Terça-feira, 27 de Janeiro de 2009

Carapau International

 

(Ou o caso das luvas …)

 

Extracto de uma conversa entre Mister Brown (MB) e Sua Majestade a Rainha mais conhecida por The Queen (TQ) e obtida a partir dum CD que por obra do acaso aqui veio ter.

...

The Queen : - Tens um ar preocupado Brown!

Mister Brown: - Só chatices Majestade!.

TQ: – Outro banco?

MB: – Antes fosse…

TQ: - Então? Conta já tudo.

MB: - É o problema das luvas..

TQ: – Luvas?

MB: - Gloves.

TQ: - Ah! Luvas! Que aconteceu com as luvas?

MB: - Ficamos sem elas!

TQ: - Roubadas?

MB: - Extorquidas!

TQ: - Extorq…Por quem? Onde?

MB: - Lá em baixo na ponta da Europa. Por quem, é o problema.

TQ: - Problem? No problem! Telefono já para o meu primo Aphonso Anrique que ele trata já disso.

MB: - Alteza! Ele já lá não está!

TQ: - Não? Para onde foi ele?

MB. – Alteza! O problem não ser esse agora. Agora o problem ser o caso das gloves.

TQ: - Que linguagem é essa Brown?

MB: - Desculpe alteza, já ando todo baralhado.

TQ: - Baralhated? Oh! Grave!

MB: - Se é!

TQ: - Para ver se eu entendo alguma coisa, conta tintim por tintim esse caso das luvas.

MB: - Tintim por tintim eu não saber o que quer dizer, Majestade desculpe…

TQ: - Vomita essa shit toda duma vez que já estou em pulgas, carago!

MB; - Ok, entendido. O caso é o seguinte: um primo nosso queria fazer um Porto Livre em Al cuxete e então…

TQ: - Al cochete?

MB: - Não Majestade. Al cu xe te.

TQ: - Há árabes metidos no assunto? Vamos lá arrasamos já aquilo tudo. Se fosse com o Tony…

MB: - Majestade! Tenha calma. Até porque isto tudo começou no tempo do Tony, ou melhor dos Tonys porque lá eles também tinham um.

TQ: - Bem dizia a tia Vitória que um mal nunca vem só…

MB: - É isso mesmo. Continuando…Então o nosso primo queria fazer um Porto Livre lá nesse Al cudejudas e eles não deixavam. Vai dai o Tony deve ter falado com o Tony (o nosso com o deles, eles eram quase primos, tratavam-se por tu e tudo…) e deve ter dito: “que se passa com essa shit do Porto Livre que vocês estão a levantar tão bigs problems?” O de lá deve ter ficado à rasca e disse: “big problems, primo? Que se passa? Não sei de nada”. Parece que o Tony de lá não sabia mesmo de nada, ele até nem sabia fazer contas uma vez até disse “:..bem…é só fazer as contas…”

TQ: - Mau! Já tás a divagar. Vamos ao essencial, senão nunca mais me vejo livre de ti, para ir dar uma volta a cavalo.

MB: - Sorry! Mas esses guys lá de baixo dão-me cabo da paciência, mas eu gosto muito das histórias deles. Até me fazem esquecer os nossos bancos e tudo… Continuando…umas horas depois o Tony de lá telefonou ao nosso Tony e disse “é pá já sei tudo, no problems é só o teu gajo vir aqui falar com o Zé e ele trata logo disso, parece que é preciso que o vosso man traga umas luvas, convém que sejam bué de luvas que aqui tá um frio da cornualha…

TQ: - Cornualha!

MB: - Yes Madam…

TQ: - Tem graça! O meu primo Anrique costumava dizer outra coisa parecida mas não era cornualha. Era, era…já não me lembro. Quando o encontrar hei-de perguntar-lhe.

MB: - Então, vendo que não podia ser doutra maneira, o Vosso súbdito mandou um carregamento de luvas, ao que parece tantas ou tão poucas que agora os nossos bancos estão em falência uns atrás dos outros e se não lhes lançamos as mãos acabam por ficar geladinhos de todo.

TQ: - Vamos lá e tiramos-lhes as luvas. Qual é o teu problem, Brown?

MB: - O problem ser esse mesmo. Sorry Madam, ninguém sabe das luvas. Já anda a SY e o MI-5 atrás do rasto das luvas mas nada. Parece que eles as puseram fora dos shorts e agora é uma gaita.

TQ: - Gaita? Gaita fora dos shorts? What is that? Já chegamos à Madeira?

MB: - Não é Madeira desta vez, Majestade. É Al cuxete!

TQ: - E por que não mandamos lá a Home Fleet arrasar o tal Porto Livre?

MB: - Não podemos. Agora somos sócios deles e não podemos andar à porrada. Temos de usar outros meios…

TQ: - Sócios? Mas esse tal de Al cochete não é árabe? Então agora somos sócios da Al  Quaeda?

MB: - Antes fossemos, Majestade, antes fossemos. Não estaríamos metidos neste big problema das luvas. Além do mais um dos Vossos netos foi lá à inauguração do tal Porto Livre de Al cuxete e comeu lá uns bolinhos de bacalhau e uns rissóis de camarão e bebeu umas taças de champanhe, até parece que gostou muito, já falei com ele, mas disse que luvas só viu meia dúzia, e brancas, nos tipos que lhe serviram os croquetes.

TQ: - E o tal Zé que o Tony de lá apresentou ao Tony de cá não sabe das luvas? Não é capaz de se lembrar de nada?

MB: - Esse é outro problema. Eles lá são todos Zés, quando a gente chama um, viram-se logo todos e depois tem uma grande falta de memória, Vossa Majestade nem calcula…

TQ: - Não calculo? Ainda tu não tinhas nascido já eu por lá tinha andado num carro de bombeiros e tudo: Eram uns porreiros nesse tempo, trabalhavam como uns danados e sem luvas nem nada. Cheira-me que aqui há gato…

MB: - Lá dizem que desta vez cheira mais a Rato.

TQ: - Rato?

MB: - Sim Majestade: mouse.

TQ: - Ah! Rato.

MB: - Eu creio que há Rato e também alguns ratos…

TQ: - Se não lhes podemos dar porrada, como vamos fazer?

MB: - Já estou a lixá-los doutra maneira. Desvalorizei a libra e agora os nossos não podem ir para o All garbe.

TQ: - Boa malha! Até que enfim fazes uma coisa de jeito. Lixa-me essa gajada. Ficaram-nos com as luvas, agora chuchem nos dedos. Dedos enluvados ah!ah!ah!

MB: - Vossa Majestade está esclarecida?

TQ: - Não totalmente, mas já vi que dessa moita não vai sair mais nenhum coelho.

MB: - Então se me dá licença retiro-me. Tenho uns bancos mais para nacionalizar. Esta história das luvas tramou-nos o sistema financeiro. Com Sua licença.

 

A conversa era mais completa, mas não podia transcrever tudo, senão ainda aqui estávamos o resto do dia a ler este caso das luvas, que afinal é uma história tão velha como o tal Anrique, primo da Rainha. Diz quem sabe, e há muita gente que sabe e não diz, que uns ficam com as luvas e outros apanham o frio. Eu cá por mim dou-me por muito feliz porque não tenho mãos nem dedos, mas barbatanas, não preciso de luvas. Um barrete na cabeça já me chega, assim não me distingo dos outros que andam todos embarretados, parece que gostam disso, bom proveito.

 

 

 

publicado por Carapaucarapau às 12:40
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Quinta-feira, 22 de Janeiro de 2009

Vacas...

 

Noticiam os jornais que, a Praça de Espanha em Lisboa, está transformada num campo de pastagem de vacas, que para lá foram levadas (o que não admira porque sozinhas era difícil terem lá chegado). Parece que é uma promoção da Associação de Turismo dos Açores. As vaquinhas por lá andam, ao que dizem despreocupadamente, a pastar. Não haverá muito que comer, digo eu, mas não afirmo categoricamente, porque o relvado do largo certamente não andará muito bem tratado – para não fugir à regra geral – e as vacas certamente lhe darão um bom tratamento, mantendo a relva aparada e estrumando-a. As mordeduras dos cães tratam-se com o pelo dos mesmo animais…

Aqui está um caso em que todos ganham (dirão alguns que talvez as únicas que não ganhem nada sejam as vaquinhas, mas essas nunca ganham, estejam lá onde estiverem; mas pelo menos mudaram de ares, se é que isso é bom para elas). De resto ganha a Câmara Municipal que fica com o relvado tratado, ganha a Associação do Turismo que promoveu o evento – ou pelo menos espera vir a ganhar – ganham as pessoas que por lá passam e que ficam com mais um motivo de conversa, ganha o tratador das vacas que está deslocado e tem ajudas de custo (isto digo eu que sou um optimista…), ganham os donos das vacas que certamente as alugaram e até ganho eu um motivo para fazer este post, hoje dedicado à carne e eventualmente ao leite, para variar da dieta de peixe.

Enfim…o paraíso na terra!

É o eras!... A Associação Animal resolveu accionar uma acção de protesto contra a campanha. Razões: aquele era o último local em que uma pessoa com juízo poria vacas a pastar e também porque as coitadas estão expostas à chuva.

Como se vê já estão metidos muitos animais no assunto. Para já estão as vacas, os da Associação Animal e o Carapau. Certamente ainda vão entrar mais na dança.

Eu sei que sou suspeito neste caso: a dita Associação nunca se preocupou com os peixinhos que passam a vida dentro de água, todos molhadinhos, quer chova quer faça sol. Já as vacas em geral, e as açorianas em particular, levam com ela de vez em quando – quando o S. Pedro a manda – e não consta que se preocupem muito com isso, desde que haja boa ervinha para irem ruminando, lá nos seus vagares.

Ainda pensei ir falar com os animais – as vacas, entenda-se – mas não sei língua de vaca (dizem os Animais que estufada com cenouras e puré de batata é um bom petisco), quando muito arranho a língua de bacalhau, mas parece-me que as vacas não arranham nada, limitam-se a uns prolongados muuuuus quando tem sede ou esperam que alguém lhes venham fazer festas nos ubérrimos úberes.

O meu principal interesse em falar com elas não era propriamente saber se estavam bem, se a chuva as chateava ou não, se os “animais” já tinham ido fazer-lhes perguntas e outras ninharias do género. Eu queria era ouvi-las falar, queria tirar a limpo se eram mesmo açorianas, queria ouvir o sotaque. No fundo – eu passo a maior parte da vida aqui no fundo – sou um desconfiado. Eu creio que as vaquinhas não vieram dos Açores e são aqui dos arredores, no máximo ali da raia do Ribatejo, talvez do Intendente (Manique do Intendente, entenda-se…) e que foram alugadas e enganadas, porque não sabem que estão a representar outra “república” que não a sua (delas). Mas disso não se preocupam os outros animais. A vida está cheia destas contradições: as pessoas importam-se com o acessório mas o essencial passa-lhes ao lado. Isto com todos os animais, excluindo alguns peixes que, nas profundidades, tem tempo para pensamentos igualmente profundos.

Lembrei-me agora que talvez o Peixe-galo ou o Peixe-porco, que às vezes convivem com vacas, saibam alguma coisa da língua delas e nesse caso ainda lá vou dar um salto, para tirar isto tudo a limpo. Tenho esta mania de querer tirar tudo a limpo, mas talvez o tiro me saia pela culatra, que aquilo deve estar uma miséria, uma mistura de lama, relva e merda de vaca, com licença de Vossas Senhorias.

 

Nota: pode ver outra variante do mesmo tema aqui.

 

publicado por Carapaucarapau às 19:59
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Segunda-feira, 19 de Janeiro de 2009

Entrevista (5)

 

A propósito de tudo e de nada, o jornal “Politic Now” (em linguagem de carapau “A nau da politica”) entrevistou o Carapau – o grande especialista de tudo e, sobretudo de nada.

Ao fim de uma demorada troca de correspondência para acertar os pormenores da entrevista, uma bela manhã “bateu à porta da caverna” (maneira de dizer de “Entrou por aqui adentro”) um bando de jornalistas de chapéu na cabeça com um papel a dizer “Press”, o que me chateou logo, para começar, porque não sou animal de pressas.

O bando  afinal era constituído por dois belos exemplares de loiras, mas faziam tanto barulho que pareciam memo um bando. Uma trazia um biquini e um microfone, a outra trazia só uma máquina fotográfica digital, loja dos trezentos. Ficava-lhe muito bem pendurada ao pescoço. E claro, vinham as duas com chapéus na cabeça (olha que admiração!), para poderem segurar os tais papelinhos (ou estavam à espera que eu me esquecesse desse pormenor?).

 

PN – Mister Carapau?

CC – Não há mistério nenhum, sou mesmo o Carapau.

PN – Oh!

CC – Ah!

PN – Como sabe a nossa entrevista vai incidir sobre alguns aspectos da política contemporânea…

CC – Não sabia.

PN – Mas nas conversações preliminares…

CC – Não me lembro de já ter havido preliminares…

PN – Como sabe esta entrevista foi objecto…

CC – Foi? Como foi se ainda nem começou?

PN – … de conversações preliminares.

CC – Tenho outra concepção do que são preliminares.

PN – Como?
CC – Não lhe vou explicar isso agora aqui. Aliás eu não explico, mas posso exemplificar.

PN – Como assim?

CC – Como tudo cru. Ali com a fotógrafa eu até podia…

PN – Já lá vamos, às fotografias. Primeiro a entrevista.

CC – Tudo ao mesmo tempo seria melhor. Tipo “à molhada”.

PN – Oh, no, no… Vamos então começar.

CC – Estou preparado.

PN – Como sabe faltam poucas horas para que o Ruivo O’Escama tome posse…

CC – É verdade, quem havia de dizer que o Ruivo ia fazer uma coisa dessas…

PN – Que comentário lhe merece este acontecimento?

CC – Para já, não há acontecimento nenhum.

PN – Não há?

CC – Não. Ainda não aconteceu. Diremos que posso falar sobre o pré-acontecimento.

PN – Oh! Muito rigoroso…

CC – Sem rigor e organização não chegamos lá.

PN – Lá aonde?

CC – Ao nosso objectivo.

PN – Temos objectivos?

CC – Eu tenho, desde o princípio.

PN – Ah! Oh! Eu também…Nós também.

CC – Nós?

PN – Eu e a fotógrafa.

CC – Ah!

PN – Oh!

CC – Então?

PN – Então, pergunto eu se me der licença, que comentário lhe merece o tal pré acontecimento?

CC – Muito importante sempre o pré aquecimento.

PN – Acontecimento Mister Carapau. Acontecimento e não aquecimento.

CC – Eu estou já falar no outro assunto da entrevista: o aquecimento global.

PN – Ah!

CC – Oh!

PN – A tomada de posse vai ser quente?

CC – Tomada de posse, que se preze, é sempre quente.

PN – Oh!

CC – Está a ver?

PN – Oh!

CC – A verdade é que o Ruivo desta vez saiu da casca.

PN – Se saiu!

CC – E que tal o acha assim saído?

PN – Sorry! Aqui quem faz perguntas sou eu.

CC – E quem tira fotografias é a sua colega.

PN – E quem responde é o Carapau.

CC – Ainda bem que correspondo.

PN – Responde.

CC – Respondo.

PN – E que implicações nos vai trazer esta tomada de posse, no futuro?

CC – Se tudo for bem feito nos preliminares, não irá acontecer nada de especial.

PN – Portanto acha que o mundo…

CC – O mundo está aí para ver.

PN – E o que vai ver?

CC – Eu?

PN – Não, não. O mundo.

CC – Ah! Esse vai ver o costume. E tudo por um canudo…

PN – A célebre teoria do canudo?

CC – Essa mesma.

PN – E agora outro assunto. Que me diz do orçamento?

CC – Nem me fale nisso. Com esta quantidade de navalheiras e loiras não há orçamento que resista.

PN – E agora?

CC – Já fiz outro.

PN – E depois?

CC – Quando acabar isto faço outro.

PN – E o Carapau é capaz de fazer assim tantos?

CC – Com tempo, e desde que não seja pressionado, faço.

PN – É um orçamentista nato?

CC – Isso da NATO é outra conversa. Creio que não está nos preliminares.

PN – Oh!

CC – Ah!

PN – Posso concluir que, quanto ao Ruivo, o Carapau está convencido que vai tudo correr pelo melhor?

CC – Cá estaremos para ver.

PN – Estaremos, quem?

CC – Eu, you, a fotógrafa…não estou a ver mais ninguém.

PN – Mas não vamos ficar aqui eternamente.

CC – Pois não. Nem convém.

PN – Portanto…resta-me agradecer…

CC – Já? E aquilo?

PN – Ah! Aquilo! Vamos lá à sessão fotográfica. Ficamos muito agradecidas pela maneira como nos recebeu e pelos esclarecimentos prestados nesta entrevista e …

CC – Vamos lá então, que a fotógrafa está danadinha para dar ao gatilho.

 

Nota:

        Quando saíram, já não nadavam muito a direito. Iam aos bordos, a fotógrafa já tinha perdido a máquina e a entrevistadora o microfone. Isto de misturar loirinhas com trabalho dá sempre nisto.

Tenho de ir fazer novo orçamento.

 

publicado por Carapaucarapau às 13:34
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Segunda-feira, 12 de Janeiro de 2009

Arroz

 

 

Não sabendo o que havia de escrever, resolvi que desenvolveria o tema deste post a partir da primeira palavra que eu lesse. Abri um livro ao acaso e olhando de repente vi “Arroz”.

Nem sei mesmo, assim à partida, o que vai sair daqui.

Em geral penso num assunto, aqui neste recanto da caverna, ou às vezes quando ando por aí a navegar, a olhar para uns e para “ostras”, e depois de escolhido o tema, dou-lhe forma aqui mesmo. Uns saem mais ou menos jeitosos, e até me dizem “olha o jeitoso do quarto desta vez saiu-se bem…”, outros saem um bocado tortos e nunca mais se endireitam. Mas isso não acontece só com os posts, acontece com tantas outras coisas, o que me levaria a tecer considerações mais ou menos judiciosas sobre a condição humana, sobretudo a masculina … de maneira que o melhor é mesmo voltar ao arroz.

Não sei nada de arroz. Por aqui não há arrozais, que são para quem não sabe, os campos onde se cultiva esta gramínea. Só sei que uma vez fui dar uma volta com um lagostim que me levou pelo Sado adentro e quando dei por mim estava num arrozal. O lagostim ficou por lá a baratinar o arroz e outras companhias e eu vi-me aflito para encontrar o caminho para a caverna. Não me meto noutra. O arroz (planta) gosta de ter os pezinhos dentro de água e eu não. Ou estou todo dentro ou então caio fora, que não sou de meias águas.

Ora arroz para isto! (Noutros tempos as mamãs ensinavam às filhas para dizerem “Arroz!” em vez de “Porra!” (quando por exemplo batiam com o cotovelo na parede), porque era uma palavra feia, e como arroz tinha – e ainda hoje tem – um “a”, um “o” e dois “rr” também aliviava. Diziam elas, as mamãs. Hoje já não é assim, já não alivia nada, tem de se usar remédios mais pesados e ainda bem, senão a produção mundial de arroz não chegava para as encomendas …e isto não tem nada a ver com o aumento do nível de vida dos chineses & companhia).

Não gosto de arroz integral. Gosto dele depois de descascado, branqueado, torturado e sobretudo cozinhado, tipo arroz de cabrito no forno, arroz de berbigão, arroz de grelos que também pode ser de feijão ou de cenoura, para acompanhar por exemplo jaquinzinhos fritos (ai o que me saiu sem eu querer, juro que estou a brincar então eu ia fazer uma coisa dessas aos pequenos, brincadeiras de mau gosto, Arroz! para isto). Esta malandrice, todavia não me saiu por acaso, foi propositada para dizer que gosto dum arroz de bacalhau malandrinho (malandro o arroz não o bacalhau) e outras malandrices em que ele entra.

Só não gosto do arroz fingido, especialidade que muitas cozinheiras fazem e que os cozinheiros não podem fazer, porque dá logo nas vistas.

Claro que podia ficar aqui o resto da vida a falar do arroz, desde quando ele era de pataco até aos nossos dias, mas para tanto me falta paciência, saber e espaço. Se eu fosse o “outro” diria que me falta engenho e arte.

No fundo, tudo isto foi só para provar que se pode fazer um post a partir de nada ou pouca coisa (um simples grão de arroz basta), desde que se saiba temperar o cozinhado, o que não foi o caso. Agora podia embarcar nesta do tempero e daqui a pouco estava nas índias e no resto do oriente donde, como se sabe, veio o arroz (além das lojas dos chineses).

E também não escrevi isto para dar a arroz a ninguém, tanto assim que vou acabar por lhes adoçar a boca, deixando aqui este pratinho de arroz doce.

-Arroz!... - E cheguei ao fim quase sem dar por isso…

 

Nota: - Agora não vão para aí dizer que me limitei a um arrazoado de palavras. Isto foi, sim, uma arrozada de palavras.

publicado por Carapaucarapau às 14:45
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Terça-feira, 6 de Janeiro de 2009

Dia de Reis

 

Traz! Triz! Truz! Ouvi eu baterem à porta da caverna, nitidamente em três línguas diferentes.

Fui ver. Eram três barbudos de “aspecto venerando”, desde que isto queira dizer mau aspecto.

- Que se passa santinhos? – Perguntei eu atirando o queixo para a frente.

- De santinhos temos pouco…em geral tratam-nos por reis - respondeu o mais escuro dos três.

- Reis fora do baralho, certamente. Com esse aspecto e sem séquitos não os estou a ver realezas – repliquei a piscar os olhos e a pensar no que me quereriam pedir estas três almas (de)penadas. E o outro perdeu-se pelo caminho?

- Não há outro. Sempre fomos nós três. Donde lhe veio essa ideia de sermos quatro?

- Dos baralhos. Só jogo com baralhos que tenham quatro reis.

- O senhor está a fazer uma grande confusão. Não somos reis desses – disse o de barbicha mais afilada – somos uns reis muito especiais.

- “Especiais”, quer dizer com ceptro, coroa e tudo o resto? Se assim é, a coisa deve andar mal lá pelos vossos reinos. Afinal a crise sempre é global… Mas afinal que pretendem Vossas Altezas?
- Auxilio. Simplesmente auxilio.

- Mas que tipo de auxilio Altezas? – Perguntei a entrar no jogo dos simpáticos velhotes. Uma sopinha?

- Não nos atreveríamos a pedir tanto mas se for bem quentinha ia-nos cair mesmo bem, pois está frio aqui para estes lados – disse o terceiro e que ainda não tinha falado, a olhar para os outros como que a pedir uma confirmação.

- É de feijão com hortaliça, Altezas…não sei se gostam...

- A sopa dada não lhe olhes a qualidade – respondeu o escurinho que parecia ser o filósofo de serviço.

- Então abanquem aí nessa mesa de pedra enquanto lhes trago os pratos e a sopa.

- Obrigado meu senhor – responderam os três mais afinadinhos que um coro bem ensaiado.

- Mas não é só de sopa que precisamos – acrescentou o terceiro, que assim falava pela segunda vez.

- Ai não? Querem também um prato de peixe e outro de carne? O melhor é pedirem tudo duma só vez. Lista de vinhos é que não tenho – respondi já meio azedo e arrependido de lhes ter oferecido a sopa.

- O senhor ainda não nos entendeu. A culpa é nossa, certamente. Julgamos que nos teria já reconhecido mas pelos vistos não. Deve ser da maneira como estamos vestidos.

- E deveria reconhecer? – Perguntei a olhá-los com mais atenção.

- Não é obrigatório reconhecer-nos mas temos a certeza que sabe quem somos - disse o terceiro, que era o de barbas brancas, e parecia agora ser o mais falador.

Enquanto fui buscar a sopa puxei pela memória para ver se me lembrava daquelas caras. De repente ouvi um clik! (nesta altura devem estar todos a pensar que me lembrei de quem eram eles, mas não foi o caso, como verão já a seguir). Olhei para ver donde vinha o barulho, logo de seguida tropecei e a terrina da sopa só por milagre não me caiu das mãos. Muita sorte tiveram os três da vida airada, em não ficarem sem a sopinha.

- Aqui está, bom proveito. Mas já agora e antes de começarem a comer tirem-me da minha ignorância. Quem são Vossas Altezas?

- Ora bem, vamos lá esclarecer tudo.

(“Convém – disse eu para os meus botões – isto é capaz de dar uma história da treta boa para pôr no blog e não convém que seja muito extensa”).

- Melchior, Baltazar e Gaspar dizem-lhe alguma coisa?

- Os Reis Magos! Não me digam…

- Já dissemos.

- Mas…e os camelos? E as prendas? E o vestuário digno dos reis? Estão a gozar comigo…

- Isso é uma longa história. Com certeza que o senhor sabe que lá pelas nossas bandas anda tudo à batatada. É míssil para cá míssil para lá, porrada de criar bicho. Fomos atingidos, ficamos neste estado, em verdadeira petição de miséria, os camelos morreram e as prendas destes meus dois amigos também desapareceram, só a minha que era ouro escapou, porque a trazia escondida por causa dos ladrões. Foi o que nos valeu para conseguirmos sair daquele inferno e chegar aqui.

- Verdade mesmo? Acho a história um bocado estranha… Ao menos têm documentos de identificação para poderem provar quem são? – Perguntei já sem saber como me ia ver livre deles.

- Nada meu senhor. Perdemos tudo. Depois da sopa o senhor vai-nos fazer o favor de indicar o caminho para nos dirigirmos às autoridades mais próximas, para resolvemos a situação e voltarmos para as nossas casas.

- Sendo assim, está bem. Agora comam a sopinha antes que arrefeça. Sopa de feijão com hortaliça e fria, não tem piada nenhuma – e voltei para dentro da caverna enquanto eles sorviam a sopa.

 

Agora estou aqui como o maluco no meio da ponte. Não sei se lhes levo mais qualquer coisa para comerem, se chamo a polícia para os entregar.

E logo hoje que é dia de Reis…

 

publicado por Carapaucarapau às 19:50
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