Quinta-feira, 29 de Março de 2012

Comemoração - Uma história de amor

Faz hoje 4 anos, tinha este blog 3 semanas de vida, que foi publicado este pequeno conto com sabor a maresia. Como só hoje me lembrei da efeméride da abertura do blog, para comemorar esse “longínquo” tempo, aqui fica de novo

 

 

                              Uma história de amor

 

A Pescada alisou as escamas, escovou as barbatanas e deu uma limpeza nas guelras. Quando achou que estava em condições, saiu da toca e viu logo o Pargo que nadava devagar para cá e para lá. Tainha um certo receio do golpe de barbatana que ia dar, pois desconfiava muito das boas intenções dele. Era um belo exemplar, disso não tinha dúvidas e andava meio cardume atrás dele. A Corvina era uma das mais entusiastas e ela não queria guelras com ninguém e muito menos com a Corvina de dente sempre afiado.

 Mas a vida estava a ficar muito monótona e antes uma aventura com um Pargo jeitoso ainda que um pouco pedante, que um bate barbatanas com um Cachucho qualquer.

 Além disso ela era de boas famílias, muito ciente da sua linhagem, carne branca muito apreciada ainda que um pouco sonsa para a maioria.

Mal a viu, o Pargo deu um golpe de barbatana e veio em direção a ela e emparelhou por bombordo, depois de um rápido piscar de olhos. Daqueles olhos redondos e grandes que eram a perdição dela. Nadavam de vagar um ao lado da ostra com pequenos e espaçados golpes da barbatana caudal. Começaram a falar do tempo, bonito dia de sol, da água límpida boa para um passeio mas má porque poderiam ser vistos com mais facilidade.

Isto dizia ele. Ela abria as guelras a concordar e aventurou-se mesmo a dizer:

- Por mim não faz diferença. Até gosto de ser vista. Não tenho nada a esconder de ninguém. Agora tu estás com receio de algum encontro?

-Eu? Sou livre, não tenho satisfações a dar a ninguém…

- Nem à tua amiga Corvina?

- Muito menos a essa chaputa disfarçada que anda para aí a dizer coisas…

Ela corou um pouco, sorriu satisfeita com a resposta mas insistiu, venenosa como uma moreia:

- Ah! É só a dizer coisas? Ela gaba-se que tu és o namorado dela.

E ele a não morder o isco e a fugir como uma enguia:

- Já te disse que não tenho nada a ver com ela. Não é o meu tipo.

Ao longe passava o Carapau atrás duma Navalheira e fez um aceno aos dois. Era por demais conhecido para passar despercebido.

- Aquele também anda sempre naquilo - disse a Pescada para ver a reação.

-Também? Isso é piada? Eu nem gosto de Navalheiras…

A conversa decorria, eles sempre a nadar devagar, de vez em quando ele encostava a barbatana à dela, um ou outro linguado surgia, ela dava um impulso maior e afastava-se dele.

- Gosto pouco de mexilhões.

- Porquê? Já te fizeram mal?

- Não, que eu não deixo. Também não gosto de abúzios.

Distraídos nem deram conta que anoitecera e que estavam longe de casa. Valeu-lhes uma manta que lhes deu abrigo e aconchego durante a noite.

No outro dia, manhã cedo ele saiu do quente enquanto ela ainda dormia, e deu uma volta para ver se a surpreendia com um bom pequeno-almoço. Viu uma Sardinha meio parada ali perto e atirou-se a ela para a não deixar fugir. Qualquer coisa de inesperado aconteceu sem ele se aperceber bem do que seria.

E só quando se viu agarrado por duas mãos fortes que lhe retiraram o anzol e o atiraram para dentro duma caixa é que percebeu que tinha perdido a Pescada para sempre.

 

Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico - convertido pelo Lince.        

publicado por Carapaucarapau às 14:16
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Quinta-feira, 22 de Março de 2012

O dicionário

 

Não é a primeira vez (nem será a última, é um palpite meu) que me sirvo do dicionário para alinhavar um post.

E esta palavra “alinhavar” cai aqui como mel na sopa (para quem gosta de sopas adocicadas).

Vejamos:

Alinhavar – v. tr. dar alinhavos; coser a ponto largo e provisório; preparar; executar mal; (fig.) fazer mal e depressa; delinear.

Querem eles dizer que estou a preparar, a ponto largo e provisório (engano no que respeita ao provisórío), este post, que vou executar mal. Portanto serei um mau executante, mas não serei nunca (assim o espero) um bom executor. Bom executor (bom, profissionalmente falando) foi o que, com um machado supostamente bem afiado, degolou a Maria Antonieta. O gesto do executor foi definitivo, o meu gesto de executante pode ser emendado, alterado, melhorado. Isto se for possível melhorar um alinhavo, coisa já de si mal executada. Ponto assente: não sou executor e serei um mau executante. Pelo meio (no dicionário, pois é disso que se trata) fica o executivo. Que sou, enquanto “aquele que executa” (mal, já se viu, porque só alinhavo), mas não sou enquanto o que procede à execução judicial, ser do governo ou outra coisa ainda pior (se houver).

Portanto o melhor é pirar-me desta página do dicionário e passar à seguinte onde também não é melhor ser um exido, isto é, um baldio fora da povoação para compáscuo ou logradouro comum (deve ser uma coisa tão complicada que até o corretor assinalou erro no exido e no compáscuo…)

Piro-me a sete pés e vou cair lá muito para frente no raconto (também com direito a ser considerado erro) que mais não é que uma narração, uma descrição, uma narrativa. Já não me estico mais porque a seguir seria apanhado pelo radar e apanhava com a radiação e a radiatividade (que é mais conhecida como radioatividade), coisas que não me fazem nada bem à pele.

Vou lá para o fim tocar viola, antes de a meter no saco. De virgem, para já só encontro o azeite, a cera e a floresta e chego quase ao fim a zurrar, que entre outras coisas também é proferir asnices. E vem finalmente a última que é o zuzuto (aquele que é parvo ou aparvalhado).

 

Acontece sempre assim: quando nos metemos por caminhos que não conhecemos, corremos sempre o perigo de acabarmos em zuzutos.

 

Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico - convertido pelo Lince.        

publicado por Carapaucarapau às 12:25
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Quinta-feira, 15 de Março de 2012

Chuva

 

 

 

É dos livros. Já anda muita gente a pedir chuva, e nem chuva nem trovões, que os santos já fazem poucos milagres e não têm força para deslocar o anticiclone dos Açores, que é sempre o grande culpado (aqui) por estas coisas.

Isto no que respeita à chuva-chuva, a que cai do céu, às vezes a potes, às vezes às pinguinhas. Nunca vi chover cães e gatos como é usual em Inglaterra. Um sujeito ir na rua e cair-se um S. Bernardo em cima ou um pastor da serra da Estrela, não deve ser nada bom para a coluna. Pois se não me caiem outras coisas bem mais agradáveis em cima, porque raio havia de cair um cão? Já de gatos nem falo, que são bichos com quem me não dou.

Vem tudo isto a propósito (?) de uma notícia que vi/ouvi na tvi (saiu-me a terminação) a propósito de procissões que já se fazem pelo norte a pedir chuva. Por aqui (aqui, quero dizer mais para sul) fazem-se outro tipo de manifestações também a pedir chuva, mas a conversa é outra.

Hoje já vi “miles” de pessoas na praia a adorarem o deus sol e nenhuma delas queria chuva.

Lembrei-me então duma história que li quando era menino e moço (mais moço que menino) num livro de “short stories” dum senhor americano de origem arménia chamado William Saroyan (1908-1981) que, entre outras coisas foi laureado escritor e um “especialista” em contos curtos. De uma série a que chamou “histórias arménias” lembrei-me desta, que tento reproduzir de memória e que é mais ou menos assim:

“O homem seguia pela rua, quando começou a chover. Procurou abrigo num portal, à espera que a chuva parasse. Tinha começado o dilúvio universal”.

 

Perante isto, recomendo algum cuidado a quem anda a pedir chuva.

Nunca se sabe…

 

 Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico - convertido pelo Lince.        

publicado por Carapaucarapau às 17:59
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Quinta-feira, 8 de Março de 2012

D.I.M.

       

 

Não é a 1ª vez que publico esta foto  no blog, mas fica sempre “bem” no dia internacional da Mulher.

 Da outra vez elaborei um texto fazendo considerações mais ou menos brincalhonas sobre a foto. Para não me repetir, mas de certo modo repetindo, hoje aproveito para contar uma pequena história que li há muitos anos, já não sei onde.

Pouco tempo depois de ter acabado a chamada 2ª guerra mundial, um jornalista americano visitou um qualquer país do norte de África e daí mandava as suas reportagens para o seu jornal. Um dia contou que, ao fazer uma viagem de uma cidade para outra, assistiu, numa zona rural, a esta situação: uma mulher seguia, carregadíssima, com um molho de qualquer coisa à cabeça e, uns trinta ou quarenta metros mais atrás um homem, fumando o seu cigarro, montava um burrico que o transportava.

Apercebeu-se que era um casal, parou o carro e dirigiu-se ao homem. Cumprimentou-o, identificou-se e perguntou-lhe porque razão ele ia ali todo descansado a cavalo enquanto a mulher seguia carregada?

O homem olhou-o com o ar de quem não percebeu a razão da pergunta e respondeu qualquer coisa como: “É o costume cá da terra ser assim”. “Então foi sempre assim?” – perguntou espantado o jornalista.

“Sempre” – respondeu o homem, mas acrescentou: “bem, sempre não. Antes da guerra, a mulher seguia atrás. Agora, por causa das minas, vai estes metros à minha frente…”

A cena tem todas as semelhanças com a foto acima apresentada, mas também algumas diferenças, o que prova como se tem evoluído, ainda que haja quem não acredite nisso…

Repare-se desde logo que é o homem que vai à frente. Assim uma improvável mina (mesmo numa estrada que parece asfaltada) seria acionada pelo homem e lá iria ele para os anjinhos. Certo que a mulher, por ir tão perto, também iria e isso é a prova que ele não a queria deixar sozinha neste mundo, sem poder contar com a sua (dele) ajuda, levando deste modo, quem sabe, uma vida atribulada, sem a sua companhia e sobretudo, talvez, sem necessitar de transportar grandes cargas à cabeça ou às costas.

A “coisa” progride devagar, mas progride…

 

Um bom dia para todas as Mulheres! Aliás, uns bons dias!

 

Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico - convertido pelo Lince.        

publicado por Carapaucarapau às 13:39
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Sexta-feira, 2 de Março de 2012

A secretária

Considera-se aqui fotografada uma modesta mesa de pinho, porém envernizada e com gavetas.

Ela não se deixou fotografar nem depois de muita insistência minha. Respeitou-se a privacidade.

 

- Olá! Hoje estás linda!

- Sou linda, queres tu dizer.

- Mais simples que linda, direi eu.

- A beleza da singeleza.

- Essa não saiu grande coisa…

- Dou-te razão.

- Tenho sempre razão.

- Como? Como?

- Já comeste o que tinhas a comer durante uma temporada. Que tal a limpeza e o creme que te pus ontem?

- Olha…fiquei enjoada com o cheiro.

- Limpa, perfumada, “engraxada”.

- Se fizesses isso aos sapatos era bem melhor para a saúde deles e para o teu aspeto.

- Que tem o meu aspeto?

- Tem que…podia ser melhor.

- Não ligo a isso.

- Ah! Ah! Ah! E então porque devia eu ligar?

- Porque te quero limpa e arranjada.

- Com esta quinquilharia toda aqui em cima de mim?

- Não exageres. Uns papeis, uns livros, umas canetas…

- E o resto não conta? E as porcarias que fazes aqui em cima de mim?

- Porcarias? Tem tento no que dizes.

- Sim, sim, porcarias. Tu e aquela pessoa que tu sabes e quando aqui aparece me enche de cola, de riscos, de tinta, de agrafos, de fita adesiva, de tudo…

- Quanto a isso … dou-te razão. Mas qualquer dia entra tudo na linha.

- Tenho visto essa linha, tenho.

- Mas como te sentes com este novo visual?

- Novo?

- Bem…não direi novo, novo, mas bastante modificado. Limpinha, arrumada, com as mossas disfarçadas, polida…

- Tudo isto há de durar um tempo…

- Se te portares bem, vai durar.

- Eu é que me tenho de portar bem?

- Eu porto-me sempre bem, agora tu…

- Que tens a dizer de mim e da minha postura?

- Nada, nada, cala-te boca…

- Acho melhor sim. Já a formiga tem catarro?

- Só tenho medo do bicho da madeira, as formigas não me incomodam.

 

E a conversa continuou neste tom durante largos minutos. Hei de perder a mania de falar com mesas promovidas a secretárias.

 Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico - convertido pelo Lince.         

publicado por Carapaucarapau às 01:39
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