossem bem com as minhas “escamas postiças”.

Os deuses com as respetivas cortes de anjos, arcanjos e testemunhas estavam comigo (porto-me bem, pisco-lhes olho, por que não haviam de me ajudar?) e não tinha andado 30 metros e já tinha na minha frente duas

Testemunhas de Jeová. Íamos no mesmo sentido, elas naquele passinho miúdo e lento em que um pé só se move depois de ter pedido licença ao outro e feito uma vénia, de maneira que nem viram o sorriso que lhes lancei e que elas já conhecem de quando nos encontramos de frente. Ainda não tinha desfeito o sorriso e zás, ali mesmo a caminhar para mim duas outras testemunhas, não sei se do mesmo processo do Jeová se de outro processo (o passo era o mesmo, mas quem vê passos não vê processos), estas do outro sexo (não sei se há do 3º…) e quando passei por eles, iam a discutir um assunto de prédios, “não nesse, mas no prédio ao lado”. Vesti-me de Arquimedes e gritei “Eureka”, já tenho assunto para o post. Novo sorriso enquanto marchava com o meu passo mais atlético, pois tinha uma subida pela frente e cheguei a uma zona “desértica”, onde há muito trânsito automóvel, certamente o rally Dakar, mas por onde só raros camelos se aventuram. Que vejo um pouco mais acima? Duas camelas paradas a falarem uma com a outra, com um aspeto que se costuma chamar de atraente, o que sempre alegra os olhos dos camelos, já que os condutores dos bólides nem tempo têm para olhar. Ia a passar por elas e inesperadamente, uma delas estende-me um papel, resmunga qualquer em que só percebi “bíblia”, agradeci, empurrei-lhe delicadamente a mão para não a atropelar (estava mais quente que a minha…) e disse para a minha bossa: “tás com uma sorte do caraças, em menos de 300 metros já tens o post feito, pena foi ires tão depressa que nem pudeste travar a tempo, para indagar a que processo ela pertencia”.

Bem, post alinhavado já eu tinha, podia concentrar-me na encomenda. Vou pensando no assunto, surge um problema, porque não tenho papel para o escrevinhar, puxo pela cabeça, não muito, porque isto de cabeças nunca se sabe como estão presas ou soltas e, enquanto continuo a marcha, penso que se me aparecesse um desses distribuidores de jornais grátis é que era fixe, mas ali no deserto não há disso. “Bem, vamos ao investimento, depois penso no papel”, ainda que me tenha lembrado que o papel do investimento talvez servisse.

Chego ao local do crime, resolvo levantar umas coroas para investir e não ficarem a saber onde fica o meu “off shore” e só quando me sai o papelinho é que eu grito “eureka” pela 2ª vez nesta manhã, tenho aqui uma mina de papel. E explorei a mina, porque eu poupo-lhes tanto papel por ano, que me posso gozar desse direito (esta parte não é para ser entendida, penso eu com o 3º sorriso da manhã). Havia ali uns bancos vazios a oferecerem-se e não rejeitei um deles, que me pareceu apropriado. Sentei-me e comecei a escrevinhar (a tal encomenda) e tão entusiasmado estava que nem dei pelas horas. Quando olhei para o relógio disse “bolas, já não posso ir investir agora, fica para amanhã”.

Chego a casa, coso as peças que tinha alinhavado, post feito, encomenda feita, já mereço um bom almoço.

São servidos?

 

Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico - convertido pelo Lince.        

publicado por Carapaucarapau às 14:00
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Quinta-feira, 16 de Janeiro de 2014

Panteão Nacional

Nele, na Igreja de Santa Engrácia, estão os cenotáfios (cenotáfio=monumento fúnebre, em memória de alguém, sem lhe conter o corpo) de alguns vultos da História de Portugal (Nuno Álvares Pereira, Infante D. Henrique, Pedro Álvares Cabral, Afonso de Albuquerque, Vasco da Gama, Luís de Camões) e os túmulos de Almeida Garrett, Amália Rodrigues, Aquilino Ribeiro, Guerra Junqueiro, Humberto Delgado, João de Deus, Manuel de Arriaga, Óscar Carmona, Sidónio Pais, Teófilo Braga. Portanto, destes últimos só escritores e Presidentes da República, com as exceções Amália Rodrigues e Humberto Delgado.

Já agora fica a informação que a designação “Panteão Nacional” é partilhada por dois monumentos (em Portugal): a Igreja de Santa Engrácia em Lisboa e o Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, onde estão os túmulos de D. Afonso Henriques e D. Sancho I).

Olho para a lista, coço a cabeça e não faço comentários.

A razão deste meu “interesse” pelo Panteão foi a onda de “entusiasmo popular” que levou as pessoas a gritar na outra semana “Eusébio, para o Panteão, já!”.

Hesito nas palavras, pois não quero ofender ninguém, nem a memória de ninguém e chego à conclusão que, se cada época tem os seus “panteonáveis”, também é verdade que os que lá estão (com poucas exceções) mostram bem, como as “épocas” têm sido cada vez mais fracas…

Eusébio, seria só mais uma confirmação; mas outros “eusébios” lá irão ter, tenho a certeza.

Talvez esteja aqui a explicação porque as obras que deram origem “àquilo” e que se prolongaram por tantos e tantos anos, tenham dado origem à conhecida frase “parecem as obras de Santa Engrácia” para classificar aquelas coisas que se arrastam no tempo sem se lhes ver o fim (como certos processos judiciais, p. ex.). No fundo, iam-se fazendo mas sabendo que a morte pode esperar…

Isto digo eu que não sou dado a monumentos fúnebres.

Houve em Portugal alguns vultos importantes, que marcaram a sua época?

Devem ter havido, mas a grande maioria não está lá.

Estou capaz de dizer, para terminar, “ ainda bem”.

 

Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico - convertido pelo Lince.        

publicado por Carapaucarapau às 12:25
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Quinta-feira, 9 de Janeiro de 2014

Passo trocado

 Aviso prévio: hoje o post parece em tom sério, mas não o é tanto como parece, ou então parece mas não o é de todo.

 

É uma coisa que se repete de há bastantes anos a esta parte. Lembro-me com muita frequência daquela velha história de uma Mãe que está a ver um desfile militar, onde também vai o seu filho. Todos aprumados, alinhados, igualmente fardados e marchando certinhos.

Só que o filho daquela babada Mãe vai com o passo trocado.

E Ela, vaidosa, comovida, contente, não resiste e diz para as pessoas que a rodeiam: “muito bonito, mas vão todos com o passo trocado. Só o meu filho vai certinho”.

Assim eu me sinto a maior parte das vezes. Cá vou no meu passo e a “minha Mãe” (que neste caso sou eu mesmo) segreda-me que vão todos com o passo errado. E ninguém me convence do contrário, frase que quer dizer, não há maneira de me convencer que sou eu que estou desacertado.

Como disse, vem de longe este sentimento, fruto de um feitio que fui cultivando de me perguntar sempre que ouço ou leio qualquer coisa: “e porque não há de ser o contrário o que está certo?”

Poderia pensar que isto me causaria graves problemas existenciais, mas não causa. Afinal é sempre bom “ouvir” uma voz a dizer “vais com o passo certo, os outros é que não alinham pelo teu”.

E cá vou andando, quase sempre a sorrir, para não fazer rugas…

 

Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico - convertido pelo Lince.        

publicado por Carapaucarapau às 14:48
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Quinta-feira, 2 de Janeiro de 2014

Calendário

Um ano acabou, outro começou ontem, hoje já vamos no segundo dia, houve troca de calendários, a Terra continua a girar, repetem-se os gestos.

Nunca tive o costume de usar agendas ou calendários. Guio-me pelos papéis que vou escrevinhando para não me esquecer das coisas que tenho que fazer e dou, ou “arquivo” no lixo, os calendários que, todos os anos, recebo pelo correio.

Quando andava na escola primária, lá na minha aldeia, parte da “nossa vida de jovens estudantes” girava à volta do calendário. Ele estava pendurado, na parede ao lado do quadro preto e era de folhas de “papel de seda”, (como lhes chamávamos, por serem muito fininhas) e todos os dias havia a “cerimónia”, ao começar a aula, de atualizar o calendário, arrancando a folha do dia anterior. Operação feita pelo professor, que entregava a folhinha a um dos alunos. A qual? Àquele, que nessa manhã, primeiro o tivesse cumprimentado com a “sacrossanta” frase: “Bom dia Senhor professor, hoje é o dia Tal”.

Durante bastante tempo a folhinha vinha ter, quase sempre, comigo. Porque eu era madrugador? Porque era um viciado pelas tais folhas? Porque os outros não se interessavam? Nada disso. Por uma razão muito especial. Eu vivia ao lado do Professor e ele todos os dias antes de sair para a rua, atravessava um pátio que nos era comum, e eu “disparava” o meu “bom dia sr. Professor, hoje é dia tal”.

Quando ele saia para a rua a caminho da escola, era bombardeado por vários “bons dias” mas todos eles já sem direito à folhinha de “papel de seda” com o número correspondente ao dia anterior.

E eu lá ia colecionando folhas…

Até que um dia, o professor deve ter reparado que eu era um açambarcador e “saiu” nova legislação: só eram válidos os cumprimentos a partir do momento em que ele pisava a rua. Perdi a minha vantagem de vizinho, ainda que não totalmente, pois bastava eu estar atento à saída dele de casa…

Não me recordo se as folhas, além do número correspondente ao dia anterior, também tinham uma quadra. Suponho que sim, mas fica a dúvida. Por o papel ser tão fino e transparente elas não serviam para nada, mas eram muito desejadas.

Claro que no primeiro dia de aulas de cada novo ano letivo a disputa era elevadíssima, pois estavam em causa as folhas correspondentes aos três meses das férias grandes. A minha “vantagem relativa” mantinha-se mas nessas datas a coisa complicava-se.

Deve ser por isso que de então para cá (e já lá vão “toneladas” de folhas de calendário) eu não me interesso pelos calendários e agendas que me oferecem. Falta-lhes a adrenalina da disputa, o sabor doce da conquista, de ser o primeiro.

Tudo o que nos cai no regaço sem esforço, até pode dar jeito, mas não tem sabor.

Andasse eu ainda na escola primária da vida e daqui a uma semana lá estaria de sentinela a gritar primeiro que todos, “bom dia senhor professor, hoje é o dia 6”, “só” para conquistar umas vinte folhinhas correspondentes às férias do Natal.

Quem há por aí, hoje, capaz de se bater por uma simples folha de calendário, mesmo que premiada com uma quadra popular?

 

Quem 1º aqui deixar rasto da sua passagem tem direito à folhinha de calendário abaixo publicada, dizendo simplesmente "Bom dia Sr. Carapau, hoje é dia 7".

 

Bom ano para quem este post ler (e para todos os que por cá andarem…ainda).

 

 Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico - convertido pelo Lince.       

              

    

     

publicado por Carapaucarapau às 14:53
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