Quinta-feira, 29 de Novembro de 2012

O texano

Em tempos conheci um texano. Um texano legítimo, dos autênticos, nada de imitações. Andava a maior parte das vezes com o seu característico chapéu “à cowboy”, ainda que não usasse as respetivas botas. Com ele aprendi o que é um texano. Para começo de conversa é um natural do Texas. É do Texas e não podia ser de mais parte nenhuma, senão não era texano. Parece uma evidência mas não é bem, é parecida.

Um texano tem orgulho de ser do Texas, grita alto e bom som a todo o momento “eu sou texano!” E no Texas existe tudo o que não há em mais parte nenhuma do mundo (no dizer dum texano): a maior boiada, os maiores poços de petróleo, as maiores refinarias, os edifícios mais altos, as maiores avenidas, os maiores aeroportos “and so on”. E claro, “coisas” que mais ninguém tem, ou sejam: os texanos.

Disse-me ele que antigamente os livros escolares situavam assim o Texas:

“O Texas fica na América do Norte e é limitado a sul pelo México e a nascente, norte e poente pelos Estados Unidos.

A qualquer coisa que lhe dissessem sobre comparações com o Texas, ele respondia sempre: “Nós, lá no Texas, temos isso tudo, mas em maior”.

Um dia foi passear a Paris. Olhou, mirou, registou, mas mentalmente ia dizendo sempre a mesma coisa: “temos melhor, temos maior”.

Num dos seus passeios pela cidade, viu às tantas, lá ao longe, uma grande aglomeração de pessoas. Estugou o passo para ver o que se passava. Era uma pequena multidão que acompanhava um funeral que estava prestes a entrar no “Pére Lachaise”. Pela quantidade de pessoas deduziu que era alguém importante que tinha atado as botas. Seguiu o cortejo até ao local onde ia ser deposto o morto. Houve discursos fúnebres. Um pequeno palanque donde os oradores falavam e um mestre de cerimónias a dirigir a sessão. Quando todos os oradores inscritos já tinham falado, o mestre de cerimónias perguntou se mais alguém queria tomar a palavra. Como ninguém se manifestou, o meu amigo texano avançou para o pequeno estrado, subiu os 3 degraus e, virando-se para a multidão, começou: “Não quero perder esta oportunidade que me dão, sem vos dizer duas palavras sobre o Texas…”

                                            ***

Há pouco tempo estive numa reunião, com pouca gente e todos conhecidos uns dos outros, em que também houve quem botasse faladura. Às tantas alguém lembrou que eu tinha também a obrigação de falar, por isto e por aquilo. Abanei a cabeça a dizer não, mas então uma voz disse alto e bom som. “Vá, só duas palavras”.

Nessa altura lembrei-me do meu amigo texano e debitei o “discurso” que contei ali atrás.

No fim, virei-me para os homenageados e terminei: “também eu aproveito a ocasião para vos dizer duas palavras: “muita saúde”!

 

Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico - convertido pelo Lince.        

publicado por Carapaucarapau às 17:45
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Quinta-feira, 22 de Novembro de 2012

Ainda no Porto

1-A carteira

 

Um conhecido meu trabalhava num banco e tinha por companheiro de trabalho um tipo muito especial.

Ele só soube disso, no entanto, depois da mulher, um dia, ter chegado a casa e ter dado por falta da carteira. Tinha a mala aberta e a carteira tinha voado.

Recapitulando os últimos passos dados chegou à conclusão que tinha sido roubada entre a última loja e a casa, muito provavelmente no transporte público que tinha tomado. No dia seguinte o marido contou lá no banco o que tinha acontecido e no outro dia, o tal colega de trabalho chegou ao pé dele, apresentou-lhe uma carteira, para confirmar se era aquela, contou-lhe o porquê dela estar em seu poder e pediu-lhe para não divulgar a “sua” história.

E a história é esta:

O homem saía do banco, ao fim do seu dia de trabalho na baixa do Porto e ia até junto a um café de muito movimento que havia na Praça dos Aliados, onde ficava uma paragem dos elétricos (a história passa-se nesse tempo ainda) que tinha sempre muito movimento de pessoas a subirem e a descerem. O “nosso” homem encostava-se à parede e por ali ficava o resto da tarde. A fazer o quê? Olhar para as senhoras e meninas, a subirem e descerem dos elétricos para, eventualmente, ver um joelho ou outro? Na altura elas só usavam saias e havia sempre essa hipótese. Para um tarado já não era mau de todo. Mas a “taradice” do homem era outra. Era ver uns carteiristas, que faziam daquela zona o seu local de trabalho, a atuar. Eles nem suspeitavam que ele os observava e atuavam como a maior descontração. Quando um deles conseguia o objetivo, desaparecia logo do local de trabalho e só voltava mais tarde, no dia seguinte ou só daí a alguns dias, certamente em função do rendimento do “serviço”. Nunca trabalhavam todos ao mesmo tempo. E o nosso “olheiro” nunca disse nada a ninguém, muito menos à polícia. O prazer dele era ver a atuação dos artistas.

Quando o colega de trabalho lhe contou a história do roubo da carteira, nesse mesmo dia, ele chegou à fala com um dos “empresários por conta própria”, disse-lhe o que sabia deles, que não tinha nada a ver com isso, mas que precisava que lhe fosse restituída uma carteira de tal cor e com tais e tais documentos e com uma certa quantia de dinheiro, que tinha desaparecido na véspera naquela zona. Carteirinha de volta intacta e ficaria tudo como dantes, com eles a poderem atuar livremente.

E ainda no mesmo dia, à hora combinada, ele tinha a carteira em sua posse, que entregou no dia seguinte ao colega, lá no banco.

 

2- A pergunta

 

A Senhora era alta, elegante, loira, vistosa e vivia em Lisboa.

Um dia teve de ir ao Porto em trabalho e na véspera telefonou para uma amiga que lá tinha, a dizer da sua ida e da muito provável hipótese de ter tempo para a visitar, tomarem um chá e darem dois dedos de conversa.

Assim aconteceu de facto. Depois de ter tratado do assunto que a levou ao Porto, dirigiu-se para uma paragem de autocarros para se dirigir a casa da amiga. Paragem essa que servia várias carreiras, na baixa da cidade, por acaso não muito longe do local da 1ª história.

Chegada à paragem, onde já estavam outras pessoas, esperou que passasse o autocarro que lhe interessava e entretanto foi observando o “passeio” dum cavalheiro que por diversas vezes passou em frente ao local e que a olhava com insistência, “tirando-lhe as medidas”. O passeio deu-se quatro ou cinco vezes, até que às tantas ela ficou sozinha na paragem, pois as restantes pessoas embarcaram num autocarro que entretanto passou. Então o cavalheiro, dirigiu-se rapidamente para ela e falou:

- Desculpe, a Senhora é puta?

Ela percebeu então o filme todo, teve vontade de soltar uma gargalhada e, fazendo o ar mais sério que lhe foi possível, respondeu:

- Não, não sou.

O homem fez-se de mil cores, gaguejou um “desculpe, desculpe”, afastou- se a passos largos e desapareceu na primeira esquina. A cena deve ter sido, certamente, motivo de umas boas gargalhadas dela e da amiga, enquanto tomavam o chá.

Diga-se, digo eu, que em termos de eficácia, de concisão e de simplicidade de processos, a atuação do cavalheiro foi impecável.

Nada de perder tempo, vamos diretos ao assunto.

E depois dizem que em Portugal temos uma produtividade baixa…

 

Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico - convertido pelo Lince.        

publicado por Carapaucarapau às 15:00
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Quinta-feira, 15 de Novembro de 2012

Conversa de dois pinocas

 

Numa das minhas últimas visitas ao Porto, descia eu, a penantes, a Rua de Santa Catarina e já quase a chegar à Praça da Batalha, fui abordado por um mânfio, que se me dirigiu assim:

- Eh pá, andas por aqui? Ainda trabalhas lá firma? Não me conheces?

Olhei-o como se olha para um eucalipto que de repente nos aparece na estrada, revirei os olhos para ver se me recordava daquelas fuças, a música não me era estranha, e ele atacou de novo.

- Sou o Manel, pá, o mangas da expedição.

Entrei no jogo.

- É pá tás mais gordo! Não te reconhecia. Andas no comércio de carne, agora? – E com o queixo apontei para os lados em que estava aquele pedaço de carne da perna, que vinha com ele. - Parece a Ivete, Sem Galo - rematei.

- Deixa-te disso pá, é a minha secretária, tem juízo ou andas com as noias todas cegas?

- Tá bem tá, para onde tu vais já eu de lá venho. Então vendes spides, rodinhas ou andas na sustrice?

- Ah! ah! continuas o mesmo gozão; mas ainda trabalhas lá ou não?- Insistiu.

- Achas-me com tabuleta disso? Ando por aí e por acolá a ver se descolo algum graveto. – E deitando de novo os holofotes, a tirar-lhe as medidas, para o pancadão que se tinha afastado a olhar para uma montra, perguntei:- aluga-se ou vende-se?

- Não insistas pá, não mandes mais bitaites ou queres que te parta a cramalheira? Aquilo tem dono.

- Pronto pá. Não se fala mais nisso.

- Olha, tenho ali na carrinha um material mesmo bom para ti. Coisa fina.

- Agora fazes entregas ao domicílio?

- Porra pá, não estejas a mangar comigo. Anda daí ver. Olha que até a marquesada me tem comprado daquilo aos molhos.

- Mas afinal que material é esse? Come-se, bebe-se ou cheira-se?

- Poça pró nevoeiro pá. É assunto sério: Anda ver.

Pelo caminho:

- Tenho ali um número, em preto, que te vai assentar que nem uma luva, preço da uva mijona, mesmo só para amigos.

- Poça pró tango pá! Eu a julgar que tinhas por aí alguma faneca para um refustedo, de papar ou falar ao microfone e vens-me com a porra dos chiantes…

- Cais chiantes cais merdas. Casaco de pele de 1ª ao preço do arroz de quinze, olha-me pra isto! Made in Marrocos, até tem pelo de camelo e tudo. Um luxo!

- Tás pirado, pá. Não tenho pastel para luxos desses, nem penses... – e fui saindo de fininho enquanto ele voltava a meter a mercadoria na carrinha.

Já de longe gritei-lhe: - É pá, lá na firma nunca houve gajo da expedição! – e dobrei a esquina apressado, não fosse o diabo tecê-las.

                                            ***

Quatro ou cinco meses antes, tinha sido abordado em Lisboa pelo mesmo mangas. Entrou exatamente com a mesma conversa, eu ainda admiti que fosse alguém que tivesse trabalhado comigo e eu não me lembrasse já dele, mas logo percebi o “golpe” e só lhe disse que ele estava a confundir-me com outro e segui em frente. Estava ele encostado ao carro junto ao passeio em que eu passava e dentro do carro uma zobaida vistosa, rodilhona certamente como ele, mas não sei se era a mesma “secretária” que o “assessorava” no Porto.

Por isso, porque já o “conhecia”, entrei na conversa, quando me abordou esta 2ª vez.

Uma coisa é certa. Devo ter cara de Zé artolas…

 

Nota: uma parte do calão empregado no texto foi tirado do glossário do livro “Porto naçom de falares” de Alfredo Mendes, publicado pela Âncora Editora.

 

Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico - convertido pelo Lince.        

publicado por Carapaucarapau às 18:52
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Quinta-feira, 8 de Novembro de 2012

Indignado.(Posso?)

Daqui a 4 ou 5 dias vem aí a Sra. Merkel fazer-nos uma visita rápida.

Vem a convite, note-se.

Estão agendadas várias manifestações para esse dia, ao que parece para manifestar à Sra. que ela é a grande culpada dos nossos males. Não é.

Nem ela nem os alemães (nem os lituanos, nem os ugandeses, nem todos os outros). A culpa é nossa, mas não somos capazes de fazer o “mea culpa”. Então insultamos quem nos aparecer pela frente. A Sra. Merkel é o alvo ideal para descarregar os nossos erros, frustrações e incapacidades. A Sra. Merkel devia pôr os alemães todos e mais os vizinhos (a Alemanha é “vizinha” de quase toda a Europa) a trabalhar para nós. Porque nós somos um povo à parte (ah sim claro já temos quase 900 anos a fazer asneiras, temos muita prática…) e como tal merecemos (digamos mesmo “exigimos”) que os outros nos tratem nas palminhas e nos deixem gozar a vida.

É convidada e não se tratam mal os convidados? Isso será lá na Alemanha & Vizinhos. Aqui é outro continente. É até mais um pingo doce…

Insultemos a Sra. e quem a acompanhar, exijamos que vá trabalhar e não ande por aqui a almoçar à borla e que mande trabalhar lá os da terra dela e mande o cacauzinho para cá e depressa.

Nós estamos (somos por natureza) indignados.

Mas eu não estou no “nós”. A Sra. Merkel nunca me chateou, os alemães em geral nunca me chatearam, fui amigo e trabalhei com alguns (ainda que poucos), tenho alguns amigos casados com alemãs, sou padrinho (ainda que desnaturado) duma alemã, gosto especialmente de Munique (ainda que Munique, e a Baviera em geral, não “represente” a Alemanha nem os alemães, e só não vou almoçar com ela porque não fui convidado. Ela também não virá almoçar comigo porque não tem tempo.

Ela vem cá, falará com diversas pessoas que lhe dirão coisas diferentes, com pontos de vista diferentes e tentarão fazer com que a Sra. nos entenda melhor. Quero dizer que desta visita pode resultar alguma coisa positiva para Portugal e nada de negativo. Por isso, deve ser por isso, convém insultá-la, colar cartazes a dizer “Merkel go on” (em alemão certamente) e coisas piores. Gritaremos tudo e mais alguma coisa. E diremos que estamos indignados, mas nunca que estamos dispostos a mudar de vida.

Isso é que era bom!|

Por acaso, só por acaso certamente, algumas das melhores empresas instaladas em Portugal são alemãs, elas têm puxado por algumas outras empresas portuguesas que se modernizaram e internacionalizaram, entre as maiores exportadoras estão essas alemãs e algumas portuguesas.

Não por acaso, a Alemanha é a maior “contribuinte líquida” (deve ser da cerveja) da EU e portanto quem mais contribuiu para as toneladas de dinheiro que tem vindo da EU para Portugal (e que, duma maneira geral, desbaratamos).

Mas não atiraremos isso à cara da Sra. porque ela sabe melhor que a maioria dos portugueses disso tudo.

Então só nos resta insultá-la!

Fico triste, envergonhado e indignado (Posso? Ou tenho de pedir licença a alguém ?) por um lado e contente por não me rever nisto tudo.

                                                                      ***

O post acabava aqui, escrevi-o ontem de manhã. Nem de propósito, à noite li que um “grupo de personalidades” resolveu escrever uma carta aberta a gritar à Sra. Merkel que ela “deve ser considerada “persona non grata” em Portugal”.

Valentes!

Até eu lhes presto aqui a minha “homenagem”, não só pela “valentia”, mas pela “clarividência”, pela “lucidez”, pela “educação” e por mais coisas que eu não digo.

E transcrevo a parte final do manifesto, para que conste:

 

”Acordámos, senhora Merkel. Seja mal-vinda a Portugal".

 

é a última frase da carta aberta subscrita por personalidades como a escritora Alice Vieira, o realizador António Pedro Vasconcelos, o jornalista Daniel Oliveira, o historiador Fernando Rosas, o antropólogo José Gabriel Pereira Bastos, a médica Isabel do Carmo, o sociólogo António Pedro Dores e o cantor Carlos Mendes, entre muitos outros.  (Notícia retirada do jornal “Económico”-digital).

 

“Ditosa pátria que tais filhos tem”!

Só direi que devem ter acordado tarde, mal dispostos e mal dormidos.

Bahhhh!

 

Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico - convertido pelo Lince.        

publicado por Carapaucarapau às 10:53
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Quinta-feira, 1 de Novembro de 2012

Tétano

 

Ontem tomei a vacina contra a gripe e a enfermeira perguntou-me como estavam as outras vacinas, sobretudo a do tétano.

Disse-lhe que não fazia a mínima ideia e não me lembrava de alguma vez ter tomado tal vacina. Fiquei em tratar disso.

De uma “história” relacionada com esta vacina do tétano me lembro bem, apesar de muita água já ter corrido sob as pontes, de então para cá.

Num belo agosto de um belo ano, eu e um amigo agarramos nas malas e zarpámos por aí fora: Grécia, Turquia e Itália (por esta ordem) eram os destinos a atingir.

Na Grécia aproveitamos e visitamos 3 ilhas, num cruzeiro de 3 dias e 2 noites ou coisa parecida. Numa das ilhas, depois da visita guiada às ruínas de um qualquer templo (?), o calor era tanto que nós os dois e duas italianas nos atiramos ao mar, enquanto o resto do grupo se refrescava num bar. Viemos a saber depois que não era recomendado tomar banho naquela zona. Era tarde, porém. Quando saímos da água, todos vínhamos a sangrar de vários golpes que nos foram provocados pelos muitos pedras que havia no mar. Pedras das ruínas de antigas construções pré helénicas sobre as quais o mar tinha exercido o seu processo de erosão, deixando nelas os veios mais rijos que eram autênticas lâminas que cortavam quem se aventurasse a entrar na água. Daí a recomendação, que não vimos antes, para não tomar banho.

Quando saímos parecíamos quatro guerreiros saídos de uma qualquer batalha contra Esparta. Feita a análise aos ferimentos concluímos que eram superficiais e sem importância de maior. Só o meu amigo tinha um na planta do pé, bastante profundo e que sangrava um pouco mais e lhe doía.

De regresso ao barco desinfetaram-no e fizeram-lhe um penso e o assunto ficou resolvido. Julgava ele.

No dia seguinte estávamos de novo em Atenas e programamos umas excursões pelas redondezas aproveitando a “boleia” das italianas ou elas a nossa, já não me lembro.

E então o meu amigo começou a queixar-se com dores e a ter dificuldade em andar.

Teve de ir ao hospital. Aí contou o que lhe tinha acontecido, foi examinado, fizeram-lhe o curativo e vacinaram-no contra o tétano. E entregaram-lhe uma papeleta onde estava tudo o que não podia comer nem beber durante um ou dois meses. Parecia a lista da lotaria do Natal da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, naquele tempo em que a lista continha todos os números premiados. Concluindo, e por exclusão de partes, podia comer massa, arroz e batatas e beber água. Tudo o resto lhe era vedado. Eu fiquei muito admirado, porque em tempos tinha levado uma injeção antitetânica, na sequência dum pequeno acidente, e não me lembrava nada de me terem impedido de comer fosse o que fosse. Ele porém cumpriu a recomendação e enquanto eu me batia com um bife, ou uma dourada, ele “batia-se” com um prato de arroz ou massa, acompanhado por uns copos de água…

Dois dias depois fomos para Istambul, no dia da chegada ainda demos umas voltas pela cidade, ele a queixar-se outra vez do pé, e no dia seguinte com dores e sem conseguir andar começou a pensar em voltar para os pátrios ares. E eu? Que ficava a fazer por ali sozinho?

Disse-lhe então que íamos fazer uma última tentativa. A primeira operação era tirar o penso e ver o aspeto da ferida. Assim se fez e não podia ser pior. Tinha todo o ar de uma grande infeção. Perguntei-lhe se era homem para aguentar uma “operação” por um “técnico de elevada competência”, ele encolheu os ombros pouco convencido, mas lá fui à farmácia comprar álcool, gaze, algodão e uma pomada com um antibiótico (um pormenor que não esqueci: no meio das moedas do troco e na falta duma qualquer moeda, vinha um comprimido,  avulso e desembrulhado, o que serviu para animar os ânimos). Chegado ao hotel, mandei-o deitar e morder uma almofada (as italianas tinham ficado para trás não podia contar com elas para uma mordidela…) e atirei-me ao trabalho. Fiquei banzado com o que saiu da ferida infetada. Depois de ter sido tratado por um “enfermeiro” de primeiros socorros no barco e de ter sido “tratado” no hospital, quando espremi aquilo tudo saiu uma camioneta de areia, pus e mais algas do que eu tenho aqui na minha caverna para me deitar!

No dia seguinte já quase não tinha dores e no outro dia já corria e saltava como um gamo. Entretanto “dei-lhe alta” no que dizia respeito à alimentação e ele lá foi dando umas dentadas no peixe e na carne. Ainda hoje diz, a gozar comigo, que lhe salvei a vida.

A vida não, mas parte das férias dele e minhas, salvei com certeza.

Até hoje não fui incomodado pela Ordem dos Médicos, por exercício ilegal da medicina…

 

Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico - convertido pelo Lince.        

publicado por Carapaucarapau às 21:53
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