Terça-feira, 29 de Dezembro de 2009

Uma noite de passagem de ano...

                                          

 

 

 

 

 

Há já bastante tempo que deixei de fumar. Mas em minha casa tenho sempre um maço de cigarros e alguns charutos.

Uma pequena história explica a razão desta minha mania.

Há um bom par de anos atrás, vivi, por motivos profissionais, algum tempo numa pequena vila. Além de pequena, era triste, monótona, fechada, quase sem existência. Para mim foi como uma penitenciária onde espiei um qualquer crime que não cometi. Não vivi lá muito tempo, portanto também não me cheguei a integrar numa coisa que também não vislumbrei: qualquer tipo de vida social. “Fui estando”.

Uma noite – noite de passagem de ano – depois dum jantar melhorado num dos poucos restaurantes que havia, e que nessa noite esteve aberto porque eu era cliente diário, sai a dar uma volta para ajudar a fazer a digestão, antes de regressar a casa. Tinha comido demais e bebido também mais que o meu normal. Uma espécie de vingança por ter de passar sozinho naquele local “fora do mundo” aquela noite. Estava uma noite fria e um nevoeiro cerrado envolvia a pequena povoação como uma capa negra. Só de muito perto se vislumbrava a claridade dos candeeiros da iluminação pública. Àquela hora já ninguém andava pelas ruas. Nem um único carro vi passar durante o tempo em que durou o meu passeio. Para não me perder, limitei-me a andar junto aos prédios do quarteirão onde morava. Tinha dado já duas voltas quando de repente junto a um dos candeeiros fui abordado por um homem que tinha aparecido não sei de onde. Na volta anterior, pelo menos, não estava lá.

Deu-me as boas noites, pediu desculpa pela abordagem e pediu-me um cigarro.

- Não tenho. Deixei de fumar já há algum tempo. – Respondi enquanto olhava para a cara do homem que estava mesmo junto a mim.

Havia qualquer coisa de estranho, e que não oferecia confiança, na cara do sujeito.

-Raios… - resmungou ele entre dentes – como é que eu vou agora arranjar tabaco nesta terra? Tudo fechado… com este nevoeiro não passa ninguém pelas ruas…

Eu não deixava de o fitar com algum receio e lembrei-me de um conto do Miguel Torga sobre uma situação semelhante: a de um homem que sem tabaco, desesperado, pede um cigarro a um outro homem que por acaso passou por ele, lá no meio da serra. O segundo homem ia a fumar, portanto tinha tabaco e deu-lhe um cigarro. No fim de puxar umas fumaças o primeiro homem confessou que se ele lhe tivesse negado um cigarro o tinha matado.

Esta lembrança, o ar desesperado do homem e o facto de naquele momento “estarmos sós no mundo” fez-me arriscar um convite:

- Tenho em casa alguns cigarros, se me quiser acompanhar, dou-lhos. Moro aqui perto.

- Fico-lhe muito agradecido.

Andamos os poucos metros que me separavam do prédio onde morava e quando entrei em casa convidei-o também a entrar.

Procurei um maço meio cheio que, por esquecimento, um amigo aí tinha deixado, e entreguei-o ao homem, que me pediu licença para fumar logo um deles.

Disse-lhe que sim, abri uma janela apesar do frio que entrava, e fiquei a observar a maneira “dramática” como o fumou: as duas ou três primeiras fumaças foram prolongadas, engolindo e retendo o fumo durante o máximo de tempo, consumindo logo quase metade do cigarro, depois passou a fumar mais calmamente.

- Não sei como lhe agradecer – disse o homem.

- Não precisa. Teve sorte em um amigo meu se ter esquecido desse tabaco aqui em casa, senão…

- Senão estava eu tramado.

- Está tudo fechado por aqui … – atirei eu sem saber que dizer mais.

- Tudo. E com este nevoeiro e na noite de hoje não anda ninguém na rua…

Bem…Obrigado mais uma vez …e boa noite. Vou andando.

Pensei em convidá-lo para uma bebida, estava agora seguro que nada de perigoso aconteceria, mas depois desisti da ideia.

- Gosta de charutos? – perguntei um pouco abruptamente.

- Creio que só fumei um ou dois em toda a vida, portanto não sou grande apreciador. Mas se esta noite tivesse um, já me teria dado por muito satisfeito.

- Tenho aqui meia dúzia deles que tenho recolhido nuns casamentos e outras festas, vou-lhos dar.

Ofereci-lhos, mas ele só aceitou um.

- Obrigado, mas fique com os outros. Levo só este para fumar amanhã que é dia de Ano Novo.

E dito isto, dirigiu-se para a porta de saída.

- Agora me lembrei – disse eu, talvez para não ficar calado. O posto da polícia está aberto com certeza. Aí teria encontrado algum guarda que certamente lhe teria dado um ou dois cigarros.

- Tem razão, mas nem pensei nisso… então obrigado uma vez mais e boa noite. Um bom ano para o senhor.

- Bom ano também para si.

E saiu.

 

Dois dias depois, ao fim da tarde quando regressei a casa, tinha na caixa do correio um maço de cigarros e uma folha de papel manuscrita.

Dizia mais ou menos assim:

“Este maço de cigarros não é para pagar aquele que o senhor me deu há dois dias. É sim para ficar com ele, para poder valer a alguém numa aflição, como aquela por que eu passei. Percebi que o senhor não é de cá, senão certamente não me teria convidado para ir a sua casa. Também aquele seu alvitre de eu ir à polícia pedir um cigarro, prova que o senhor não sabe quem eu sou. Se eu tivesse ido à polícia, era mais certo prenderem-me do que darem-me um cigarro. Mas isso é outra história.

Obrigado pelo que fez por mim. Se alguma vez precisar de alguma coisa da minha parte, basta dirigir-se ao homem que está na bomba de gasolina à saída da vila, e dizer que quer falar comigo, que ele lhe indicará o caminho. Basta dizer que o senhor é o dos cigarros.

Mais uma vez obrigado.”

 

publicado por Carapaucarapau às 18:43
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Terça-feira, 22 de Dezembro de 2009

Uma história de um Natal

 

Na véspera de um já afastado Natal, seguia eu no meu belo carrinho pela então EN1 em direcção ao norte (a auto estrada A1 tinha então só alguns troços ao serviço), numa fila interminável de trânsito, quando a determinada altura do trajecto me apercebi que junto à berma da estrada uma mulher me fazia, discretamente, o sinal de pedir boleia. Encostei o carro à berma e ela correu para mim e perguntou-me se a podia levar até um ponto mais à frente meia dúzia de quilómetros. Entrou, e mesmo nem eu lhe perguntar nada, contou-me a sua odisseia desse dia. Que tinha estado com um cliente, que se tinha afastado um pouco da sua zona habitual, que estava com muita dificuldade em regressar pois o trânsito era muito, mas os carros iam “todos cheios com as famílias” e que por isso não lhes podia pedir nada. Que quando me viu sozinho não hesitou em fazer-me sinal e que estava muito contente por eu ter parado. Eu disse qualquer coisa como “pois, hoje deve ser complicado” ela confirmou e disse que até estava arrependida de ter vindo “trabalhar” porque além de não haver clientela, ia ter agora um problema para regressar a Lisboa, onde vivia. Ela e dois filhos. Fiquei também a saber que o filho tinha 6 anos e a filha 4, e que estavam em casa duma senhora, que durante o dia tomava conta deles, e onde ela também vivia.

Depois contou que o local onde normalmente esperava pelos clientes era um pouco mais à frente, perto havia um pequeno restaurante onde costumava almoçar e onde agora queria ficar. “Se eu tivesse pensado bem, hoje nem tinha vindo para cá. Com o trânsito que está e sem os camiões a circular, tenho certamente de voltar na camioneta da carreira, a não ser que no restaurante ainda arranje alguém que me dê boleia. Em geral são os camionistas que me valem, tenho bons amigos entre eles, alguns também são clientes, outros não, mas são eles que me trazem e levam de volta. Hoje o dia está estragado, só tive aquele cliente e se soubesse que ele me lavava para tão longe nem tinha ido”.

 Eu continuava calado, de vez em quando olhava para ela e sorria, para lhe dar a entender que a ouvia com interesse.

Disse-me ainda que talvez nem fosse mau ter de voltar mais cedo, assim ainda ia a horas de comprar qualquer coisa para melhorar o jantar dos pequenos, ainda que já tivesse deixado dinheiro à senhora para umas compras extra.

Depois, apontando um largo que havia mais à frente ao lado da estrada, e onde ficava o  restaurante, avisou-me que era ali que queria ficar. Entrei no tal largo, ela agradeceu-me muito, disse-me que eu tinha sido um anjo que lhe tinha aparecido. Eu sorri, respondi-lhe que não era nenhum anjo, que nem asas tinha, quando muito parecia mais o Menino Jesus. E quando ela, já fora do carro insistia nos agradecimentos, eu saí também, disse-lhe para esperar mais um minuto, e dirigi-me à mala do carro. Tinha lá uns bolos rei que levava para distribuir pela família e uns brinquedos para os mais novos, retirei um bolo-rei e algumas das bugigangas e dei-lhas dizendo que eram para os filhos.

E enquanto ela continuava a segurar no regaço as prendas que lhe dei, de boca aberta sem dizer nada, eu entrei no carro e preparei-me para arrancar. Foi quando ela finalmente falou. “Obrigada, não sei o que lhe hei-de dizer mais, quando o senhor por aqui passar procure-me que eu também lhe quero dar uma prenda”.

- Está bem, não se preocupe, depois vemos isso. Bom Natal! – respondi-lhe eu, enquanto lhe fazia um aceno de despedida e arrancava com o carro.

Nunca mais a vi, nunca mais soube nada dela, nunca recebi a prenda prometida…

Aqui está uma minha pequena história de Natal, de que não me esqueci, tanto assim que resolvi recordá-la, agora que estamos em vésperas de mais um.

 

 

Aos que aqui costumam vir, quer deixem rasto ou não, desejo um Feliz Natal e um Bom Ano Novo. Boas Festas!

 

 

publicado por Carapaucarapau às 14:36
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Quinta-feira, 17 de Dezembro de 2009

O Mastro

 

 

Eu não podia perder esta!

No Jornal de Notícias de 16/12/2009 vem a seguinte notícia, de que transcrevo algumas passagens:

 

Um milhão de euros é quanto vai custar um mastro com cem metros de altura que a Câmara de Paredes vai construir para içar uma bandeira nacional.

Deverá ser uma das maiores bandeiras portuguesas do Mundo a ser içada, quase tão alta como o monumento do Cristo-Rei, em Lisboa, e com mais 25 metros do que a Torre dos Clérigos, no Porto. O mastro com cem metros será maior que o Big Ben, em Londres, e a bandeira terá 25 por 16 metros.

Pelo tamanho do mastro, a bandeira içada em Paredes poderá ser avistada de Braga ou até de Aveiro.

"Este monumento permite georreferenciar o concelho de Paredes", explica o autarca que espera cativar apoio financeiro em mecenas privados. Adianta ainda que o monumento será simples: "Terá apenas um pequeno motor eléctrico para içar a bandeira".

 

Para quem quiser ler a notícia na íntegra pode ir aqui, pois encontra umas coisas e uns nomes interessantes…

A mim, aqui e agora, interessa-me o mastro. Dou comigo a pensar em como a minha vida poderia ter sido diferente se eu também tivesse um mastro, já não digo que se visse desde Aveiro ou Braga, nem que superasse o Big Ben, mas pelo menos que fosse avistado por algumas das minhas vizinhas. Que fosse como que uma georrefência (com pedido de licença ao presidente da câmara de Paredes pelo uso da palavra), para o mulherio das redondezas. Assim, quando alguma se sentisse perdida ou desorientada, olhava aqui para as minhas bandas e com os sentidos fixados no mastro, orientava-se e orientava a sua vida.

Porque um mastro, respeitável público, não é um pau ao alto. Ou melhor, não é só um pau ao alto. É um farol, uma torre de emissão de ondas, que orienta, que desperta o interesse, que satisfaz (ou pelo menos deve fazer por isso).

Ora se eu tivesse um mastro desses, que pelos vistos vale 1 milhão, eu seria o farol que iluminava o caminho, seria a Meca para onde se voltariam as almas necessitadas (“almas” é maneira de dizer, porque nestas coisas de mastros os corpos contam muito), seria o conforto de tanta gente. E, sendo munido de um motor eléctrico, com um simples toque no botão estaria sempre apto a ser içado, o que não acontece com qualquer mastro até hoje conhecido. Por muito boa que seja a qualidade da madeira, há sempre pequenas falhas, às vezes, direi mesmo sempre, nos momentos mais delicados.

Daí que ao ler a notícia, eu entenda muito bem o Sr. Presidente da Câmara de Paredes. Há lá coisa melhor, para o bem das gentes de Paredes, que passarem a ter um mastro para se orientarem. Direi mais: para sonharem, para darem asas à imaginação, pensando quão felizes seriam se dispusessem de um mastro assim para… para…sei lá para quê! Para pendurarem a roupa por exemplo. Para as pessoas de Aveiro ficarem cheias de inveja, por não terem mastros como os de Paredes. Estou em lançar daqui uma palavra de ordem: “Povos de todas as terras, exijam mastros que se vejam e não deixem que as vossas cuecas, que os vossos sutiãs, que as vossas peúgas, mesmo que as vossas bandeiras, sejam pendurados num pauzito com 2 ou 3 metros de altura. Mastros ao alto e mastros que se vejam!”

 

É por estas inesperadas notícias que a vida conserva o seu interesse. E eu, que nunca tinham pensado em tão importante assunto, agora vejo tudo mais claro. Um mastro assim, satisfaz no presente (um milhão deve dar de comissões…ora bem… três vezes sete são…não é 3  é 4 vezes…pois…é só fazer as contas) e satisfará mais tarde (quando já se fizerem mastros mais sofisticados e este tenha de ser vendido para sucata), um bom sucateiro, que fará um bom negócio, que dará umas boas comissões…É só fazer as contas! Não deve ser por acaso que o mastro de Paredes é para ser avistado de Aveiro. Ele há cada coincidência…

E foi assim que um post, que começou com um mastro virado para um certo objectivo, certamente elevado, caiu no mundo rasteiro e sujo da sucata.

 

E agora fica aqui uma dúvida: será que um mastro com um motor eléctrico não será a mesma coisa que um zequinha vibrante?

 

 

 

publicado por Carapaucarapau às 12:50
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Sábado, 12 de Dezembro de 2009

Conversa com o Peru

                          

                                                    O Peru (fotografado durante a conversa)

 

 

 

 

 - Olá amigo Peru!

- Glu, glu, Caraglu!

- Como?

- Desculpa Carapau, não tinha ligado o Glooglugler para a tradução simultânea.

- Julguei que te tivesses passado…

- Nada disso. Foi só um esquecimento. E tu como vais Carapau?

- Estou bem obrigado. Tu é que pareces estar com um ar muito emproado!

- Emperuado, queres tu dizer…

- Ou isso. Mas olha que não te fica nada bem, nesta época…

- Qual época?

- Natal à porta, tens de ter cuidado.

- Ah! O Natal! Claro é uma época muito má para a peruada. É cada razia…

- E isso não te preocupa?

- Não sei por quê. Ainda há dias lá pelos States, no Dia de Acção de Graças, foi um aviar neles, bastante superior à pandemia que vai alastrar por aqui.

- E tu ficas assim descontraído?

- Claro! Que queres que eu faça? Não é para isso que os perus são criados?

- E tu?

- Comigo é um pouco diferente. Ainda não é este ano que me depenam…

- Estás assim tão certo?

- Claro que sim. Ainda ontem ouvi os tipos lá no aviário a dizerem que eu ainda estou em plena forma. O encarregado disse mesmo: “Este sacana do Perualho (é o meu nome) está cada vez melhor. Avia aí a clientela toda e mais aviaria, se houvesse”.

- Clientela? Não entendo. Então tu também…

- Calma Carapau. Essa de “aviar a clientela” é uma maneira lá deles falarem. Queria o tipo dizer que ainda arrasto bem a asa e salto para o lombo das peruas, com classe.

- Com classe?

- Claro. O que tem de ser feito tem de ser bem feito e com classe.

- E são muitas as peruas?

- Umas largas dezenas. Tudo material escolhido a dedo. Poedeiras de primeira água…

- Por falares em água, diz-me uma coisa. Essa história de os perus se embebedarem com aguardente é verdade?

- Parece que sim. Acontece que os presumíveis bêbados desaparecem e não podem confirmar isso.

- Quer dizer: apanham cada perua…

- Isso de apanhar as peruas é só comigo. E há umas bem jeitosas.

- E então tu és o único a …como se diz? Ah! Sim, a “aviar a clientela”?

- Lá em casa sou o único. Por isso é que estou a salvo neste Natal. Um Natal virá…

- “Há-de vir um Natal e será o primeiro…”

- No meu caso será o último…

- Lá proa e prosápia tens tu! Fazes andar as peruas com a cabeça à roda, não?

- Em geral quem anda à roda, a arrastar a asa, sou eu.

- Como os galos?

- Não confundas, por favor. Galo é galo, peru é peru.

- Pois, com certeza. Foi só maneira de dizer… mas se os galos galam, o que fazem os perus?

- Os galos galam as galinhas, nós fazemos o mesmo às peruas.

- Galam também?

- Sei lá se galam se não galam. Sei que arrasto a asa, namoro-as, espero que se ponham em posição e depois faço o meu serviço.

- Serviço?

- É o que dizem lá no aviário. Que eu ainda faço bem o serviço.

- Bem…isso tu lá sabes. Também tens um monco que te deve ajudar um bocado…

- O monco não faz o peru…

- Mas ajuda…

- Isso é verdade. Em geral as peruas ficam logo receptivas quando eu apareço.

- Se tu o dizes … Espero ver-te por cá mais vezes.

- Não tenho muito tempo livre.

- Sabes uma coisa? Anda por aí um monte de pessoas que parecem mesmo uns perus.

- Isso sempre houve. Umas vezes mais, outras vezes menos. Vocês podiam era aproveitá-los para um churrasco agora no Natal.

- Peru de churrasco? Tem carne muito seca.

- Esses perus em geral até são rechonchudos, saia-lhes aquela gordura toda, olha que iam ficar um pitéu.

- E por onde se lhes metia o espeto?

- Olha, olha! Pelo sítio do costume. Qual o problema?

- Não sei não…

- Vai por mim…mas agora quem se vai embora sou eu que tenho umas peruas à minha espera.

- Só mais uma coisa Peru amigo. Li há dias que também és um responsável pela emissão de CO2. Tu e os teus, as vacas, os carneiros e o resto dessa maltósia. Que dizes a isto?

- Não sei nada disso, não conheço esse tal CO2, cheira-me a gás…

- É isso mesmo, um gás…

- Tenho digestões fáceis, engulo muita pedra, tenho pouca flatulência, não vejo onde esteja o problema, no que diz respeito aos perus. Ou talvez saiba, pensando melhor…

- Ai sim? Conta lá isso à gente!

- Creio que essa treta é só para justificar a razia que vamos sofrer brevemente. Mas já estamos habituados, mais acusações menos acusações, cá vamos grugrulejando à nossa maneira.

- Então bom grugrulejo amigo Peru e até outro Natal.

- Até lá, Carapau!

 

 

                                         

               O Peru (daqui a uns  tempos. E não digam agora que o calor em excesso não faz mal)

publicado por Carapaucarapau às 14:18
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Sábado, 5 de Dezembro de 2009

Gente (IV)

Desta limitada série "Gente que eu conheci", outra figura que não esqueço.

 

 

O Caldelas

 

   Ainda mesmo os mais madrugadores se viravam uma última vez na cama a dormir mais um migalho ou a saborear o quente do ninho, e já o Caldelas vinha de saco de serapilheira ao ombro, depois de recolher a caça, que os laços e outras armadilhas tinham angariado durante a noite.

   Já perto de casa fazia uma última tentativa com o furão, a ver se saca de um buraco um láparo que lhe escapa havia já uns dias. Operação rápida, pois convinha não se expor muito, já que o dia ia clareando. Depois entra na aldeia, com o furão escondido entre a camisa e a pele, um casaco surrado a compor a figura, o saco ao ombro, com os apetrechos proibidos e com as proteínas.

   Arruma o material, mete o bicho no esconderijo, pendura os dois coelhos laçados e esfola-os enquanto o diabo esfrega um olho. Enche as peles com palha e põe-as a secar. Depois leva os dois láparos, já amanhados, para casa e coloca-os num alguidar. O resto já será com a mulher, que aparece nesse momento ainda com os olhos meio fechados e a espreguiçar-se. Os filhos, duas elas e três eles, aparecem daí a pouco à procura de qualquer coisa que se mastigue.

    Este é o começo de um dia típico do Caldelas. Começo e fim, direi agora eu, pois  durante o resto do dia, ele já não fará grande coisa.

   A casa onde moram é pequena e modesta e tem, nas traseiras, um terreno também ele exíguo, que a família cultiva. Desse terreno vem os acompanhamentos, do saco do Caldelas vem o conduto. Quando os engodos não funcionam durante a noite, o homem dá a volta mais pelo largo e, desde que se ande com os olhos bem abertos, há sempre um pato a patinhar nalgum charco, uma galinha tresmalhada, ou em último recurso, e se for o tempo dela, umas peças de fruta prontas a serem ensacadas. Com o saco vazio só muito raramente volta para casa.

   O Caldelas é disto que gosta e é disto que sabe. Na época oficial de caça tira a sua licença, sai de espingarda ao ombro, e faz as suas caçadas na legalidade, descontando as pequenas ajudas que o furão lhe vai dando aqui e ali, que um homem também não consegue cumprir todas as leis ao mesmo tempo, tantas elas são.

   Uns copos e umas larachas nas tascas “en passant”, por vezes umas valentes bebedeiras, que a vida não é só trabalho, e aí está a receita de vida do Caldelas. Por falar em trabalho, nada de confusões, que é como quem diz, nada de cavar ou sachar o dia inteiro, de sol a sol, como quase toda a gente na aldeia faz. Isso é mesmo para os outros, mulher e filhos mais velhos incluídos. Ele tem mais que fazer, como já se disse. Lá de onde em onde uma mãozita rápida a encanar uns feijões ou a capar uns meloeiros na horta, no tempo deles, mas sem se prender muito. Com um “acabem lá o resto que tenho uns assuntos para tratar”, dito para a mulher e filhos, termina invariavelmente a sua rápida prestação.

   De bem com todos mas sem grandes conversas, o Caldelas passava mais ao lado das pessoas do que das coisas. A caça, a legal e a ilegal, absorviam-no todo o ano, juntando a essa actividade também a pesca. Não a pesca com linha e anzol, paciente e pouco produtiva, mas sim a pesca “industrial” e evidentemente proibida, com uns lanços apressados de tarrafa nas cascalheiras do rio, ou, mais raramente diga-se, uma bombita ou outra num pegão mais escondido, onde o peixe mais graúdo era garantido. Isto em golpes rápidos e só meia dúzia de vezes por ano, que o homem gostava mais de carne do que de peixe. Por esses tempos os rios ainda tinham peixes, os matos tinham caça e havia poucos caçadores e ainda menos pescadores. E como o Caldelas era profissional 365 dias por ano, sem direito a férias, e não havia mais nenhum como ele nas redondezas, bem se podia considerar o rei da floresta.

   Um dia o padre da freguesia, saído há pouco do seminário, mas tendo sabido, certamente em conversas mais com o Demo do que com Deus, das habilidades especiais do Caldelas para a caça, quis fazer uma caçada com ele. Contrariado o velho lá teve de aceitar uma tal companhia, mas como era evidente logo à partida, a coisa correu mal, o padre falhou um ou dois coelhos, o Caldelas que nem a Cristo perdoava, pegou-se com ele e a caçada acabou cedo.

   Um dia, era eu já mais crescido, numa conversa a sós, ele confessou-me que não era muito de latins e Padre Nossos. A mulher e as filhas lá iam à missa ao domingo, os filhos andaram na catequese, mas ele Caldelas, já nem era capaz de dizer a Salvé Rainha. No entanto, acrescentou, sempre se deu bem os padres. “Sabes – disse-me ele – dá sempre jeito. Se não fosse este bom relacionamento com o padre não tinha livrado os rapazes da tropa”. 

   Por isso é que aquele episódio de caça com o Padre não impediu que continuasse a dar-se bem com ele. Assim, de vez em quando, o Caldelas lá deixava em casa do padre um ou outro coelho ou perdiz. Mas caçadas juntos, nunca mais. Tudo, menos aturar pixotes na arte do tiro.

   Comecei a conhecer o Caldelas, era eu então um rapazinho de escola onde andava com um dos filhos dele. Ainda hoje quando os encontro, embora raramente pois andam todos pela estranja, falamos desses tempos e em geral sou eu que lhes lembro as histórias do pai. Eles acham piada, riem-se muito e acrescentam sempre mais um ou outro pormenor. E revejo neles, o mesmo sorriso irónico e o mesmo olho vivo do velho Caldelas.

 

publicado por Carapaucarapau às 12:49
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