Segunda-feira, 17 de Agosto de 2009

Gente (II)

 

 Apresento hoje o 2º post da série Gente (que eu conheci): um resumo da história da vida de

 

 Elvira

 

Há alguns anos encontrava-me a tomar uns refrescos, na esplanada dum pequeno café de aldeia, na companhia dum amigo que é médico, mas que só vejo praticamente de ano a ano, quando ela se aproximou, parou e cumprimentou. A mim com um sorridente “olá, está bom?”, ao médico com um cumprimento mais expansivo, que meteu abraço e beijo.

Depois disse que não nos queria incomodar mais e continuou o seu passeio. Ela era a Elvira.

Eu fiquei admirado porque não sabia daquela familiaridade entre ela e o doutor. Ele não era da aldeia e eu nunca tinha conhecido qualquer laço familiar que os unisse. De modo que, para satisfazer a curiosidade lancei-lhe um “então também conheces a Elvira?”

- Há uns bons quinze anos, já que pareces tão interessado – respondeu-me a sorrir.

- A Elvira é uma pessoa extraordinária que, aqui na aldeia todos respeitam, mas não sabia que a sua fama já tinha chegado mais longe – disse eu também a sorrir.

- Sobre o passado da Elvira eu não saberei tanto como tu que a conheces desde pequeno. Mas talvez saiba coisas que tu não sabes – respondeu-me ele mais a sério do que tinha respondido da primeira vez.

- A história da vida dela é simples, mas heróica – disse eu – como aliás a de muita gente anónima. Aquela mulher que ali vês, agora uma respeitável velhinha, viveu uma vida complicada e sempre lutou e venceu as adversidades. Escuta só alguns passos dessa existência.

Começou por ficar viúva pouco depois do casamento, com uma filha de colo, mas isso não a impediu de pegar a vida pelos cornos. Trabalhando e lutando criou e educou a filha, fazendo com que ela estudasse e pudesse vir a ter uma vida mais desafogada que a sua.

Quando tinha uns quinze anos, a filha começou a ter uns problemas renais, que só foram definitivamente resolvidos com a transplantação de um rim. A mãe – a Elvira – foi a dadora.

Às vezes, quando faziam referência a isso, abraçavam-se as duas e diziam a rir que assim os dois rins voltavam a estar perto um do outro. Nunca mais surgiram complicações para nenhuma delas e faziam a sua vida normal. A filha completou os estudos, empregou-se e passados poucos anos casou-se.

Teve um filho -o André - que era o ai Jesus das duas. Enquanto criança passou a maior parte do tempo aos cuidados da avó. A certa altura o pequeno passou a ter os mesmos problemas que a mãe também tivera: mau funcionamento renal. Foi operado, fizeram um transplante e durante uns tempos tudo parecia normalizado, quando se deu um processo de rejeição. Fizeram muitos tratamentos, muitos exames, mas o problema subsistia. Uns dois anos depois fizeram novo transplante. O resultado foi, passado algum tempo, o mesmo que da operação anterior. Só ao terceiro transplante o problema se resolveu. Hoje é já um homem que vive normalmente. Escusado será dizer que a Elvira foi o “motor” de todas estas aventuras. Ela é que o levava às consultas, é que falava com os médicos, é que tratava dele na recuperação…

- Não digas mais, que disso eu sei mais e melhor que tu – disse o meu amigo. E continuou: Talvez não saibas mas eu fui um dos médicos intervenientes nesse caso do André. As coisas foram de facto complicadas e vem dessa altura o meu conhecimento com a Elvira. Agora vou-te contar uma história que quase ninguém conhece e que te peço para não a divulgares, sobretudo aqui na aldeia. Quando se deu a 2ª rejeição, nós os médicos ficámos bastante apreensivos, pois tinha havido todos os cuidados na procura dum dador compatível. Tive ocasião de dizer isso à avó, dizendo-lhe que tínhamos de esperar até que aparecesse um rim que garantisse a não rejeição. Tive essa conversa no meu gabinete, só eu e ela. Ouviu as minhas explicações e no fim disse: “ Senhor doutor, como já sabe a minha filha teve o mesmo problema quando era miúda, mas não rejeitou o rim porque a dadora fui eu. Agora estes problemas com o meu neto não existiriam se eu também fosse a dadora. Sei que só tenho um rim, mas talvez fazendo hemodiálise eu possa viver mais um tempo. E se morrer também já não faço grande falta. Salvei a vida da filha e agora salvava a do neto. Acho que pouco mais posso vir a fazer por eles. Que lhe parece?”

Eu olhei-a bem nos olhos, levantei-me da cadeira, fui junto dela, ajudei-a a levantar-se e acompanhei-a até à porta. Dei-lhe um beijo de despedida e disse-lhe para ir descansada para casa que nós íamos resolver o problema do neto. Que havia eu de dizer mais? De facto passados alguns dias tivemos a sorte de encontrar uns rins que resolveram definitivamente o problema do André.

O meu amigo olhou para mim e acrescentou:

- Como vês ainda não sabias a história toda da Elvira. Por isso tive direito ao abraço e beijo que há pouco tanto espanto te causaram.

Olhei o meu amigo bem nos olhos, mas ele desviou o olhar. Pareceu-me ver um princípio de lágrima no canto do olho, mas ele bem a disfarçou…

 

Naquela tarde fiquei a saber um pouco mais da Elvira.

 

publicado por Carapaucarapau às 15:36
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Domingo, 9 de Agosto de 2009

Diálogos Prováveis (2)

 

 

Juan Carlos (JC), rei de Espanha esteve em visita particular à ilha da Madeira.

Não tenho conhecimento de nenhuma notícia interessante sobre o caso, nem sei se teve algum contacto com as autoridades da região, mormente com presidente lá da ilha, o Alberto João (AJ). É natural que pelo menos tenha havido um encontro para cumprimentos mais ou menos formais e que, eventualmente tenha havido um qualquer almoço mais ou menos informal.

A ter havido tal almoço, bem se poderia ter-se produzido o seguinte diálogo:

 

AJ: - Vai más una copa Maguestá?

JC: - Um pouco mais, obrigado.

AJ: - Entonces lá por Espãnia como vai la crisis?

JC: - Como por todo o mundo: vamos andando à espera que passe.

AJ: - Pois…pués aqui no hay crisis ni nunca la houve…hay havido…

JC: - Não me diga Presidente. Isso é um milagre…

AJ: - Não…no digo tanto, pero que aquí es como uno paraíso, uno eden, entiende Vuestra Maguestá?

JC: - Sim. Só não entendo como o senhor Presidente consegue isso?

AJ: - Ora Maguestá! Eu… ió soi uno grande admnistrador e después los otros, los cubanos és que pagam la factura.

JC: - Ah! Então o Fidel manda dinheiro para cá? Agora nem é o Fidel, já é o Raul.

AJ: - Qual Fidel, qual Raul?

JC: - Os cubanos. Não são esses?

AJ: - (Fazendo um sinal ao Ambrósio para pôr mais vinho no copo). Ah! Ah! Ah! Os meus cubanos, pardon, los mios cubanos son los trougas del contnente.

JC: - Trougas? Não entendo.

AJ: - Si, si, trougas…trouxas.

JC: - Ah ! Trouxas.

AJ: - Esso mismo. Los del contnente solo sirven mismo para pagar las cuentas. Sono todos una cambada…

JC: - Mas olhe que lá em Espanha todos consideramos o Belmiro um grande empresário.

AJ: - (Fazendo outra vez sinal ao Ambrósio). Esso Belmiro non lo conosco. No sei quien és ele.

JC: - Belmiro de Azevedo o dono dos supermercados Continente.

AJ: - Ah! Ah! Ó pá, non é desse contnente qui istou falando, hic, hablando. Ah! Ah! És uno porreirito Juanito. Los del contnente sono los portugas lá de la ibéria, los teus viciños. Sono todos una cambadita de parvos, de parvios, de… (como se dice?) de palermitas, entiendes?

JC. – Agora entendi. Tenho lá bons amigos, em Portugal. Vivi alguns anos em Cascais…

AJ: - Pués nem mi aliembrava. También és un de los deles. És amigo de lo señor Silva, luego vi.

JC. – É verdade sim. Era o jardineiro da moradia de Cascais. Aprendi a cortar a relva com ele.

AJ: - (Voltando a fazer outro gesto para o Ambrósio). No es a esse Silva qui io me quiero referir. Es ao senhor Silva de la presidência…

JC: - Ah! Ao vosso Presidente!

AJ: - Ao presidente de los cubano quieres tu dicir… No me lo digas que también conosques ao señor Pinto de Sousa?

JC: - Ao vosso 1º Ministro? Sim conheço-o, mas só dos contactos oficiais, quando vai reunir-se com Zapatero…

AJ: - Olha! Oitro que tal. También daba um bom cubano.

JC: - Isso, eu não sei. Só sei que é o nosso 1º ministro…

AJ: - Pués, pués sono todos harina de lo mismo saco.

JC: - Não entendo este vosso dialecto aqui da ilha. É bem difícil de entender.

AJ: - Dialecto? Que dialecto?

JC: - Esse que o senhor Presidente tem estado a falar comigo.

AJ: - (Chamando uma vez mais o Ambrósio). Pero, conho, tiengo estado a hablar español, castellano contigo, hic, pá.

JC: - Ah! Desculpe, não tinha percebido. Mas então "por qué no te callas?

………

A verdade é que se calou, porque  inesperadamente AJ caiu da cadeira.

 

 

 

 

 

publicado por Carapaucarapau às 23:54
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