Sábado, 28 de Novembro de 2009

Diálogos (III)

                                            

 

 

            (A porta do diálogo não é esta. Mas como não se deixou fotografar...)

 

  

Conversa com a minha Porta

 

- Até logo!

- Vais sair outra vez?

- Entrar é que não posso. Estou cá dentro…

- Estás mais tempo fora que dentro.

- E tens alguma coisa com isso?

- Não.

- Mas pelo tom até parecia…

- Foi só para não ficar calada.

- Fala aí com a porta da frente ou com a do lado.

- Não gosto de falatórios com vizinhas.

- Difícil é falares com afastadas…

- O que queres dizer?

- Nada. Até logo!

- Ainda nem me abriste…

- É só dar-te meia volta e já está.

- Engano o teu. Tens de me dar duas voltas completas.

- Ena! Estavas com medo que te roubassem?

- A mim? Uma porta velha e usada…

- Velha uma ova! Para porta estás muito bem conservada.

- Isso dizes tu. Estou cansada, sempre a abrir e a fechar.

- Ainda tens os gonzos em bom estado. Nem chiam…

- Graças ao óleo que me pões de vez em quando.

- Trato-te bem.

- Tratas, tratas. Olha só o peso que me mandaste pôr nos ombros…

- Quais ombros? A ombreira é que se podia queixar. Agora tu…

- Tinhas necessidade de me mandares aplicar esta chapa de aço?

- Foi para tua protecção. Qualquer dia aparecia aí algum safado que te metia o ombro e lá ias tu…

- Isso. Desculpa-te. Protecção para ti, meu medroso…

- Medroso? Mas que conversa é essa?

- Não era nada disso que eu queria dizer. Queria dizer cauteloso. Mas que queres? Com esta carga às costas já nem sei o que digo.

- Bem. Vamos lá a ver se a Porta se porta na linha. Tu não percebes que se não fosse essa protecção aparecia aí algum que te dava a volta e tu escancaravas-te toda?

- Não sou dessas.

- Olha não. Era só ele ter algum jeitinho e abrias-te que nem uma romã com o calor.

- O que é uma romã?

- Não disfarces. Porta-te bem senão…

- Senão o quê? Que me fazias?

- Sei lá. Depois veria…Olha mandava-te envernizar.

- Não faças isso. Não suporto o cheiro a verniz.

- Mas ficavas mais bonita…

- Para quê? Não és tu que dizes que por aqui nunca passará nenhum Portão de Quinta?

- De quinta categoria não? Para que querias tu conhecer um Portão?

- Ora… cá para coisas…

- Para casares e teres muitos postigos…

- Não sejas maluquinho. Ganha juízo senão ainda dizem que és mais burro que uma porta…

- É verdade! As portas são burras mesmo?

- Sei lá! Deve haver umas que são e outras que não. Olha, por exemplo, sempre que se abre uma porta isso quer dizer…

- O quê?

- Nada. Não ias entender.

 - Sabes lá tu se ia entender ou não… mas diz-me uma coisa: de vez em quando não aparece por aí nenhum “curioso” a espreitar-te pelo buraquinho?

- Buraquinho? Eu tenho lá disso! Sou uma porta bem fechada a espreitadelas do exterior. Já de ti não posso dizer o mesmo…

- De mim, o quê?

- Tu sim espreitas muitas vezes, mas pelo lado de dentro.

- Claro, para saber quem bateu à porta.

- Essa do “bater à porta” era no tempo da minha avó. Muita porrada as portas levavam então…

- Pois. Agora não…

- …se bem que agora parece que ainda há disso. Não sei se leste as últimas estatísticas…

- Ah! Ah! Ah! Deixa-me rir! E tu leste?

- Não li, mas ouvi. Aqui ouço muita coisa. Ainda há dias ouvi na televisão da vizinha do lado, sobre isso. Pobres portas! Não há maneira de serem respeitadas…

- Pronto. Entraste na fase da contestação.

- Diz antes da constatação. Olha que mesmo aqui ao lado…

- Ai sim? Conta, conta…

- Deixa de ser bisbilhoteiro. Não sou Porta de dar à língua. Mas deixa-me dizer-te uma coisa. A mim ninguém bate, mas quando tocam à campainha apanho cada sobressalto, que fico com o coração aos saltos. Então se estou a dormitar, nem queiras saber como fico. Podias substituir esta campainha estridente por alguma coisa mais suave. Olha que ali a minha vizinha da frente…até dá gosto quando tocam para ela…

- Querias música não?

- Música dás tu, às vezes, quando aqui vêm certas pessoas falar contigo. Lembras-te daquela vez com as Testemunhas…

- Shiu! Cala essa boca…

- Ah! Não gostas de ouvir as verdades! E daquela vez que apareceu aqui uma certa pessoa e tu abriste-me tão depressa e tão depressa me fechaste que até fiquei ourada? Não te lembras não? Depois aí do lado de dentro encostaram-se a mim que até…

- Cala-te com essas tretas! Olha que as portas têm ouvidos!

- As paredes é que têm…

- E as portas também. Até melhores. Essas conversas não são para aqui chamadas.

- Pronto, está bem, desculpa. Mas às vezes custa engolir certas coisas…

- Sabes que mais? Vou-me embora. Já perdi muito tempo aqui a palrar contigo. Até logo.

- Mas primeiro, não te esqueças de meter essa coisinha aqui no meu buraquinho e dares aquele jeitinho que tu sabes, senão não abro…

- Porta tarada! Sempre com essa mania dos jeitinhos…

- Que queres? O culpado foste tu. Deformaste-me…

- Pois, pois. Mas aposto que, se aparecer alguém aí com um abre-latas qualquer, não te fazes rogada…

- Ah! Ah! Com ciúmes?
- Ah! Ah! Digo eu. Adeus, até logo.

- Aonde vais?

- Como?

- Nada, estava a brincar. Sabes uma coisa? Gosto de falar contigo. Não aprendo nada de novo, mas dá-me um certo gozo.

- Gozo? Nunca me apercebi, mas se calhar, pensando bem…

- Não é nada disso que estás a pensar. O meu gozo é outro. É para fazer inveja aí a essas minhas duas vizinhas. A Castanhinha da frente e a Amarelada aqui do lado. Muito envernizadas as duas, mas ninguém fala com elas…

- Chiça! Até tu, Porta?

- Que mal tem?

- Não sei se tem mal ou bem, não me interessa. Mas agora diz-me uma coisa: como sabes a cor da vizinha do lado? Que saibas a cor da porta frente, eu entendo. Agora a do lado…

- Ah! Ah! Ah! E as portas é que são burras! Vai-te lá embora que se faz tarde. Mas primeiro fecha-me com duas voltas, está bem? Fico tão consolada…

                                  

publicado por Carapaucarapau às 15:09
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Domingo, 22 de Novembro de 2009

História do Capuchinho Vermelho

 

Há dias, em visita ao 262 deste blog, tomei conhecimento deste outro e resolvi “entrar no jogo”.

Assim nasceu esta ideia para uma nova versão da História do Capuchinho Vermelho.

 

História da Pink Barretina

   “Pink Barretina, tens de ir levar o lanche à avó. Telefonou a dizer que está com a neura e não tem nada para comer em casa. Já arranjei a marmita térmica com o resto da feijoada de ontem. Eu vou ter uma reunião de negócios com o Pedrocas Pedralva, não posso lá ir”. – Isto disse-lhe a mãe já à porta, enquanto agarrava a mala.

   Pink Barretina, que já tinha sido Red, mas com o tempo tinha desbotado, disse “sim mãe, vou já, é só acabar aqui este jogo”. Dois minutos depois fez um do-li-tá para ver se ia de autocarro ou bicicleta, saiu a bicicleta, “então vou pelo atalho da floresta”, agarrou na marmita, pegou a “duas rodas” e começou a pedalar.

   Tinha andado umas centenas de metros, quando numa curva mais apertada do caminho, quase teve um encontro imediato do 3º grau com o Zeca Motard, conhecido por Lobo Mau, que vinha em sentido contrário a fazer um cavalinho. A Pink Barretina conseguiu desviar-se, mas foi contra um pinheiro e entortou a roda da bicicleta.

   O Lobo Mau voltou atrás, “é pá vinhas fora de mão”, “fora de mão o cacete, aqui não há mãos. Tás com a roda empenada, essa gaita assim não anda”. Ela então explicou-lhe o problema, como iria agora entregar a feijoada à avó, ele perguntou “olha lá a tua avó é aquela a(L)inda Boa que mora no arranha-céus junto ao lago?”. “É” respondeu a Barretina, “então dá cá a marmita que eu vou lá entregá-la” disse o Lobo a lembrar-se duns olhinhos que a dita Boa lhe tinha feito há uns tempos atrás, estava ele a tomar uns birinaites na explanada ao pé do lago. Desde então andava com uma vontade de dar umas dentadas na cota e começou logo a lamber os beiços. “Tu volta para trás com a bicicleta à mão e fica descansada que eu vou fazer a entrega”.

   A Pink Barretina, que já tinha brincado à macaca com o Lobo Mau no “Bar 3 Vinténs”, uns tempos atrás, fez como ele disse e teve a sorte de, no penoso regresso, ter encontrado, no meio da floresta, um camião que estava a carregar madeira e que por acaso era conduzido por um simpático que lhe deu boleia, a ela e à montada..

   Quando a avó ouviu a campainha a tocar, espreitou pelo ecrã e viu um tipo de capacete com um embrulho na mão e disse para os seus botões: “parece o entregador de pisas, mas não me lembro nada de ter feito a encomenda”. Pelo sim pelo não abriu a porta da rua, esperou 2 minutos que ele subisse ao 15º andar e quando ele chegou, disse “deve ser engano”, “não é, não” respondeu ele e começou a contar a cena que tinha tido com Pink Barretina, na floresta. “Ah! Então entra filho, tá à vontade”. Mas mal ele entrou, também entrou pelo nariz da velha, (velha é maneira de dizer, pois ainda estava em bom estado de conservação), mas como eu ia dizendo, entrou pelas ventas da senhora uma mistura de cheiros a zebum, a bedum e a lupus novo de tal maneira intenso, que ela se viu obrigada a empurrá-lo prá banheira, depois de lhe ter arrancado os farrapos e o capacete.

Começou a esfregá-lo com tais ganas que às tantas saltou também ela prá banheira para melhor trabalhar e depois de brincarem aos médicos, ao esconde esconde, às bolinhas de sabão e a outros jogos conhecidos, a Avó deu o banho como acabado e o Lobo Mau lá se foi embora com o capacete na mão, mais partido do que se tivesse despistado pelo monte abaixo, aos trambolhões, mas tendo aprendido, à sua custa, que muitas vezes quem vai à lã é que sai tosquiado.

   Em seguida a avó atirou-se à marmita, a feijoada ainda estava quente, adorava feijoada do dia anterior, com o feijão já meio desfeito, e ficou satisfeita, dando a tarde como bem passada. Tinha arrancado à força o telemóvel do Lobo Mau e a partir de agora, e sempre que lhe apetecesse pisa, ia exigir que fosse ele o entregador.

   Quando chegou a casa, com a bicicleta à mão e meio estoirada, a Pink Barretina  encontrou a mãe a contar umas notas de vinte, pelo menos cinco contou ela, afinal tinha feito negócio com o Pedralvas e pensou, que com os cinquenta que o camionista lhe tinha dado, o dia até nem tinha sido assim tão mau, ainda bem que tinha tido o acidente com a bicicleta. “Parece que já se sente o fim da crise” pensou a Pink que era dada a considerações sobre economia. E se ela soubesse dos cinquenta que a avó tinha também dado ao Lobo Mau, então teria mesmo pensado que a retoma já tinha começado.

publicado por Carapaucarapau às 01:13
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Quinta-feira, 19 de Novembro de 2009

Diálogos (mais que) prováveis (III)

 

Há gajitos que começam a roubar desde putos. Começam por roubar o leite à mãe quando a apanham distraída, depois roubam no infantário as chupetas aos colegas, continuam pelos brinquedos, depois lápis, borrachas e afias, passam a roubar lá em casa um dinheiro, aprendem a jurar que não foram eles, nem pensar nisso, “olha que me ofendes pai”, e assim seguem pela vida fora. Quando os roubos passam a um escalão superior vestem Armani, camisas sempre impecavelmente novas, gravatas discretas, a mesma cara de pau “não recebo lições de nada e de ninguém”.

Ao longo da vida sempre continuaram em contacto com os amigos “roubadores” e vão formando “associações de amizade” para desenvolver os seus “negócios”.

Têm uma linguagem própria, uma imensa falta de respeito por tudo e todos e fazem publicamente prova da sua falta de vergonha com a mais estanhada lata. Uma grande parte do respeitável público gosta deles e das suas habilidades, talvez porque no fundo gostava de ser como eles. Destes, alguns sonham em entrar na “roda dos amigos” e poder um dia, também “negociar com eles”.

O diálogo que a seguir transcrevo não é fruto de nenhuma escuta, legal ou ilegal, não meteu juízes nem procuradores, nem foi escutado num qualquer não café. Imaginei-o e escrevi-o. Depois reli-o e não fiquei nada contente com a minha imaginação. A realidade suplanta-a de longe.

 

Aviso: Este post contém expressões e situações que podem ferir a susceptibilidade de algumas pessoas. Se estiver nesse grupo, não continue a leitura.

                                                                                     O

 

 

 

- Olá pá!

- Olá! Como estás?

- Bem, cada vez melhor. E tu? Tá tudo a correr bem?

- Tudo jóia. O tipo lá de cima já se chegou com mais algum.

- Ai sim? Ainda bem. Acho que temos também de apertar um bocado com os outros gajos.

- Já lhes dei uns toques…

- Se os toques não resultarem partimos prá porrada. Apertas aí a tarraxa que os gajos até se cagam. Cambada de filhos da puta! Já vistes isto?

- Já. É tudo a mesma gajada. Aparecem aqui de chapéu na mão a cagar e a tossir e depois de terem o negócio feito tentam fugir com o cu à seringa. Mas acabam por vir às boas, senão já sabem que se fodem.

- É assim mesmo pá! Esses gajos até parece que gostam…Agora temos de tratar da saúde àquela gaja e àquele gajo que me andam a chatear.

- Já falei com o Chico. Já lhe disse que se precisasse de guita para os foder, eu arranjava aqui.

- Claro! É para isso que aí estás.

- A ti o devo, isso não esqueço.

- Isso não é para nós, pá. Hoje tu, amanhã eu. És um porreiro, pá! Os amigos são para as ocasiões. Lembras-te daquela vez…

- Claro que lembro. E amanhã se houver porras cá estou para dar o peito às balas…

- É pá, não exageres…não vai haver porra nenhuma. São todos uns filhos da puta e capados e vêm cá comer à mão.

- Assim espero pá. Olha! Queres que mande a guita para aquele sítio?

- Uma parte sim. A outra tem de ser para pagar umas despesas. Vamos fazer uma campanha de promoção e essa merda custa dinheiro.

- Como queiras.

- Estas porras destas negociatas dão bom dinheiro, mas depois temos de sustentar uns tantos cabrões…

- Cabrões, filhos da puta, paneleiros e “senhores sérios”…

- Ah! Ah! Ah! Essa de sérios tem piada.

- E achas que um dia não aparece por aí nenhum cabrão a meter o focinho nestas merdas?

- Não creio. Os gajos acagaçam-se todos. Têm todos rabos de palha e além disso gostam do bom e da boa vida. E têm filhos, sobrinhos, amigos…enfim, quem tem cu tem medo.

- Mas se por qualquer motivo der para o torto…

- É pá! Descontrai-te que eu cá estou para acabar com tudo. Tenho aí uns amigos nos sítios certos, qualquer merda que haja acaba depressa.

- Já sabes que tenho toda a confiança em ti…

- Claro pá! Somos amigos.

(…)

 

 

Mais do que fazer um post, que aqui entre nós nem é muito bem conseguido, andava a precisar de fazer esta catarse. Não faz o estilo do Carapau, mas nem sempre o estilo é tudo. Além disso, há tipos que não consigo imaginar a falar que não seja daquela maneira, ou ainda pior.

 

“Podia ter evitado os palavrões? Podia! Mas não era a mesma coisa”.

 

 

 

 

 

 

publicado por Carapaucarapau às 13:34
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Sábado, 14 de Novembro de 2009

Assembleia Geral

                                    

                           (Lá para o fim se entenderá a razão desta foto)

 

 

Os inúmeros animais que tem sido objecto de histórias aqui no blog, bem como aqueles que só foram citados, resolveram reunir-se em Assembleia-geral Extraordinária para debater um problema que muito os anda a preocupar. Cidadãos bastantes intervenientes (alguns, outros limitam-se a mandar umas bocas) formaram uma comissão “ad hoc” para organizarem essa reunião. E vieram convidar-me, eu diria mesmo intimar-me, para estar presente, com a função de secretariar a mesa e redigir a acta. Com uma desfaçatez que lhe vem de longe, foi a cadela Marilyn, que chefiava a comissão, que disse que eu era o animal indicado para redigir a acta, já que gosto muito de dizer/escrever coisas e assim tinha uma oportunidade de mostrar os meus dotes. E enquanto faladrava sorria para mim, o que queria mesmo dizer que me estava a gozar. Fiz que não percebi e uma vez que fui obrigado, lá estive a aturar aquela bicharada toda.

A única coisa que posso fazer, para me vingar, é publicar aqui parte da acta que eu redigi, pelo menos para os eventuais visitantes verem até que ponto a bicharada anda entretida com estes “faits divers”, quando devia estar a tratar da vidinha. Nem sei com quem esta bicharia aprendeu…

 

                                                          Acta

Aos tantos de tal de dois mil e etc. etc. estiveram reunidos no Pavilhão do Indico, devidamente equipado com sistema de tradução simultânea e gentilmente cedido para o efeito, os seguintes “condóminos do blog CarapauCarapau”:

(Segue-se a lista com toda a bicharada. Aqui só vou citar meia dúzia dos mais conhecidos, deixando assim campo aberto para os futuros historiadores pesquisarem. Estavam presentes, seguindo a ordem da lista de presenças, o goraz, o choco, o peixe-galo, o peixe-porco, as chaputas (várias), a Chaputa Fina*, a sardinha, o mexilhão, o Lagostim*, o bacalhau, a Pescada* e o Pargo*, a Solha Zarolha* (estes dois últimos contra todas as expectativas) e mais uma infinidade de animais de água, doce e salgada, sendo de destacar a Ostra*, o que muito admirou os outros animais. Além deles estavam ainda o cão Petrarca* e a cadela Marilyn*, 7 vacas (as 6* que em tempos estiveram na Praça de Espanha e mais a Belisária*, o mais recente condómino), um camelo que ninguém conhecia e o cão Napoleão*, de que já ninguém se lembrava).

Como a Assembleia foi aberta à população em geral, encontravam-se nas bancadas, mas sem direito a intervir, vários animais e não só, tais como: um Gajo* a fumar uma cigarrada, o Jamé, o Alberto João* e o Rei de Espanha*. Também estava o Tio*, mas não o sobrinho.  

Presidiu a Marilyn, que além de dirigir os trabalhos fez a introdução aos mesmos.

- Caros condóminos, estamos aqui reunidos para debater as consequências nefastas que a aplicação de um recente decreto-lei, vai introduzir no mundo animal. Em boa verdade, nem deveria falar em introduzir, pois que uma das consequências é mesmo proibir a introdução (gritos na assistência de “abaixo a lei”, “fora com esses fazedores de leis”, “viva a introdução livre”). Acalmados os ânimos depois dumas boas ladradelas da Marilyn, esta continuou:

- Amigos, companheiros, camaradas, condóminos! A propósito de regulamentar e proibir os animais no circo, essa lei pretende sim vir a condicionar a nossa vida de animais livres, sexualmente activos e empreendedores. Esta lei é só a ponta do iceberg. Qualquer dia aparece outra que, sob a capa de velar pela nossa saúde, irá proceder à castração geral de todos nós! Física para uns, química para outros.

O tecto do pavilhão ia caindo com o imenso huuuuuuuuuuuuuu!!! que a bicharada soltou. E vieram novamente os gritos de “abaixo a lei, acima os nossos sempre direitos”.

Nesta altura ouviu-se a voz esganiçada da Ostra a dizer “cá por mim não me faz diferença, resolvo os meus problemas sozinha”. Respondeu-lhe o Lagostim com um “cala-te lá hermafrodita de trazer por casa. Ainda te roubo a pérola outra vez” – o que provocou uma risada geral no pavilhão.

Acalmados os ânimos, voltou a Marilyn:

- Temos portanto que organizar manifestações públicas para mostrar todo o nosso desagrado e defender os nossos direitos e combater deste modo a lei e a crescente influência nefasta que a Associação Animal tem, pois quer formar uma sociedade de capados, eles lá saberão com que futuras intenções.

“Queremos os nossos sempre direitos, queremos os nossos sempre direitos”, “abaixo a Associação Animal” - gritava a assembleia em uníssono.  

- Está aberta a discussão. Fala agora a vaca nº5.

(Sobe a vaca nº 5 à tribuna)

- Eu só quero aqui trazer o meu testemunho vacal, que é em geral o de todas as vacas e está ali a Belisária que não me deixa mentir e cuja história todos temos ainda bem presente. Já não vejo o Boi a que tenho direito há anos. O mesmo acontece com todas as minhas amigas e não só. Isto é uma ofensa que se faz a todas as vacas, e no nosso caso nem legislação há sobre o assunto. Levamos uma injecção com uma agulha ou chamem-lhe lá outra coisa qualquer e … “vai-te coçar”. Ora nós queremos ser coçadas por quem sempre nos coçou e não por um qualquer instrumento mesmo que esterilizado. Queremos os nossos bois!

“As vacas tem direito aos seus bois!” – gritava a Assembleia em peso, mesmo aqueles que não sabiam por que estavam a gritar.

Em seguida tomou a palavra o cão Petrarca. Tossicou para aclarar a laringe, bebeu um pouco de água e perorou:

- Amigos! Aproveitemos a ocasião para, além de reclamar sobre tão iníqua lei (Petrarca é Petrarca, é bom orador e é ouvido em silêncio, toda a bicharada o respeita…), também discutirmos e tomarmos posição sobre aqueles animais que ao longo dos anos têm sido castrados e impedidos de viver em plenitude toda a sua vida de animais. Estou a faladrar, como já perceberam, dos nossos amigos cães e gatos e cadelas e gatas evidentemente, que se vêem castrados só para não causar problemas aos seus donos que fazem deles animais objectos. (Aqui a intervenção foi interrompida com gritos de “abaixo a castração dos nossos amigos cães e gatos” e “abaixo os exploradores desses animais”).

Petrarca deixou a Assembleia exprimir os seus sentimentos, depois fez um sinal, todos se calaram e ele retomou a ladradela:

- Temos à nossa frente um exemplo vivo, que foi vítima deste lamentável procedimento durante algum tempo. Felizmente está recuperada e hoje é um verdadeiro farol de civismo e de cidadania. Refiro-me, como já entenderam, à minha/nossa amiga, companheira e camarada cadela Marilyn que muito nos honra presidindo a esta sessão. (“Viva a Marilyn”, “viva a Marilyn” gritava a assembleia).

- Amigos! Falei em cães e gatos mas poderia falar de porcos, cavalos, bois, galos (quem não sabe dos apetecidos capões? – ver foto) e doutros animais vítimas de castração, para satisfazer apetites dos chamados humanos. Queremos uma sociedade de castrati**?. (“não queremos castrati”, “não queremos castrati” – gritava a bicharia).

Depois Petrarca passou a palavra ao cão Napoleão, pois ele também teria coisas a dizer, mas o cãozinho meteu o rabo entre as pernas e disse que não faladrava, porque lhe doía a garganta. Um formidável huuuuuuuuuuuuu!!! reboou pela sala.

Depois de mais duas intervenções sem nada de especial a relatar, Marilyn deu a Assembleia como finda.

Termina aqui a parte da acta.

                                                           o0o

 

Resta-me dizer que depois de encerrada a Assembleia, foi a debandada geral e em poucos segundos o espaço ficou vazio.

Eu fiquei a retocar alguns apontamentos para poder elaborar a acta e quando saí, alguns minutos depois, encontrei a maltosa toda cá fora, de volta das barracas das febras e dos coiratos, a comer e a beber uns tintos e umas cervejas.

Pus-me a milhas, não fosse o Alberto João requisitar a minha presença.

 

Para os eventuais interessados por coisas que já pertencem à história, deixo aqui os apartamentos/posts onde podem encontrar as principais personagens que na acta aparecem assinalados com *. Assim, por ordem por que aparecem temos: 5-8-14-5-22 e 23-44-87-51-55-76-51.

 

 

Carapau cultural (não confundir com carapau de cultura):

** A propósito de “castrati” (plural de castrato=castrado)

(…)

Como resultado da expulsão das mulheres dos palcos e coros, decretada pela Igreja, surgiram no século XVIII, os "castrati", que eram cantores castrados antes da puberdade para preservarem o registro de soprano ou contralto da voz. Apoiada em pulmões masculinos, essa voz era ágil e penetrante.

(…)

Pode ler mais aqui e em outros sites.

publicado por Carapaucarapau às 14:37
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Segunda-feira, 9 de Novembro de 2009

Sucateiros & Cª

                                                                     

                              (- Aqui está a chave Dr....)

 

 

- O senhor doutor dá licença?

- Entre! Quem é o senhor?

- Sou o Zé da Silva, o Sr. Dr. não me conhece. Negoceio com sucatas.

- E o que quer falar comigo?

- O Sr. Dr. tem ali no quintal uma sucatagem, venho apresentar uma proposta de compra.

- Sucata no quintal?

- É pouco, mas sempre ficava com o terreno limpinho. Depois um pouco daqui e outro pouco dali sempre faço uma cargazita.

- Mas que tenho eu no quintal que lhe interesse?

- É coisa pouca, Dr. Uma porta velha de chapa, da casa do cão, uma roda de triciclo, um bocado duma colher, um garfo com menos 2 dentes, uma roda dum patim e pouco mais, mas sempre dava 10 euros por aquilo.

- 10 Euros? E você vem aqui incomodar-me por 10 euros?

- Não posso dar mais.

- Não pode? Ora vamos lá a ver… O senhor Silva gostava de fazer um negócio em grande?

- Então não havia de querer Sr. Doutor?

- Espere aí.

(O Doutor faz uma chamada aparentemente para um amigo. Depois do telefonema, volta a falar com o Sr. Silva.)

- Ora bem. O amigo Silva vai ali ao lado falar com o Sr. Doutor que está aqui neste papelinho, e vai ver que não se arrepende. Mas ó amigo Silva abra lá os cordões à bolsa que isto é coisa de milhões…

- Oh Sr. Doutor. muito obrigadinho. Deixe lá que não me vou esquecer do senhor…

- Ai não vai não. Para já deixe aí 10.000 dele em notas usadas. Para 1ª prestação não está mal: Que achas ó Silva?

- A falar é que a gente se entende. Só espero é que o negócio renda para poder pagar assim esse graveto todo…

- Oh pá deixa-te disso. Negócios com sucatas, com lixo, e com lixeiras é que são negócios catitas. Cheiram mal, ninguém se mete nisto.

- Tenho a impressão que vai ser o princípio duma bela amizade, a nossa…

- Pronto. Mete o cacau aqui nesta gaveta e vai lá falar com o homem que já deve estar em pulgas. Ele vende electricidade em pó e tem lá uma grande quantidade já com bolor e quer ver-se livre daquilo.

- Ok. Boa tarde pá!

- Boa tarde pá! Depois diz como correram as coisas.

 

(45 minutos depois, toca o telefone)

- “Porreiro pá”! O gajo é fixe, vou ganhar um dinheirão…

- “Vais ganhar?”

- Desculpa pá, vamos ganhar. Todos. É tudo uma malta fixe.

- Não duvides. É tudo do melhor.

- O gajo indicou-me mais um tipo que vende gás ao domicílio. Parece que tem umas botijas de gás já velho, gás que já não arde, para vender prá sucata. E há outro quer ver-se livre dumas linhas de caminho de ferro…

- Tás a ver pá! É sempre a facturar!

- Agora estou com pressa, ainda vou ter de comprar dois Mercedes, coitados deles, parecem que andam a pé…amanhã falamos.

- Mercedes eu não quero… por enquanto, tenho aqui este do…

- Já sei. Tu gostas mais dele em notas…

- …usadas.

- Estou já a bolar uma negociata do caraças.

-Ai sim? Quanto vou receber por ela?

- Porra! Não deixas passar uma.

- Querias? Conta lá a negociata.

- É assim: faço o tal negócio das botijas. Quero dizer, o negócio de eu retirar as botijas por uns milhões. Estou a pensar em receber o cacau e deixar lá as botijas. Assim eu não tenho trabalho e eles não perdem tudo. Ficam com elas à mesma… E qualquer dia voltamos a fazer o mesmo negócio com as mesmas botijas. Tás a topar?

- Chiça! Mas que raio de negócio é esse? Compras e ainda te pagam? És pior que eu…

- Aprendo depressa pá. Estou habituado a lidar só com sucatas, lixo e merda. Estou como peixe na água. Estou com a minha gente.

- Podes crer. Agora boa tarde, que tenho ali outro cliente à espera.

 

 

Dúvida metafísica do Carapau:

 Estas conversas acabarão algum dia? E eu e outros como eu e “Vós oh! Tágides minhas”, que figura fazemos no meio disto? Já repararam que o ambiente é propício para que no “Ambiente”, os empreendedores contactem os que passam a vida a empreenderem a maneira de perceber o “empreendorismo” dos que uma vez empreenderam, lá atrás das fragas, que um dia iam ser também eles grandes empreendedores?

 

E nós a sermos todos os dias empreendidos (mas com a 6ª letra do alfabeto) … e mal pagos!

 

 

 

 

publicado por Carapaucarapau às 12:06
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Terça-feira, 3 de Novembro de 2009

O homem, essa perfeição...

                                     

                                      

                                         Diógenes (de Sinope), filósofo grego (404-323 a.C.)

 

 

 

 

 Ao Carapau hoje deu-lhe para o sério. Associou

3 casos que lhe vieram à mão e vai “prantá-los” aqui sem muita conversa.

 

1-     “Mutilação Genital Feminina (MGF) vitima 140 milhões” – li num jornal.

Como toda a gente sabe esta mutilação consiste na remoção de uma parte ou da totalidade dos órgãos sexuais femininos, e é prática corrente em muitos países do mundo. A finalidade é que a mulher não tenha prazer durante o acto sexual e portanto, quando casada, não sinta a tentação a praticar o adultério. Isto quer dizer que na sua origem esteve o homem, certamente inseguro, mandão e a não gostar nada de andar com um par de cornos. Há homens que só se casam com “mutiladas”.

As coisas evoluíram (o homem fê-las evoluir certamente), passaram a “tradições culturais”, “religiosas” e por aí vamos. Na Europa, na Europa civilizada, culta e defensora dos direitos humanos, onde a MGF é proibida, deve haver meio milhão de mulheres mutiladas. Em Portugal há bastantes e há circuitos para realizar essa “operação” por cá, clandestinamente, ou noutros casos, aproveitando as férias das miúdas  elas são levadas à “terra dos pais” para serem submetidas “lá”. A (des)graça disto é que são as mulheres mais velhas (também elas mutiladas) as principais cultoras e executoras do acto. Não vale a pena dizer mais. Há muitos sítios que se pode consultar este assunto. Quem quiser ler o testemunho duma vítima pode ir aqui. Lá para o fim encontra esse testemunho, e entretanto, pelo caminho, vai sabendo mais coisas.

 

2        - Ainda num jornal, a foto de 5 mulheres lado a lado. São as 5 novas ministras. Uma já era, as outras pelos vistos tiveram vontade de o ser. E destas quatro, uma até nem é ela, é um seu heterónimo…

          Nada a opor, talvez se fossem 16 em vez de 5 e com uma outra “à frente” nem seria pior. O que me intriga é por que razão agora, quando o governo é minoritário, se foram “pescar” 5 ministras, e anteriormente, quando era maioritário só havia 2. Ou me engano muito ou é para elas servirem de barreira aos ataques que se avizinham. Há muito homem que gosta de se esconder atrás duma mulher. Oxalá sejam ministras e não biombos.  

 

3        – “Operação Face Oculta”. - É o caso do sucateiro e sus muchachos (ou dos muchachos e su sucateiro). É por isso que no cimo deste post está quem está. De seu nome Diógenes (de Sinope), filósofo grego, fundador da filosofia cínica, parece que desprezava os poderosos e as convenções sociais. Andava pelas ruas de Atenas, de lanterna na mão, à procura dum “verdadeiro homem”. Ele sabia, já naqueles longínquos tempos, que isso era trabalho complicado. Procurasse ele sucateiros e não precisaria de lanterna.

   

Eu, que “adoro” Sucatagens & Cª voltarei a este assunto brevemente.

 

Observação final:

Depois de escrito este post pus-me a pensar se seria possível ligar os três assuntos. Não foi essa a intenção, mas com um pouco de imaginação, sabe-se lá…

 

          

 

publicado por Carapaucarapau às 17:19
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