Quinta-feira, 31 de Julho de 2008

Petrarca (2ª parte)

 

(2ª parte - 4 anos depois, no jardim do 37)

 

- Tu daí vês a miúda?

- Vejo. Está descansado que está a brincar com o Ovídeo.

- Mas não confies totalmente nele porque, lá por ser teu filho, ainda é muito novo para tomar conta da Petra.

- Tu gostas muito dela, não gostas? Também não admira. Se não fosses tu ela não estaria aqui. Até lhe puseram o nome que tem em homenagem a ti.

- Ora…

- Já te disse mil vezes. Eu ouvi falarem nisso…

- Já pensaste na volta que isto tudo deu por causa da miúda?

- É verdade! O polícia juntou os trapinhos com a médica, adoptaram a miúda, nós estamos juntos, já tivemos duas ninhadas de filhos…

- Foi a sorte grande que saiu à miúda… e a ti.

- A mim?

- Sim, sim a ti. Desde que o meu dono veio para cá, deixaste de ir ao veterinário e recuperaste a alegria de viver.

- Grande alegria! Sempre de barriga cheia e a ter de te aturar e aos pequenos…

- E não gostaste não? E também não os aturaste muito tempo. Levaram-nos…só nos deixaram o Ovídeo.

- Talvez seja melhor assim. Muitos cães juntos só dão zaragatas.

- E depois sabes que estão bem e vem-nos visitar de vez em quando…

- Lá isso… Só a Lolobrigida é que eu não vejo há muito tempo.

- Mas sabes que está para fora e qualquer dia volta.

- Espera um bocadinho. Estão a chamar-me. É o Faísca…

- Não respondas a esse cão vadio. Olha que…

- Respondo, respondo que sou bem-educada. Vou ali à sebe para ver o que ele quer.

- Tu não vais…És mais teimosa que uma cadela…Não tem emenda esta Marilyn…

- Que estás a resmungar? Não tem emenda quem?

- O que é que ele queria?

- Tens alguma coisa com isso? Mas que mania essa de te meteres na minha vida…E logo tu…

- Logo eu, o quê?

- Nada. Cala-te boca…

- Olha a miúda a tentar abrir o portão. Tenho de ir lá.

- Não vale a pena. Ela é ainda pequena não chega ao fecho. Importas-te mais com ela que o pai e a mãe…

- Que a mãe com certeza, senão não a tinha abandonado…

- Não era dessa que eu estava a falar.

- Chega-te aqui ao pé de mim, querida Marilyn.

- Hum… que é que tu queres? Não venhas com a conversa do costume…

- Até parece que não gostas das minhas conversas… Mas agora o caso é outro.

- Então o que vem a ser.

- Tens de prometer que não contas a ninguém. Nem a nenhum dos teus filhos.

- Também são teus!

- Isso agora!

- Mau. Que queres dizer com isso? Não te admito essas insinuações. Sabes que só fui cadela dum cão. Por acaso um senhor cão, mas que está a ficar cada vez mais chato e difícil de aguentar. Qualquer dia mando fazer testes de DNA para não vires com essas desconfianças...

- Que é isso do DNA?

- Sei lá…Ouvia dizerem isso nas telenovelas, quando eu tinha tempo e me deixavam vê-las. Agora tenho que te aturar…

- Ain , ain, ain… Gosto de te ver zangada. Ficas ainda mais bonita.

- Está bem, disfarça. Mas vais-me contar essa história ou não?

- Primeiro promete que guardas segredo.

- Absoluto! Palavra de cadela.

- Não tencionava contar isto a ninguém, mas para veres quanto confio em ti, aqui vai.

- Desata essa língua. Já estou em pulgas.

- Vai-te coçar lá para longe que eu sou alérgico…

- Deixa-te disso. Conta lá!

- Aí vai. Sabes que eu conheci a mãe da Petra?

- Não me digas! Não acredito! E ficaste calado?

- Eu explico. Três ou quatro dias depois de ter descoberto a miúda no caixote do lixo…

- Ainda me lembro desse dia! Estavas todo vaidoso e eu fiz-te companhia.

- …eu fui dar uma volta pelo campo com o meu dono, como fazíamos muitas vezes.

- Foste sempre um sortudo. E eu aqui presa…

- Não me interrompas senão não conto mais.

- Tá bem, conta.

- Como disse, íamos pelo caminho fora e de repente senti um cheiro que me lembrou de repente o da Petra que eu tinha farejado uns dias antes. Fui atrás dele e descobri uma mulher que parecia que se estava a esconder. Nem pensei. Ladrei daquele jeito que tu sabes que faço quando descubro alguma coisa importante.

- Até estou a ficar arrepiada…

- A mulher deu um grito com medo, o meu dono chamou-me também aos gritos e disse-lhe para ela ter calma que eu não lhe fazia mal. Nunca me tinha falado daquela maneira. Caí em mim e calei-me. Fiquei só a rosnar baixinho, ofendido. Era a mãe da miúda!

- Tens a certeza?

- Duvidas?

- Se tu o dizes. Com esse nariz nunca te enganas.

- E então naquele tempo… Não me escapava mesmo nada.

- E como era ela?

- Bonita. Aloirada. A Petra é a cara dela.

- E tu porque te calaste?

- Sabes que pensei muitas vezes nisso. Foi o meu instinto de cão. Percebi que o melhor para a miúda… olha nem sei bem explicar.

- Calculo…

- Bem…vou dizer-te tudo o que se passou naquela altura. A maneira como o meu dono gritou para mim - nunca o tinha feito assim – o modo como olhou e falou para ela…houve ali qualquer coisa de estranho. Eu tive o pressentimento que ele percebeu logo o que eu tinha descoberto e não quis que eu avançasse…Então calei-me.

- Seria?

- Até hoje estou convencido disso. E tudo o que tinha acontecido nesses três ou quatro dias e o que acabou por acontecer mais tarde, parece que me dão razão. Nesses três ou quatro dias ele já tinha falado com a tua dona várias vezes, com muitos sorrisos de parte a parte (até aí nem bom dia nem boa tarde, lembras-te?). Parece-me que nessa altura ele já pensava no que veio a acontecer…

- Quem havia de dizer? Um solteirão daqueles…

- E a tua dona? Não era também uma solteirona chata e emproada?

- Continuas a não a gramares, Petrarca!

- Nunca mais me hei-de esquecer daquela vez…e das pedras…Mas enfim, não morro de amores por ela, mas como agora me trata bem e trata bem da miúda e o meu dono gosta dela…já enterrei o machado de guerra há muito, tu sabes.

- Ena! A falares que nem o Petrarca! Muito bem.

- Como é que sabes como falava o Petrarca?

- Essa pergunta é boa. Se tu não fosses tão ciumento eu diria que deve ter sido uma brincadeira do Carapau…

- Mau!

- Esquece. Agora foi uma brincadeira minha… Mas diz-me uma coisa: nunca mais viste a tal mulher?

- Não. Nunca mais. Durante semanas farejei por todo o lado e nunca mais a vi. Foi embora. Deve ter sabido que a miúda estava bem e desapareceu. Foi melhor assim para todos.

- Muito bem. Desta vez concordo contigo ... ain ain ain…

- Cadela desavergonhada que te vou morder uma orelha…

- Não mordes não, que eu fujo. Vou jogar a bola com os pequenos…

- Isso…tens cá um jeitinho… Se não fosses melhor noutras coisas já te tinha rifado…ain, ain, ain…

 

 

 

 

publicado por Carapaucarapau às 10:58
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Quinta-feira, 24 de Julho de 2008

Petrarca (1ª parte)

 

 

Explicação previa

 

A história que se apresenta sai um pouco dos moldes aqui seguidos, e  tem ela própria, a sua história. Foi inicialmente contada em língua de cão e escrita mais tarde por um lobo-marinho que a ouviu dum cão do Alasca. Uma “bacalhoa” norueguesa, comprida e loira, resolveu traduzi-la para língua de bacalhau, de que o Carapau é apreciador. Sabendo disso numa recente visita a esta parte do Atlântico onde vivo, visitou-me e ofereceu-me o livro com a história. O meu trabalho foi trabalhar o texto de modo a que qualquer peixe e não só, a pudesse ler, já que nem todos apreciam a línguas de bacalhau, argumentando-se que é uma língua mole. Como se língua mole em pedra dura…

No fundo esta explicação é uma treta porque tudo foi feito aqui na humilde caverna, mas fica sempre bem dizer umas coisas antes de entrar propriamente no que interessa.

E como quem conta um conto acrescenta um ponto, ela vai ser publicada por partes como nos filmes muito antigos que o Carapau nunca viu, mas sabe que existiram, e que tinham muitas partes e mais episódios ainda e que chegavam a passar em mais do que uma sessão.

Por isso preparem-se porque todos ficarão a saber em breve como começa mas nunca se sabe como pode acabar. Isto apesar do Carapau saber que mais vale um bom concentrado que um paleio vadio. E por falar em vadio, a história vai mesmo começar porque é de cães que se trata.

Era uma vez um cão chamado…

 

Petrarca

(1ª parte - no contentor do lixo)

 

Logo que viu o dono a dirigir-se para o portão que dava acesso à rua, Petrarca, em dois saltos, já estava com o focinho junto à abertura. Pela hora, o dono ia até ao café que ficava ao fundo da rua. Era o primeiro passeio do dia. Logo que sentiu o empedrado debaixo das patas, deu três ou quatro pinotes e dirigiu-se ao primeiro poste onde alçou a perna esquerda. Duas casas mais à frente morava a Marilyn, uma cadela com uma boa pinta, resultado de cruzamentos de raças várias. Também ele era um rafeiro com uma bela apresentação, pêlo castanho-escuro e luzidio, fruto de uma vida repousada que vivia com cuidados e também graças ao dono que o tratava acima de cão.

Farejou que a amiga estava no jardim, não a via por causa da sebe alta que protegia a moradia dos olhares curiosos dos passantes, e então faladrou para ela:

- Tás por aí?

- Sabes que sim, porque perguntas?

- Para ouvir o teu doce faladrar…

- Vais dar a tua volta?

- Claro!

- Sozinho ou com companhia?

- Triste e solo – respondeu a dar-se ares de quem faladrava também em castelhano.

- Tens sorte. Só eu não saio daqui…

- Impõe-te.

- É fácil de dizer…

- Então até logo, já me atrasei.

- Tem juízo, olha que… - mas  ele já não a ouviu.

Com uma pequena corrida voltou a ultrapassar o dono e dirigiu-se ao contentor do lixo que ficava mais à frente. Era a segunda paragem obrigatória. Preparava-se para o gesto habitual, quando qualquer cheiro que não era suposto vir daquele local lhe entrou pelas narinas e então ladrou para o contentor ao mesmo tempo que se apoiava nas patas traseiras e tentava chegar com o focinho ao cimo. Convém dizer que tinha uma bonita voz de barítono, por vezes com alguns graves de baixo, e com umas modulações que usava conforme as circunstâncias. Marilyn por exemplo dizia que até se arrepiava quando o ouvia ladrar de certa maneira. Também agora, enquanto tentava subir ao contentor, a entoação era especial e diferente do normal.

Isso bastou para o dono, que se aproximava, lhe prestar atenção e falar com ele.

- Que se passa Petrarca? Algum gato aí dentro? – E preparava-se para passar à frente, mas o cão quase lhe puxou pelas abas do casaco, tal parecia ser a sua aflição.

Deu três passos atrás e levantou a tampa do contentor. Estava quase vazio, só com um embrulho lá no fundo. Qualquer coisa embrulhada no que lhe pareceu um bocado dum cobertor cinzento com uma risca vermelha. Não viu mais nada, voltou a fechar a tampa do contentor e preparava-se para continuar o passeio, mas o cão não o deixou. Achou aquela reacção estranha, ainda lhe perguntou “afinal o que se passa?”, o cão rosnou qualquer coisa que ele não entendeu, mas resolveu olhar em volta para ver se arranjava um pau ou uma cana para conseguir chegar ao embrulho. Lá conseguiu arranjar um bocado do cabo duma vassoura que por ali estava abandonado, voltou a abrir a tampa e tocou no embrulho com cuidado. Nunca se sabe o que pode estar embrulhado num resto dum cobertor no fundo dum contentor do lixo, e ele, Dr. Nero Moreira, inspector da Policia Judiciária, sabia disso melhor que ninguém.

Ao primeiro contacto pareceu-lhe qualquer coisa mole e então com cuidado tentou desenrolar o tal pedaço do cobertor. Palpitou-lhe que poderia ser um animal doméstico morto, talvez um cão, talvez um gato.

Também podiam ser trapos velhos. Mas ao puxar a ponta do farrapo eis que surge um pezito de criança. Parou a investigação, fez um telefonema e falou para o Pereira da pastelaria que ficava logo ali à frente no fim da rua. Dois minutos depois já ele estava junto ao contentor. Então os dois, com cuidado, deitaram o contentor e tiveram acesso ao embrulho. Era de facto um bebé recém-nascido e que estava vivo, ainda que aparentemente em mau estado físico.

- O melhor é chamar a doutora Fátima que mora ali no 37 e que é pediatra… - alvitrou o Pereira.

- Então chame-a lá enquanto eu ligo para o 112 e para a judiciária.

Alguns minutos depois chegava novamente o Pereira acompanhado pela médica e pela Marilyn.

Depois dumas explicações rápidas, levaram a criança embrulhada numa toalha, que entretanto alguém trouxera, para a casa da doutora para fazer um primeiro exame. A cumprir ordens do dono, Petrarca montou guarda ao contentor e aos farrapos. A acompanhá-lo ficou Marilyn de quem a dona na atrapalhação se esqueceu.

- Foste tu que o descobriste?

- Claro! Quem havia de ser? Tu estavas em casa e o meu dono não tem faro. Se eu não berrasse alto com ele nem metia o nariz.

-E agora?

- Agora é lá com eles.

- Viste se era menino ou menina?

- Ver não vi, mas cheira-me a menina.

- Consegues distinguir?

- E tu não consegues?

- Não sei, nunca experimentei.

- E agora? Ficas aqui comigo ou vais embora?

- Enquanto ela não me chamar fico aqui. Ou não queres?

- Quero, mas  não podemos divertir-nos. Estou de serviço.

- Faço-te companhia.

- Estava um lindo dia para irmos dar uma volta pelo campo…

- Como da outra vez?

- Eu queria melhor. Não te lembras o que aconteceu?

- Se lembro! Foste corrido à pedrada e eu fui à trela para casa e fiquei lá presa.

- É verdade. Quando estava mesmo para acontecer o melhor, apareceu a tua dona furiosa a atirar-me pedras. Ia-me acertando a fulana…

- Ain , ain, ain…

- Isso, ri-te agora…

- Estou a lembrar-me dos saltos que davas a fugir das pedras. Mas olha que não achei piada nenhuma na altura. E depois foi a partir daí que passou a levar-me ao veterinário e deixei de ter apetites…

- Que apetites?

- De brincar…

- Ah! Eles fizeram-te isso?

- Fizeram.

- E agora?

- Agora… parece que se acabou o nosso turno. Vem ali o teu dono com uns tipos…

- São colegas dele,  da polícia.

- Conhece-los?

- Um deles conheço, já esteve lá em casa e meteu-se comigo. Parece ser bom tipo.

- E que será feito da criança?

- Deve estar lá em casa da tua dona. Ela é médica geriatra disse o Pereira da pastelaria…

- Ain , ain, ain…não é geriatra, é pediatra.

- E o que é isso?

- Trata de crianças. É a especialidade dela.

- Então vais ficar com a miúda lá em casa? Eu é que a encontrei e tu é que vais ficar com ela? Trata-a bem , senão…

- Olha, chegou agora a ambulância. Se calhar vão levá-la para o hospital.

- Lá ficamos sem ela… Vamos nós aproveitar e fazer uma corridinha ali pela praça. Daqui a pouco aparece aí a tua dona a chamar por ti…

- …e a atirar-te pedras.

- Ainda a mordo.

- Não mordes nada. Ela tem aquele feitio mas é boa pessoa.

- Dizes tu que não foste corrida à pedrada como eu.

- Sabes o que a minha dona disse de ti?

- Ela fala de mim? A propósito de quê?

- De ti e do teu dono. Há tempos estava a falar com uma amiga e disse que o teu dono deve ser meio esquisito. Ele tem nome de cão e tu é que tens nome de gente.

- Ai sim? E não disse mais nada?

- Disse. Explicou que o Petrarca foi um poeta importante e que o Nero foi um  imperador romano, mas que era meio bruto e que é costume dar o nome dele aos cães…

- O que tu sabes Marilyn…

- Ouço e fixo. E como era sobre ti, prestei mais atenção.

- O meu dono também já falou da tua dona a uns amigos e não foi para dizer grandes coisas. Disse que ela devia ser uma chata, sempre muito senhora do seu nariz e que não era lá uma boa vizinha…

- Ain, ain, ain…ela diz o mesmo dele…

- E é caso para dizer que agora têm a criança nos braços…

- E se ficassem com ela?

- Não podem. Agora vão levá-la para o hospital. Depois se ela viver…

- Vai viver pois. É saudável.

- Como sabes?

- Sei. Não esqueças que fui eu que dei com ela. Pode estar fraquita mas vai viver.

- Se não fosses tu…

- Sim. Concordo que foi a sorte dela. Outro não se tinha apercebido ou não ligava importância.

- Sim senhor Petrarca. Deve ser por seres poeta e humanista…

- O que é isso?

- Era o Petrarca. Com o nome herdaste-lhe as qualidades.

- Olha. Já lá vem a tua dona. Pira-te já senão amarra-te o resto do dia.

- Não amarra não. Repara que ela já me viu aqui e ainda nem me chamou. Vai falar com o teu dono e com os outros polícias.

- Até estou admirado.

-Vamo-nos chegando para tentarmos saber novidades.

- Vamos.

 

 

 

publicado por Carapaucarapau às 19:51
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Quarta-feira, 16 de Julho de 2008

Consultório (3)

 

Pergunta: - (de Micas, 48, Mercado Abastecedor do Porto) – Não sei se já ouviste falar de mim. Se vieres aqui e perguntares pela Micas Besugo toda a gente me conhece, já dos tempos em que vendia no mercado do Bolhão. Apareci muita vez na televisão nas campanhas eleitorais. Uma vez agarrei-me a um político, abracei-o e beijei-o tanto que ainda hoje deve andar a cheirar a peixe. Estava mesmo a pedi-las e eu aproveitei e lambuzei-o todo. Que cá com a Micas ninguém leva pela metade. Mas eu não te estou a consultar para contar as minhas histórias. Vi que tens boas amigas no Mercado Abastecedor de Lisboa e portanto estás dentro do assunto. Gostava de te conhecer pessoalmente para te passar bem a mão pelas escamas, porque uma das minhas colegas de Lisboa já te convidou para passares por lá, mas não sei se já lá foste ou não. Vem também aqui, que te arranjo umas navalheiras de primeira categoria, pois sei que és apreciador. Ainda que, se provasses da minha caldeirada, não sei se eras capaz de comer alguma navalheira. Mas isso vê-se depois. Agora quero pôr-te a seguinte questão: ando aí meio embeiçada por um tipo que vem muitas vezes aqui ao Mercado. Ele é um pedaço, mas acho que se atira mais ao marisco que ao peixe do alto. Que posso fazer para ele mudar de gosto? Muito agradecida te fico se me deres um conselho daqueles que resolvem os problemas. Se não fores tu não sei quem mais me pode ajudar. Já fui a duas bruxas que me levaram mais de 2 kg de cherne cada uma e afinal cheguei à conclusão que comeram o peixe e não resolveram nada. Contigo ao menos não gasto o meu peixe. Mas também te digo que, se me resolveres o problema, nunca mais te vais esquecer da Micas.  

 

Resposta: - Minha querida amiga Micas, de facto não nos conhecemos pessoalmente, mas nunca é tarde para isso acontecer. Mas se és quem eu penso (essas tuas aparições na TV ficaram célebres) não vai demorar muito tempo que não vá aí bater-te à banca. Seja para umas navalheiras, seja para uma caldeirada, conta comigo. Eu depois pessoalmente conto-te o que me aconteceu com as tuas colegas de Lisboa de quem fiquei amigo do peito (ou dos peitos, se quiseres, já que era mais do que uma). Como diz o outro, o peixe é todo igual, o tempero é que varia de cozinheira para cozinheira. Há quem use funcho para um pargo no forno e quem só use salsa. A verdade é que, se o peixe for de primeira, nem o funcho nem a salsa fazem falta. Esta conversa pode parecer mais uma receita culinária, mas para nós que sabemos da poda, não é. É apenas uma maneira de te responder à tua questão. Não podes criticar o homem por ele apreciar o marisco. Todos sabemos, e tu também, que uma boa mariscada não é para botar de lado. Portanto deixa-o empanturrar de marisco. E um dia em que o apanhes meio enjoado, chama-o de lado (à tua beira, quero dizer) e diz-lhe com bons modos como tu sabes, que ele tem bom gosto em apreciar tanto o marisco, mas que precisa de ter certo cuidado porque o ácido úrico e o colesterol adoram marisco, e em geral animais novos, que ele tem de começar a olhar para a saúde e patati e patatá, dizes-lhe das virtudes da caldeirada e como é a tua receita e mais isto e mais aquilo, e que por acaso hoje até serias capaz de fazer uma caldeirada daquelas e que se ele quisesse provar havia de ver…

O resto minha cara Micas já é por tua conta. Sei que és capaz de dar conta do recado. Vais ver que a minha receita resulta. Com funcho ou com salsa ou com o que costumas usar vai ser cá um prato…

Boa sorte e não te esqueças que quando eu passar por aí também quero comer (ou ao menos provar) da tua caldeirada. Manda notícias.  

 

 

Pergunta: (de Ana Sofia, 22, Espinho) – O meu caso é o seguinte: quando estou com o meu namorado ele diz-me sempre que nos beijamos que eu digo hummmm!

E chateia-me o juízo porque me manda virar o disco e não estar sempre com a mesma música. Então eu pergunto: é mau dizer hummmm? Que devo fazer para ele não me deixar?

 

Resposta : - Esse problema é frequente. Tu contentas-te com um e ele não se dá bem só com um. Isso requer do teu lado um esforço para conseguires dizer mais do que isso. Treina a dizer dois, dois, dois e verás que ele se cala durante uns dias mais. Depois passa para três, três, três e vai dar para mais uma semana. Se depois disto tudo, ele voltar a dizer-te para virares o disco e mudares de música, então só tens que tomares uma resolução: ou sais da dança ou viras mesmo de lado. Há pessoas que não gostam de CD’s e só gostam dos discos antigos, de vinil. Por outras palavras querem uma coisa que tenha pelo menos dois lados. E quem sou eu, amiga e cara Ana Sofia para dizer que estão errados? Portanto se te dás bem com ele e não o queres perder, tens mesmo que te virar e fazer com que o teu CD também dê música do outro lado. E até vais ficar espantada quando descobrires que afinal do outro lado o raio do CD também tem música. Boa sorte…e descontrai-te que ajuda muito.

 

 

 

publicado por Carapaucarapau às 11:57
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Domingo, 6 de Julho de 2008

Quadras (1)

Quadras de pé quebrado

 (Do Poeta das Dúzias, fazedor de versos

 de pé quebrado para o Carapau)

 

A tua vida Carapau amigo

Dava um romance de cordel.

Que gostava de escrever contigo

Se tivesse jeito, lápis e papel.

 

Carapau toma cuidado

Que andam com o olho em ti.

Se não queres ser arrastado,

Dó ré mi fá sol lá si. ***

 

Se não queres ser “alimado”

Nem sequer seco ao sol,

Carapau! Tem cuidado

Com a rede e com o anzol.

 

Com essa pele a azular,

Esguio, esbelto e finório,

Não te deixes apanhar

Como aconteceu ao Tenório.

 

Que como sabes era atum

Entre todos muito afamado,

Mas que um dia foi só mais um

A acabar bem enlatado.

 

Portanto Carapau amigo,

Tem em atenção este recado.

Se fizeres como te digo

Nunca acabarás escalado.

 

Pois assim, a fazer asneiras,

Podes correr algum perigo.

E quando arranjares navalheiras

Não te esqueças do teu amigo.

 

*** Nota: Liberdade poética que quer

                dizer: “dá-lhes música”.

 

publicado por Carapaucarapau às 11:01
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Quarta-feira, 2 de Julho de 2008

À conversa...

Estava eu, Carapau Carapau na minha cadeira de lona à entrada da gruta, equipado com os meus belos óculos, a apanhar uns raios de sol que ali conseguiam chegar, e a cavaquear com meia dúzia de Navalheiras amigas, quando me aparece pela frente um belo exemplar de Chaputa, escamas bem polidas, barbatanas bem tratadas e que à primeira vista eu não reconheci. Pensei até tratar-se de alguma Chaputa dos mares do sul que andasse perdida ou de férias. Afinal não mais era que uma antiga vizinha a quem em tempo eu fizera uns favores, ou ela a mim, já nem me lembro bem. Nada mais nada menos que a agora chamada Chaputa Fina. E tivemos uma longa conversa, que ficou registada e que agora aqui reproduzo.

Chaputa Fina: - Boa tarde Pastor. Então já não reconheces uma amiga?

Carapau Carapau: - Desculpe. Essa do Pastor é para mim?

CF: - Claro! Aí todo repimpado nessa cadeira com essa vara na mão e rodeado por esse rebanho de Navalheiras, pareces mesmo um pastor. Só te falta mesmo a flauta…

CC: - Com essa da flauta …não me digas que és a Chaputa, que morava aqui ao lado?

CF: - Não me digas que não me reconheceste logo, Carapau?

CC: - Estava tão embrenhado nos meus pensamentos que nem tal coisa me passou pela cabeça. Estás muito mudada!

CF: - Pois estou, estou. Até mudei de nome. Agora sou a Chaputa Fina.

CC: - Mas olha que até pareces mais gorda…

CF: - Isso não estou…nem pensar.

CC: - Consta por aí que agora tens uma rica vida. E pelo aspecto, de facto…

CF: - Manda essas Navalheiras irem dar uma volta que eu conto-te a história da minha vida de sucesso.

(Passados uns momentos)

CC: - Agora que estamos sozinhos conta lá então tudo. Queres beber alguma coisa?

CF: - Não obrigada. Só me quero sentar aí ao teu lado nessa cadeira.

CC: - Desde que não abanes muito as barbatanas…

CF: - Sabes a vida que eu levava… Depois o Zeca Cachucho com quem ainda vivo não era peixe para me ajudar muito…Enfim… Como sabes, quando saí daqui fui trabalhar para uma pastelaria. Trabalhava que nem uma louca a fazer palmiéres e brioches à mão. Tornei-me uma expert sobretudo nos brioches…

CC: - Calculo. Tu aqui já te ajeitavas a fazer coisas…

CF: - Pois. Mas foi só depois que eu conheci o Senhor que a minha vida se transformou.

CC: - E tudo graças ao brioche?

GF: - E ao palmiére também. A freguesia da pastelaria aumentou de tal maneira que eu já não aguentava mais. Foi então que o Senhor resolveu comprar umas máquinas para fazer ainda mais e melhor.

CC: - Brioches feitos à máquina?

CF: - Sim. Foi um sucesso que nunca mais parou.

CC: - E tu? Perdeste o emprego?

CF: - Não. Graças ao Senhor passei para controladora de produção e pouco depois para secretária…E passei a fazer viagens e graças ao Senhor a viver muito bem.

CC: - Dizem por aí que tens uma bela casa…

CF: - Casa com jardim, carro topo de gama, viagens, boas férias…uma vida preenchida…

CC: - Graças aos brioches feitos pela tal máquina?

CF: - Não. Tudo graças ao Senhor…e vá lá…modéstia à parte, também graças a mim que me tenho esforçado.

CC: - E o Zeca Cachucho ainda está contigo? Assim com essa pedalada…

CF: - Está e estará. Também graças ao Senhor também tem subido na vida e hoje é o porteiro da Pastelaria. Com farda e tudo…Gostava que o visses. Com o chapéu de porteiro a deixar ver os corninhos…que lindo que fica…

CC: - O Cachucho agora tem cornos?

CF. Tem. Ficam-lhe tão bem…E depois é ele que corta a relva do jardim e trata da casa enquanto eu trato da vida com o Senhor.

CC: - Estou a ver…

CF: - E agora vai ter de tratar também da piscina quando ela estiver pronta…

CC: - Também graças ao Senhor…

CF: - Também….quer dizer sim e não…

CC: - Sim e não?

CF: - Sim, mas é outro Senhor…

CC: - Há então mais que um Senhor?

CF: - Por enquanto são só dois…Até foi muito giro a maneira como conheci o segundo…Foi quando fui a Paris com o Senhor da Pastelaria comprar a máquina dos brioches…

CC: - Foi então em Paris? Muito me contas…

CF: - É verdade. Enquanto o Senhor da Pastelaria tratava das máquinas eu conheci o Senhor das Obras e eu contei-lhe a minha história dos brioches e palmières e conversa para cá conversa para lá acabou por me oferecer a tal piscina que está quase pronta…

CC: - Desculpa lá uma curiosidade. E tu sabes nadar?

CF: - Brincalhão…Então não te lembras que foste tu que me ensinaste a…

CC: - Não digas mais. Já nem me lembrava… Então quer dizer que vais de vento em popa e que o Cachucho também?

CF: - É verdade e tudo graça ao  Senhor…

CC: - Aos Senhores, queres tu dizer…

CF: - Não. Em relação ao Zeca Cachucho é mesmo só graças ao Senhor da Pastelaria. Até já lhe mandou fazer um chapéu maior.

CC: - Por causa dos cornos?

CF: - É verdade. Sabes uma coisa? Desde que estamos aqui a falar que vem um cheiro esquisito ali de dentro da tua caverna. Parece ser de Navalheira estragada ou coisa parecida. Não dás conta?

CC: - Olha minha amiga! A mim já me cheirou a Chaputa há muito tempo e ainda não disse nada…

……

(…e a conversa continuou… graças ao Senhor…)

 

Observação: - Qualquer semelhança entre esta conversa e outras muito parecidas que certamente já toda a gente ouviu…não é mera coincidência. Elas fazem parte do livro “Como venci na vida de papo pró ar” com ideias e conselhos da Chaputa Fina, mas escrito por mais um Senhor Escritor amigo dela e que, graças ao também amigo Senhor Editor, anda aí pelos escaparates…

 

 

 

 

publicado por Carapaucarapau às 12:49
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