Quinta-feira, 28 de Julho de 2011

Fábulas ( II )

                                 

                                                           

 

                               O Corvo e a Raposa

 

Quando o telemóvel tocou e o Corvo olhou para o visor, franziu aquelas penas que um corvo franze quando fica intrigado, mas acabou por atender.

- Sim, quem fala?

- É o Mestre Corvo?

- Sim…

- Bom dia. Daqui é a Raposa.

- Quem?

- Admirado? Sou eu, a Raposa e ando há dias a ganhar coragem para lhe falar.

- Sim?

- Sim e calcula certamente o motivo. Para lhe pedir desculpa daquela brincadeira parva que fiz consigo há uns tempos atrás e que acabou comigo a comer um queijo que era seu.

- Grande praga lhe roguei na altura, acredite; mas depois achei que eu é que tinha sido um grande parvo e até já tinha esquecido isso.

- Mas eu não esqueci e quero, de certa maneira, reparar a minha falta e convidá-lo para uma prova de queijos franceses, aqui em minha casa.

- Se não está a gozar comigo, claro que aceito, como sabe sou doido por queijos.

- Então fica combinado. Amanhã à tarde apareça aqui. Tome nota da morada. Rua…

- Eu sei onde mora. Lá estarei.

 

Mal desligou o telemóvel o Corvo, agitou as asas e crucitou uma gargalhada.

No dia seguinte, depois de alisar as penas e afiar o bico, agarrou uma maleta debaixo da asa e lá se apresentou o Corvo na morada. Bicou três vezes na porta (era o sinal combinado) e apareceu a Raposa vestida com a sua melhor pele.

- Olá Maître Corbeau ! Comme vous êtes joli ! Comme vous me semblez beau ! – regougou a sagaz Raposa.

- Deixe-se dessa conversa Madame, que foi com ela que me comeu o queijo, daquela vez.

- Desculpe Mestre, estava distraída, ainda a falar em francês, porque cheguei há dias de França onde fui visitar umas primas.

- Não sabia que tinha família em França…

- Tenho sim, daquela família das Renard, não sei se já ouviu falar.

- Vagamente sim. Mas peço que não me trate por Mestre. Aqui, na nossa zona, Mestre é o sapateiro. Trate-me por Vicente, sou da família dos Vicentes de Fora.

- Muito bem, mas tem de me prometer que também deixa esse tratamento de madame. Chame-me Renezinha que é o meu petit nom.

- Sim Renezinha, mas então trate-me por Centinho, como fazem os meus amigos.

Conversa vai, conversa vem, estavam sentados à mesa onde a Raposa tinha exposto uma “table de fromages” digna dum banquete. O Corvo não lhe quis ficar atrás e abriu a maleta onde trazia 3 ou 4 garrafas de uns tintos velhos que tinha seleccionado.  

E a tarde decorreu entre vinhos portugueses e queijos franceses, muita conversa, com o Corvo a contar aventuras e a Raposa a jogar com o seu charme.

Às tantas, disse ela:

- Há tanto tempo aqui a falarmos e ainda nem te mostrei o resto da casa. Vem daí Cetinho…

E, agarrados um ao outro para não caírem, lá foram.

 

Ao narrador é vedado acompanhá-los, até porque não bebeu nada…

Saiu e sentou-se cá fora, à sombra dum vetusto carvalho, a pensar no raio das fábulas que reinventa.

E como fábula sem moral não é fábula, ficou a puxar pelo bestunto para ver se daqui tirava alguma.

E acabou por concluir que juntar vinho português com queijo francês tem de dar sempre em qualquer coisa de especial.

Mas se fosse um vinho francês, por exemplo, um Borgonha velho e uma cuca* de Serpa, meia cura, o resultado não seria muito diferente.

 

* Cuca é o termo usado no Alentejo para designar um queijo de tamanho médio.

publicado por Carapaucarapau às 00:19
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Sexta-feira, 22 de Julho de 2011

Fábulas ( I )

                     

 

                      A Cigarra e a Formiga

 

Truz, truz, truz!

A Cigarra abre o postigo e espreita. Do lado de fora a Formiga.

- Oh comadre a que devo a honra da sua visita? Entre, entre.

- Bom dia comadre Cigarra. - Nhoc, nhoc (quero eu dizer, beijo para cá, beijo para lá).

- Bons olhos a vejam, comadre. Se bem me lembro é a primeira vez que a vejo por aqui.

- É verdade. Sempre a correr dum lado para o outro, como uma formiguinha, nem tempo tenho para visitar as amigas.

- A comadre trabalha demais. Olhe que já não tem idade para essas coisas.

- Diz bem, comadre Cigarra.

- Entre e vamos ali para o terraço. Ofereço-lhe o quê? Um chá? Um cafezinho? Uma limonada?

- Olhe comadre. A bem dizer, bebo um copo de água. Esta escalada até aqui ao topo do pinheiro fez-me sede.

- Pois é comadre Formiga. Estou bem instalada mas o prédio não tem elevador. Por isso eu raramente vou lá abaixo.

Entraram as duas e a Cigarra encaminhou a Formiga para um terraço onde havia umas espreguiçadeiras.

- Esteja à vontade, comadre, enquanto eu vou buscar a água. Quer fresca ou ao natural?

- Já agora fresca, se fizer favor. E se tiver, com duas gotas de limão.

- Volto já.

Entretanto a Formiga deu uma volta pelo terraço, mirou a paisagem, abanou a cabeça umas tantas vezes e recostou-se numa das espreguiçadeiras.

Quando a comadre voltou com a água:

- Sim senhora. A comadre está aqui muito bem instalada, com uma lindas vistas, com todas as comodidades…

- Tem de ser comadre Formiga. A vida não é só trabalho, nem só cantorias. Isto de cantar também puxa muito pelo peito, preciso de ter os meus momentos de descanso.

- Tem toda a razão. Agora é que eu estou a ver como tenho andado enganada toda a vida. E devo isso, àquele sacaninha do La Fontaine, o conhecido francês explorador de formigas, que me amarrou para sempre aquela vidinha que levo lá em baixo, a correr de um lado para o outro, como se a vida fosse acabar amanhã.

- Oh comadre, também não exagere. Olhe que o La Fontaine até que nem é mau tipo, arranjou-me este apartamento, deu-me esta vida e não tenho muito que me queixar dele. Se eu não tivesse de cantar tanto, até que podia dizer que estava no sétimo céu.

- Eu, no seu lugar, também diria o mesmo. Agora nem queira saber o que ele fez comigo. Ainda por cima deu-me uma cave húmida para viver, que a comadre nem faz ideia.

- Oh comadre, porque é que não solta o seu grito do Ipiranga?

- Gritar eu? Com esta voz? A única coisa que tenho, são estas unhas para me agarrar ao trabalho…

- Agora reparo. Tem mesmo umas ricas unhas. Óptimas para tocar guitarra ou viola. A comadre com essas unhas e eu com a minha voz, bem podíamos fazer uma dupla de sucesso.

- Não me diga?

-Já disse.

 

E foi assim que nasceu a dupla “A Cigarra e a Formiga”. E escolheram para seu empresário o Sr. Jean de la Fontaine, que já as conhecia de ginjeira e que não quis perder este comboio…

 

publicado por Carapaucarapau às 00:21
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Quinta-feira, 14 de Julho de 2011

O melro

                            

 

Como já aconteceu no verão passado, a dias compridos corresponde imaginação curta, daí o “recurso” às “shorts stories”.

 

O melro

 

“Era negro, vibrante, luzidio” e soltava “dentre o arvoredo verdadeiras risadas de cristal”. Naquela manhã pincharolava de ramo para ramo e, tendo descoberto qualquer coisa que se movia, despediu breve voo e aterrou suavemente na relva próxima. Movimentos tão rápidos e precisos que a minhoca não teve tempo de se meter no seu refúgio e foi apanhada.

Naquele dia foi o pequeno-almoço do melro.

Moral da história? Duas.

1ª: melro que assobia quer minhoca.

2ª: minhoca distraída é minhoca comida.

publicado por Carapaucarapau às 11:48
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Quinta-feira, 7 de Julho de 2011

Gente (VII) - O "Borsalino"

                                                                                                                     

                               Borsalino, o rolls roice dos chapéus

 

Ontem, ao atravessar uma das “cidades satélites” de Lisboa, lembrei-me dele, do “Borsalino”.

“Batizei-o” assim, quando o vi pela 1ª vez, a única em que trocamos meia dúzia de palavras. Não porque usasse chapéu, mas exatamente porque o não usava, o que a meu ver, era uma falha indesculpável. Envergava um fato completo, escuro e às riscas e eu achei que “ali” um borsalino assentaria como uma luva.

 Nessa primeira vez, (eu não o conhecia) perguntou-me o que eu estava ali a fazer. Eu respondi-lhe, sorri e continuei a tirar os apontamentos, razão da minha presença naquele local. Eu estava com pressa. O homem não gostou da minha atitude e perguntou-me se eu sabia quem ele era.

Disse-lhe que não, que não sabia. Ele fez um gesto largo a “abarcar o mundo” e respondeu-me:

- Sou fulano, dono desta organização.

Com franqueza, eu olhei em volta e não vi “grande organização” em tudo aquilo, mas não lho disse.

- Prazer. E eu sou da firma Tal. – E continuei a fazer o meu trabalho.

Voltou à carga:

- O senhor deve ser daqueles que se julgam importantes.

- Eu? Não, não sou. – E continuei a sorrir.

Ainda houve mais uma troca de palavras, em que eu, delicadamente lhe disse duas ou três coisas de que manifestamente o homem não gostou. Ele concluiu a conversa com:

- Vou fazer queixa de si à sua administração.

- Faça favor. Se a fizer por escrito já, até eu a posso levar.

 

Uns vinte minutos depois, ao chegar ao meu local de trabalho, tinha um dos gerentes da empresa, à minha espera, a sorrir.

- Então que aconteceu? O homem telefonou-me a queixar-se que o tinha tratado mal.

- Quem, o “Borsalino”? – E foi a partir deste momento que se deu o batismo. Daí para o futuro, sempre que me tinha de referir a ele ou à sua empresa, sempre o chamava de “Borsalino”.

Anos depois vi-o num restaurante rodeado de “afilhados”. Ele era o verdadeiro “Padrinho” que eu conhecia dos filmes. Para completar ainda o retrato, soube que o restaurante também era dele.

Um dia, quando as coisas começaram a correr mal “nesta organização de que sou dono”, mandou uns funcionários, que eu aliás conhecia, pedir-me umas informações que poderiam resolver os problemas técnicos com que se estavam a debater.

- Foi o “Borsalino” que vos mandou vir ter comigo? – Perguntei a rir.

Eles não perceberam a pergunta.

Eu prestei-lhes todas as informações pedidas.

Os anos passaram, a empresa do “Borsalino” foi por água abaixo e um dia soube por acaso que ele já “estava noutra”, mas nunca mais soube nada dele.

Até que um dia…estava eu de férias e numa tarde de muito calor liguei a televisão. Estava a passar um daqueles programas que têm tanto interesse que nos levam logo a mudar de canal. Mas…estava lá o “Borsalino”. O assunto se bem entendi tinha a ver comas dificuldades que cada um tinha passado na vida, da maneira como tinham conseguido “dar a volta” e isto tudo embrulhado com a “fé” e a religião. E eu não resisti e fiquei a ver a atuação do meu “amigo” “Borsalino”. Que rematou a sua atuação com esta tirada. “Sim, tenho muita fé e tanto assim é que, sempre que faço um bom negócio, passo sempre um cheque para a Nossa Senhora de Fátima”.

“Chiça”- pensei eu. Desta nunca me tinha apercebido. O “Borsalino” tinha uma tão importante acionista com quem dividia os dividendos…

Sim, porque o cheque só seguia se o negócio “tivesse corrido bem”.

E foi a última vez que tive notícias dele, mas suponho que ainda “anda por aí”.

 

 Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico - convertido pelo Lince.        

publicado por Carapaucarapau às 10:59
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