(4 exemplares)
Lá mais para trás no blog, já em tempos me referi ao mesmo assunto. No entanto em tempo de crise (eu ainda não me queixei porque o pior ainda está para vir) é sempre bom ter à mão (ter ao pé quer dizer exatamente o mesmo) alguma coisa ou alguém a quem lançar a mão.
Eu coleciono, sem colecionar, uns papelinhos que me aparecem na caixa do correio ou me dão na rua de que vou já dar conta. Em geral são papeis pequenos, 10X7 cm2 mais ou menos, de umas entidades que resolvem qualquer problema que nos surja, exceto aqueles problemas que são os que nos possam incomodar. Explicando melhor: lâmpadas fundidas, perna de cadeira partida, torneira que pinga, porta que chia, cama que range, porta a ficar sem tinta, sola do sapato despregada e outros problemas do género, eles não resolvem.
Mas mau olhado, amor, negócios, inveja e sorte, amarração (desde que não seja dos navios), juntar ou afastar pessoas amadas, reconciliação, impotência sexual e frigidez, retorno imediato de quem se ama, ou pôr fim a tudo, etc , etc, etc (isto quer dizer tudo o que neste campo a vossa imaginação possa conceber) é tiro e queda.
E não tenho em carteira um mestre, um vidente ou um professor. Tenho vários à escolha da clientela. E como hoje não estou para muitas conversas e para corresponder à amabilidade de tais entidades que me fornecem os tais papelinhos, vou aqui deixar os nomes e títulos duns tantos que tenho aqui à mão. Todos com nºs de telefone (das 3 redes de telemóveis e fixos) e as respetivas moradas, que esta gente não brinca em serviço, mas que eu não vou deixar aqui, porque também quero ver se ganho alguma coisa neste negócio. A quem estiver interessado, serão facultados todos os elementos para poder ser feliz. Mais tarde será fornecido o nº de conta bancária onde depositar o valor do serviço prestado ***.
E vamos à lista, que se faz tarde:
1 – Professores:
- Bambo
- Sakho
- Mamadu
- Kora
- Keba
- Alage
- Dramé
- Fofana
2 – Mestres:
- Fati
- Sila
- Kandiourá
- Dabo
3 – Grandes Mestres
- El-Hadji
4 – Astrólogas Videntes
- 3 envergonhadas sem nome
5 – Monsenhor (Bispo)
- Cipriano (exorcista e parapsicólogo, recém chegado de
Roma ****)
Se isto não é serviço público, não sei o que será.
Agora queixem-se da crise!
Notas:
*** Espero que não levem isto, da conta bancária ,a sério. Pelo sim pelo não, resolvi deixar esta nota.
**** Esta informação é fornecida pelo próprio Monsenhor.
Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico - convertido pelo Lince.
1 - Últimos dias! Maçons que já foram ministros saldam-se ao preço da uva mijona. Por cada 2 leva 3 (esperamos que a ASAE não ache que fazemos dumping!). São maçons de boa qualidade (?), mas modelos demodés.
Também temos modelos que estão na moda, mas fora dos saldos, por enquanto.
2- Maçons prontos para Secretários de Estado ou, em caso de falta no mercado, para Ministros. Por cada um oferecemos um fim de semana num resort de luxo. Com acompanhamento.
3- Verdadeira pechincha! Saldam-se ao desbarato deputados das últimas filas, com larga experiência em não fazer nada! Oportunidade única! Por cada um oferecemos ainda dois pares de calças novas para substituir as que usam, já bastante coçada “lá atrás”.
4- Trespassam-se lojas, pelas melhores ofertas. Lojas onde se faziam as formações de “pedreiros”, agora devolutas. Ótimas para escritórios de advogados, encontros clandestinos ou escolas de culinária. Oferecemos os aventais. Aproveite! Também muito boas para “casais que venham a Lisboa” e que procurem novas emoções.
5 – Ex-SCUTS a bom preço. Sem movimento e ótimas para acampar, fazer jogging e skate. Vendem-se ao Km. Troços a descer, a subir e em plano, como nunca se viram. Praticamente novas. Ocasião única!
6 – Estádios de todas as cores. Ótimos para agricultura biológica, sem necessidade de adubos, tal a quantidade de “matéria orgânica” neles existente. Com lugares sentados para ver crescer as couves, os pepinos e os tomates. As batatas, os rabanetes e as cenouras são mais difíceis de ver…
Nabos e nabiças conseguem-se ver a olho nu. Preços de arrasar!
7 – Vendem-se ilhas: 2+9+Berlengas+Ilha de Faro, do Pessegueiro e outras de menor dimensão. Para todas as idades e gostos. Com encargos para o comprador. Preços de ocasião.
Tratamos de obter crédito. Ao alcance de qualquer bolsa…
8 – Herdade, vende-se a quem mais der. Com um pouco mais que 90.000 km2 e vistas para o mar a sul e oeste. Já velha e muito explorada, mas com alguma(s) história(s). Pesa sobre ela o ónus da fauna, única no mundo (há algumas parecidas noutros locais, mas longe desta herdade). Tem alguns campos de golf prontos a serem usados, mas com a relva a secar. Recuperação fácil, exigindo só algum (pouco) trabalho. Se procura dores de cabeça, não perca esta oportunidade.
9 – Temos muitos mais produtos. Não deixe de ver os nossos catálogos. Se estiver interessado, apresse-se pois esperamos fechar brevemente para obras.
Para mais informações contactem este blog. Atendimento personalizado. Máximo sigilo.
Aviso: as propostas chinesas têm de vir escritas em inglês (pode ser técnico).
Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico - convertido pelo Lince.
A verdade é para ser dita. O Presidente da Câmara andava com ar preocupado. Pouca gente acreditaria que pudesse haver preocupação num tal sujeito, mas a verdade é que ele o tinha já confessado ao vereador de confiança. Esse ar contrastava com o ar majestoso do período conhecido como “das rotundas”, mas tinha havido uma reviravolta na atividade do Presidente: nem havia já espaço para fazer mais rotundas, nem havia verba para manter as rotundas minimamente com bom aspeto, relvadas, ajardinadas, como prometera e como acontecera com as duas ou três primeiras a serem construídas. Pior: crescia agora nelas, em todas elas, uma erva alta, que as chuvas tornavam viçosa, mas também mais densa, que em certos casos já perturbava a visão aos poucos condutores que ainda usavam as rotundas. A Câmara não tinha jardineiros para tanta rotunda, nem verba para contratar mais pessoal ou adjudicar a manutenção desses “espaços verdes” a uma empresa (por acaso da mulher do senhor Presidente). E isto traduzia-se na crista caída do edil.
Havia no concelho, muito perto da cidade onde isto acontecia, um homem chamado Januário. O Januário era pastor, tinha um razoável rebanho de ovelhas e andava ele também preocupado. Havia nas redondezas pouco pasto para tamanho rebanho. E a preocupação do pastor crescia na razão direta do emagrecimento do rebanho. Até que um dia, ao ir à cidade pagar uma qualquer licença, viu as rotundas cheias de erva, a que as suas queridas ovelhas chamariam um figo. Pediu uma audiência e foi logo atendido pelo Presidente. Januário expôs o seu caso. Se tivesse autorização para trazer o rebanho para a cidade, punha-o a pastar nas rotundas e comprometia-se a mantê-las limpas, com a erva “controlada” e sem despesa para a Câmara.
Um largo sorriso aflorou a cara do Presidente, que logo ali traçou o plano com a ordem pela qual as rotundas deviam ser “pastadas” e o contrato ficou selado com um aperto de mão ao Januário. A “limpeza” começaria já no dia seguinte. À despedida o Senhor Presidente, a sorrir, disse ao Januário que, uma vez por outra, visitaria o pastor e as ovelhas no exercício das respetivas atividades em prol do bem do Município e ele Presidente traria
um borrego. Seria a taxa (mínima) a pagar pelo Januário em troca da liberdade para pastar nas rotundas (para o rebanho pastar, entenda-se, que o Januário esse ainda não comia erva).
E a vida na cidade alterou-se vivamente. As pessoas já saiam de casa nos carros para fazerem o circuito das rotundas, na esperança de encontrarem o rebanho numa delas, a miudagem obrigava os pais a fazerem essa volta turística para verem os borregos recém nascidos, que quase ainda não se sustinham nas patas, os turistas sorriam ao ver o espetáculo e fotografavam e filmavam as cenas, a cidade animava-se, o comércio crescia.
Assim o ar descontraído e triunfante voltou ao Presidente, que já pensava em novo mandato. E remoçou, apresentando um ar mais corado e roliço, sinal que a vida lhe corria outra vez de feição, como no glorioso tempo da implantação das rotundas.
Porém (há palavras e expressões tramadas que, quando pronunciadas ou escritas, não auguram nada de bom. “Porém”, “mas”, “talvez”, “por outro lado”, “temos de ver melhor”, “futuramente”, etc), porém, dizia eu, aconteceu que a preocupação do Presidente passou para o pastor. Januário que ao princípio via as ovelhas a engordar, o carneiro a desenvolver com brio a atividade para a qual o tinha “contratado”, os borregos a nascerem em abundância, fortes e saudáveis, passou a notar que, a partir de certa altura o número de cabeças do rebanho não aumentava, mas sim diminuía. E exatamente na proporção em que aumentava o peso do Senhor Presidente, agora um anafado Presidente.
E foi então que Januário se lembrou dos velhos ditados que o avô costumava citar:
- “Por cada rotunda, do Presidente aumenta a bunda”
- “Na rotunda engorda o anho, mas não aumenta o rebanho”
-“ Os dentes do Presidente não deixam que o rebanho aumente”
-“Presidente e pastor, só sendo da mesma cor”.
-“Para um rebanho, pior que lobo esfaimado só Presidente interessado”
-“Os pastores doutras eras com o Presidente não jogavam as peras”
E isto trazia preocupado o pastor Januário…
Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico - convertido pelo Lince.
Ia eu ainda no principio da rua e já via o fumo (quase) branco a anunciar que “habemos Papa” ali por perto. Neste caso melhor seria dizer havemos castanhas assadas ali um pouco mais à frente.
Quando cheguei perto do assador é que apreciei a figura do pequeno empresário explorador do negócio. “Era uma figura de aspeto venerando” diria se fosse eu o Camões, pois era um velho de cabelos brancos e longa barba também branca. Os olhos porém tinham um brilho especial como se não fossem dele.
- Uma dúzia delas, bem assadas, por favor.
O homem fixou-me com atenção, mediu-me de alto a baixo e perguntou-me:
- Não nos conhecemos?
- Acho que não. É a primeira vez que lhe compro castanhas.
- Não és o Carapau?
- Com efeito… - respondi meio desconfiado. Conhece-me?
- Há muitos anos, eras tu um Jaquinzinho e eu não tinha nem cabelo nem barba branca.
- Não o estou a reconhecer.
- Não puxes pela tola, sou o Ali Babá.
- O quê? Não me digas?
- Já disse, sou o Ali Babá, o autêntico, o que tu conheceste das histórias das 1001 noites.
- É pá deste nisto? Tinhas uma fortuna só em barras e moedas de ouro. Que te aconteceu?
- Fui roubado!
- Ah! Ah! Ah!
- Não te rias que não teve piada nenhuma. Fui assaltado pelos quarenta ladrões, mas multiplicados por muitos mais. Nem tu calculas.
- Tu, assaltado? – Exclamei com cara de espanto. E não te vingaste? Não meteste os gajos no tribunal?
- Para quê? Para continuar a ser ainda mais assaltado? Até as castanhas por assar me roubavam. Em que mundo andas tu Carapau?
- É pá tens razão, eu ando um bocado fora disto, não vivo por aqui, vivo numa caverna, mas sem porta.
- É a tua sorte senão até a palavra pass te mudavam um dia e não podias lá entrar.
- Estou pasmado! E agora estás aqui a vender castanhas? Roubaste-as?
- Nem penses! Estou aqui com tudo legal, tenho os comprovativos de tudo, senão levavam-me preso.
- E o negócio?
- Vai dando para a bucha.
- E as castanhas são boas?
- Do melhor. Mas para ti vou escolher umas especiais.
- Desde que não me enganes…
- Olha que me ofendes!
- E a clientela?
- Vai aparecendo. Passa aqui muita gente que vem ao banco.
- E quando sai vem cheia de guita…
- Ah! Ah! Ah! Agora sou eu que me rio. Os bancos já deram o que tinham a dar.
- Olha, a mim nunca me deram nada!
- Sabes uma coisa? O sítio aqui nem é mau para o negócio, mas eu nunca estou muito tranquilo.
- Então? Não disseste que tinhas tudo legal?
- Sim, disse e é verdade. Mas tenho medo de ser assaltado. Ainda um dia destes uns tipos assaltam o banco e na volta, como vêm de mãos a abanar, acabam por me roubar as castanhas, o carvão e as massas.
- De facto, pensando bem…
- Que eu para estar aqui mais tranquilo até fiz um acordo com o banco.
- Não me digas! O guarda de serviço também te faz a tua segurança?
- Qual guarda qual carapuça, o contrato é outro.
- Então?
- É assim um contrato de boa vizinhança. Nem eles vendem castanhas nem eu empresto dinheiro.
- Ah! Belo contrato!
- Também já não é bem assim. Eles agora já começaram a fazer-me concorrência: também já não emprestam dinheiro. Estou com medo que ainda comecem a vender castanhas…
- Boa tarde Ali Babá. Tem juízo e até um dia destes. Tens de me contar essa história de a palavra pass já não ser o “Abre-te Sésamo”.
E afastei-me, já a mastigar a 1ª castanha. Mas na dúzia que me vendeu, escolhidas especialmente para mim, encontrei duas podres. Assim vai a vida! Já nem no Ali Babá podemos confiar.
Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico - convertido pelo Lince.
É assim, à vela, que os vejo passar por aqui. Os anos e os acontecimentos. Resolvi desenhá-los…
Ontem à tarde um homem das cidades
Falava à porta da estalagem.
Falava comigo também.
Falava da justiça e da luta para haver justiça
E dos operários que sofrem,
E do trabalho constante, e dos que têm fome,
E dos ricos que só têm costas para isso.
(…)
Eu no que estava pensando
Quando o amigo de gente falava…
…
… era em como há muitos anos já não tenho paciência para ouvir os homens das cidades, que falam à porta das estalagens. Nem os que falam, nem os que os ouvem (ou não) enchendo o largo em frente.
O que há em mim é sobretudo cansaço –
Não disto ou daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada…
(…)
Para mim é só um grande, um profundo,
(…)
Um supremíssimo cansaço,
Íssimo, íssimo, íssimo
cansaço…
O pior (ou o melhor?) da festa é que o ano vai acabar e outro vai começar e vai repetir-se tudo pela enésima vez.
Daí que o cansaço deva ser mais pela repetição, do que propriamente pelo que dizem os homens da cidade.
Portanto, e apesar disto tudo, que o ano nos traga novas esperanças.
Bom ano para todos!
PS: Este post teve a colaboração forçada de Fernando Pessoa, que “entrou” com extratos de 2 poemas.
Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico - convertido pelo Lince.
Tomaram um almoço ligeiro e partiram logo de viagem. O destino ficava longe, lá por detrás das serras, já próximo da fronteira com Espanha e a parte final do percurso, segundo informações que lhes tinham dado, era difícil, feita por maus caminhos. Havia ainda o problema de um deles ter de voltar sozinho para casa. A maior parte do trajeto foi feita em silêncio, cada um mergulhado nos seus pensamentos. A partir de certa altura, o “pendura” começou a tomar apontamentos que serviriam para facilitar o regresso do companheiro. Por fim lá chegaram à aldeia a que rumavam e onde nenhum deles nunca tinha ido. De acordo com as indicações que levavam, atravessaram a rua principal da aldeia, com casas dum e doutro lado e com sinais evidentes que por ali deviam abundar vacas, tal o cheiro que lhes inundou as narinas. O piso da rua também era prova disso mesmo. Depois da última casa andaram mais uns cem metros e pararam o carro junto a um portão que em tempos fora verde. Ele saltou do carro, empurrou ligeiramente o portão, viu um homem que estava no pátio, deu as boas tardes e perguntou:
- É aqui que mora o senhor Alfredo Martins?
- Sou eu mesmo. Que deseja o senhor? – Perguntou com ar desconfiado o homem.
- Venho da parte do senhor Lourenço…
- Ah! – E mudou logo de semblante. – Faça o favor de entrar.
- Vou só ali ao carro buscar o saco e despedir-me do meu amigo.
Assim fez. Entretanto o senhor Martins já tinha chamado a mulher e já tinha dado as suas ordens. Quando o homem voltou com um pequeno saco de viagem, o senhor Martins disse-lhe que era melhor entrar em casa, que começava a ficar frio.
- Eu vou já lá ter consigo. É só acabar de tratar do gado e entro daqui a minutos. A minha mulher indica-lhe o quarto.
O homem entrou na casa humilde, porém asseada, foi até ao quarto que lhe indicaram, pousou o saco e atirou-se para cima da cama, ficando quieto a olhar para o teto. Não queria pensar em nada, já tinha pensado vezes demais, mas não demorou muito tempo deitado. Levantou-se e foi até à cozinha. Sempre estava mais quente, com uma boa fogueira onde aqueciam três panelas de ferro. Disse qualquer coisa à mulher sobre a fogueira, ela disse que com estes dias e sem o fogo não se aguentava e entretanto entrou o senhor Martins.
- Sente-se aí ao lume homem, senão enregela. Já lá estavam os dois filhos do casal, que lhe arranjaram um lugar. O senhor Martins tirou as grossas botas e sentou-se também ao lume num escabelo que ficava do outro lado. Enquanto trocavam umas palavras sobre o tempo, o frio e a chuva, o senhor Martins despejou um pouco de água quente num recipiente de madeira, a mulher chegou-lhe um pouco de água fria para temperar e começou a lavar os pés. O homem assistia à operação com uma certa curiosidade. Depois a mulher deu-lhe uma toalha e ele limpou-os cuidadosamente. De seguida levantou um braço e apanhou, no rebordo da chaminé, uma tesoura de poda e começou a cortar, muito concentrado, as unhas dos dedos dos pés. Terminada a tarefa guardou a tesoura no mesmo sítio e enfiou os pés nuns tamancos de madeira.
Feito isto, voltou-se para o homem e disse:
- Vai ter de se sujeitar ao que temos para comer. Hoje é noite de consoada e é tradição a ceia ser polvo cozido com batatas e couves. Se calhar não gosta…
- Muito obrigado, gosto de tudo, mas nem vou comer grande coisa, o apetite não é muito…
Passada uma hora a mulher tinha a mesa pronta e sentaram-se todos. A mesa ficava ali ao lado da lareira de maneira que o ambiente era agradável. Quando pôs a travessa com o polvo na mesa, polvo ainda inteiro, o senhor Martins agarrou na tesoura de poda com que tinha cortado as unhas e cortou cuidadosamente o polvo em pedaços. O homem ao aperceber-se disso, foi seguindo atentamente a operação e no fim, quando o senhor Martins o convidou a servir-se, retirou o último pedaço a ter sido cortado, considerando que deste modo a tesoura já teria ficado suficientemente limpa. Lá cearam, no fim houve ainda uns fritos que a mulher entretanto fizera e só depois dos filhos se terem ido deitar é que o senhor Martins falou do assunto que trouxera o homem até ali, naquela noite de Natal.
- Amanhã temos de nos levantar bem cedo, mas durma descansado que eu acordo-o, ainda temos uns quatro quilómetros para andar a pé pelos campo, mas como é dia de Natal não vai haver problema. Os guardas não vão andar por aqui. Depois, na aldeia do outro lado, o senhor toma a camioneta da carreira que o levará à cidade onde vai tomar o comboio. Esteja calmo que vai correr tudo bem.
Pouco depois despediram-se e foram deitar-se. O homem só tirou os sapatos, deitou-se vestido entre os cobertores e foi dormitando até que o senhor Martins o chamou. Estava na hora de deitar pés ao caminho.
Despediram-se no tal “pueblo” espanhol quando a camioneta chegou e o homem entrou nela.
***
Quinze anos depois, tal foi o tempo que o homem esteve “lá por fora”, dois dias antes do Natal, foi à tal aldeia visitar o senhor Martins. Mal parou o carro em frente ao velho portão, que estava semiaberto, apareceu o senhor Martins. O homem apresentou-se, dizendo: “faz amanhã quinze anos que aqui vim consoar com o senhor, lembra-se?”.
- Sim, agora estou a reconhecê-lo.
- Vim cumprimentá-lo e agradecer o que então fez por mim. Por motivos de segurança nunca lhe escrevi e portanto tinha de voltar cá. Aproveito para lhe dar uma prenda – e retirou da mala do carro um bacalhau inteiro, um embrulho com dois polvos e umas garrafas de vinho
Tenho também aqui umas lembranças para os seus dois filhos, que sei que estão uns homens e que estão a trabalhar no Porto.
- É verdade sim senhor, eu quando ouvi o carro até julguei que fossem eles. Estava aqui à espera, pois devem estar mesmo a chegar. Quanto às prendas só as aceito se o senhor aceitar almoçar connosco. A minha mulher está ali a fazer um cozido e o senhor não se vai negar.
- Ai não, não. E olhe que hoje o meu apetite é muito maior do era há quinze anos atrás, naquela minha aventura. Depois conto-lhe algumas peripécias e de como estive quase a ser apanhado pela guarda civil. Mas isso fica para depois do almoço, quando estivermos já bem comidos e bebidos. – E soltou uma gargalhada, acompanhada pela do senhor Martins.
Pouco depois chegaram os filhos do senhor Martins, agora já homens, e sentaram-se todos à mesa, para o almoço. Do lugar onde estava, o homem reparou que a tesoura de poda continuava no mesmo sítio…
Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico - convertido pelo Lince.
Inspirado num do Picasso, aqui fica o “meu” galo para cantar à meia noite
Bacalhau, batatas, couves, azeite, alhos, farinha, fósforos, açúcar, canela, azeite já está na lista ali atrás, mel, vinho, um par de calças verdes de bombazina, e uns pares de peúgas, outro par de calças mas bege, um livro, dois livros, 3 livros, dá seis livros, mais um para o que der e vier, chocolates sortidos, tabletes, bombons, 4 mon chéri depois logo se vê, água das pedras, dois pares de calças corta que já está, lâminas, desodorizante, comprei há dias mas não sei dele, polvo, polvo não, este ano não, cabrito, só encomendar que não é para agora, pinhões, passas, amêndoas nozes, nozes não que ainda há, bolo rei, bolo rei não que vai secar, bolos, doces, corta que alguém vai trazer, papel para embrulhar, fita cola, cola sem fita, pensos rápidos, ah! fermento de padeiro, não esquecer, etiquetas autocolantes, 1 garrafão de água, dois e 4 garrafas, vinho, vinho já está mas convém pôr de novo para não esquecer, queijo da serra, rebuçados para a tosse, chá preto, chá de ervas, açúcar, açúcar já está, uns ferrero roché, não, não é preciso já estão os mon chéri para qualquer falha, palha de aço, panos de cozinha, rolos de papel de cozinha, papel higiénico, papel não é preciso há ainda muito, sabonetes, desodorizantes para a casa de banho, uma chave de parafusos, parafusos, não, não são precisos, pão, broa para o bacalhau, bacalhau, bacalhau já está é logo o 1º da lista, acendedor elétrico, corta os fósforos, champanhe, agora não, fica para depois, vinho, (mais?), 3 caixas de plástico para levarem os restos, nunca voltam, mais um livro de contos curtos, que mais? Ah! uma faca de serrilha, um passador, cápsulas da Nexpresso, uma Hellow Kitty, tás maluca nem pensar, cromos, mais cromos ainda (?), pastilhas para a máquina da louça, pastilhas para a tosse, corta as pastilhas ou os rebuçados que estão aí atrás não são precisas as duas coisas, uns chinelos, já não tenho mais papel, escreve nas costas, deixa agora isso, vamos almoçar depois continuamos…
Ao jantar: "estive a pensar e acho que o melhor é mesmo aceitarmos o convite do teu irmão e irmos passar lá o Natal…"
Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico - convertido pelo Lince.
Desenho original feito no paint para ilustrar este post.
Agora sim, iam começar a poder ter uma vida a sério. Bem podiam dizer que até aquela altura tinham vivido na margem da vida, no patamar inferior da miséria. Porém tudo ia mudar. Tinham um bom pedaço de terra para trabalhar e dela colher os frutos que os sustentariam, tinham braços fortes e suficientes para arrotear a terra e tinham, finalmente e graças à ajuda da “organização”, os sacos de milho suficientes para poderem semear todo o pedaço, que não era tão pequeno como isso.
Foi então que ele se virou para a mulher e disse: vamos comemorar. Retiramos umas mãos cheias do milho do que aqui temos, vamos moê-lo e fazemos uma refeição como nunca fizemos. Entretanto eu vou à tasca e troco outras mãos cheias de milho por uma garrafa de vinho. Uns grãos a menos na sementeira nem se notam. Basta que a façamos um tudo nada mais rala.
E assim foi. E assim saciaram a fome como há muito não faziam e assim beberam de modo a ficarem bêbados.
No dia seguinte, dia em que começariam a sementeira, a disposição não era a melhor, adiaram por mais um dia e repetiram a dose do dia anterior. E foi assim até à consumação do milho que era para semear.
Estavam outra vez na miséria, donde aliás não tinham saído nunca, mas agora mais pobres ainda, pois tinham queimado a última hipótese de sobrevivência. A “organização” retirar-lhe-ia a terra e não voltaria a dar-lhes outra oportunidade.
Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico - convertido pelo Lince.
Este é “ O Fado” do José Malhoa. (O nosso
ainda é mais triste)
- Olá! Parabéns! Dá cá um abraço.
- Olá! Obrigado. Por onde tens andado que já não te via por aqui há tanto tempo?
- Sabes como é, a vida puxa-nos para um lado e para o outro e depois o tempo não chega para tudo. Mas hoje tinha de vir dar-te um abraço.
- Mas estás com cara de gozo, não?
- Quem te disse? Estou a sorrir, contente por saber que estás tu contente.
- Seja. Mas se bem te conheço…
- Mas tu não me conheces bem. Conheces-me simplesmente e isso tem bastado. De qualquer maneira agora és Património Imaterial da Humanidade! Não é qualquer treta. Agora és um gajo importante, caraças!
- Se sou ainda não notei nada…
- Estas coisas não se notam logo. Com o tempo vais ver como inchas…
- Já começas a gozar?
- Não estou a gozar, mas em boa verdade, para quem te conheceu como eu, mudaste muito. Património… quer dizer, agora que és universal, és cada vez menos nosso.
- Deixa-te disso. Sou sempre o mesmo.
- Pode ser que julgues que és, mas não serás. Agora já anda gente importante de braço dado contigo…
- Sempre andou…
- Sempre? Ora diz lá isso sem te rires.
- Sabes bem que nos palácios…
- Deixa-te disso. Essa história é velha e carcomida, os fidalgotes que te trauteavam estavam mais interessados noutras coisas. Tu eras só o pretexto. Sabes bem disso.
- Não era bem assim, mas hoje não quero discussões contigo. Vamos ali beber um copo.
- E pago eu como de costume… Estava aqui a lembrar-me duma coisa. Tu agora podias…
- Não me arranjes problemas que eu não posso nada.
- Podes. Agora que entraste na alta roda internacional podias patrocinar uma campanha para também tentar levar o nosso défice a Património Imaterial da Humanidade.
- Logo vi que estavas a gozar desde o princípio.
- Já te disse que contigo não gozo. Já brinquei muito por causa de ti, tu sabes bem isso, fomos compinchas durante uns tempos, mas agora não estou a gozar contigo. Mas pensa bem nesta ideia que te dei sobre a nossa dívida. Ou, para ficar mais “afadistado”, sobre o nosso buraco. Repara o que seria: “o buraco de Portugal passou a ser considerado “Património Imaterial da Humanidade!” Já viste a potencialidade da coisa?
Na medida em que passaria a pertencer à Humanidade, deixaria de ser um problema para nós. “Iam vir charters de pessoas”, como disse o outro, para apreciar o nosso buraco, tirar fotografias ao pé do buraco (um passo em frente e seria o fim), talvez até levarem um bocadinho do buraco (repara que sempre que se retira um bocadinho a um buraco ele fica maior e portanto o Património da Humanidade estava sempre a subir…
- Pronto! Já estás a delirar.
- Qual delírio qual careca! Estou só a explanar as minhas ideias para ver como ainda podemos vir a ser grandes. Enormes e sempre a crescer. Por enquanto no buraco só cabemos nós, mas qualquer dia caberia (caberá?) lá toda a humanidade. Era fixe pá, digo-to eu.
- Bem, vou ter de te deixar, tenho uma entrevista aprazada para daqui a uns minutos. Uma jornalista do Burkina Fasso quer…
- É pá! Agora já andas com estrangeiras e tudo. E dizias tu que eras sempre o mesmo… Vai lá então, agora já não te consigo prender, vai em tom de Fado Corrido para não chegares atrasado, mas fala lá com ela naquela minha ideia do buraco… e se ela não perceber bem, ao menos tenta vender-lhe o Carapau de Escabeche a Património “Material” da Humanidade…
Creio que ele já não ouviu estas últimas palavras. É sempre assim: a vaidade sobe depressa à cabeça das pessoas.
Agora, para aproveitar a embalagem, vou ali compor o “Triste fado do buraco donde nunca saímos”. Com música do fado Mouraria.
Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico - convertido pelo Lince.
Este é o post número duzentos. Por isso tenho um osso bem difícil de roer e pressinto um trecho muito difícil de escrever. Primeiro, porque pretendo que ele fique legível e compreensível; segundo, porque o quero único, logo irrepetível.
O primeiro período deve ser sempre o exemplo do que se segue e deste modo bem posso dizer que o consegui.
O pior, por ser difícil, é seguir este rumo de um modo lógico, seguro e que desperte o mínimo interesse.
Porque neste momento espero que um ou outro se interrogue sobre o objetivo do post. E é previsível que um ou outro vislumbre o que pretendo, escrevendo-o deste modo. É isso mesmo…
Por isso, o repto que se segue é que outros tentem um texto com o mesmo pressuposto, pois só desse modo é possível sentir os espinhos que se escondem num empreendimento deste tipo.
Um osso, pelo menos um, roí eu em conseguir este objetivo, pelo menos nestes primeiros dezasseis riscos, se é permitido exprimir-me deste modo.
E posso dizer que cheguei onde me propus, pois o texto tem, neste momento, um corpo suficientemente desenvolvido.
Termino dizendo: o primeiro símbolo do conjunto de vinte e seis de que nos servimos, no nosso escrever corrente, com o objetivo de nos fazermos entender, foi o símbolo que esteve excluído deste post. Esse foi o objetivo que me propus conseguir. E se bem o prometi, melhor o cumpri.
Que símbolo? Este, o A, que esteve excluído de todo o texto e é o número um no português.
EXTRA:
A pedido feito, num comentário ao post anterior por uma comentadora, apresenta-se excecionalmente um auto retrato do autor do blog. Não a tinta da China como era quase exigido, mas a lápis..
Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico - convertido pelo Lince.
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