Quinta-feira, 17 de Maio de 2012
Recortes

“Portugal e a Europa”

Na União Europeia, em média, 73% da população completou o Ensino Secundário. Já em Portugal, apenas 32% da população completou pelo menos este nível de ensino.

(Dados de 2010 – população entre os 25 e 64 anos) – portal Pordata)

 

“IG a centenas”

Perto de 500 mulheres realizaram em 2011 mais que uma interrupção da gravidez e oito já tinham realizado mais de dez abortos anteriormente, de acordo com o relatório da Direção Geral de Saúde.

O registo das Interrupções de Gravidez (IG) em 2011 revela que foram realizadas 20.290, das quais 97% por opção da mulher, até às dez semanas.

(Dos jornais).

 

De acordo com números de outros países estima-se que hajam mais uns 25% de abortos para além dos declarados.

Numa altura em que há os meios de prevenção de gravidez que se conhecem e do acesso fácil aos mesmos, parece-me que o primeiro recorte pode explicar uma grande parte do segundo. E se não explica, então pior ainda.

Assim vamos…

 

Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico - convertido pelo Lince.        



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Quinta-feira, 10 de Maio de 2012
Saber

“Ouvi contar que outrora”, “num meio dia de fim de primavera”, o Exército Português levou a cabo, no Castelo de Almourol, uma “festinha” para comemorar uma qualquer data ligada ao Exército. Convidado de honra, para presidir à sessão solene, o então Presidente do Conselho Salazar. Depois dessa sessão estava preparado um beberete para onde convergiram “as tropas” com o aprumo e galhardia que sempre foram seu apanágio em tais ocasiões. Ao ser servido duma bebida, Salazar admirou-se da frescura da mesma e perguntou a um velho e condecorado General que fazia as honras da casa, como conseguiam ter as bebidas assim tão fresca ali na ilhota no meio de Tejo. “Temos um frigorífico” – respondeu orgulhoso, o de “cinco estrelas”.

“Frigorífico aqui? Mas há eletricidade no Castelo?” – perguntou admirado o “sem estrelas”.

“Não, senhor Presidente, o frigorífico é a petróleo”.

“A petróleo? E como funciona um frigorífico a petróleo, senhor General?”

O de “cinco estrelas” pigarreou, levou à boca a taça para ganhar tempo e “deu” a sua explicação. Que havia uma fonte de calor, que havia também uma fonte de frio, que…que…que o melhor seria o Coronel, que era de Engenharia e que estava ali ao lado, explicar isso melhor, porque ele General era de cavalaria e já estava um pouco esquecido dessas coisas.

Apanhado de surpresa o bravo Coronel engenheiro, que até estava entretido a comer um rissol de camarão e a bebericar (perdão, no Exército não se beberica, bebe-se), acabou o rissol, acabou a taça, pediu desculpa por ter sido apanhado de boca cheia, pigarreou (estas alturas pedem sempre um bom pigarro) e como tinha ouvido vagamente falar de fonte de calor e de fonte de frio, trocou as voltas e falou de fonte fria e de fonte quente, fez uns gestos com as mão a explicar, “Vossa Excelência está a perceber…” e concluiu dizendo que o “nosso Capitão” tem essas coisas mais presentes, foi ele até o da ideia de trazerem o frigorífico e puxou pela manga da farda de gala o “nosso Capitão”. O Capitão até andava a ver se tudo corria bem, se não faltava o “petróleo” quer ao frigorífico, que às mesas, foi apanhado de surpresa, pensou lá para as suas divisas “que raio de interesse tem saber como funciona o frigorífico, o que interessa é as bebidas estejam frescas”, mas lá teve que dar a sua explicação. Pigarreou (tinha tirado o curso de pigarro em Mafra), falou em circuitos de frio e circuitos de calor, em evaporação e arrefecimento, meteu os pés pelas mãos, olhou em volta e descobriu o “nosso Aspirante” que estava ali mesmo ao lado, com um “rissol numa mão e na outra sempre o copo” e chamou-o à baila, dizendo que “o nosso aspirante saiu há dias da faculdade, tem essas coisas da termodinâmica ainda frescas e vai explicar direitinho a V. Excelência Senhor Presidente, como funciona um frigorífico a petróleo”.

O “nosso Aspirante”, que tinha ouvido toda a conversa e todas as “explicações”, avançou dois passos e ainda empunhando as duas armas, dirigiu-se respeitosamente ao “sem estrelas” e declarou: “Senhor Presidente, eu também não sei”:

 

Este post teve a colaboração das seguintes “entidades”:

- Fernando Pessoa, com dois versos de dois poemas, logo a abrir.

- Alguém cujo nome me não lembra agora, numa referência a Luís de Camões, ali pelo meio do texto, referência essa, alterada, para estar de acordo com o “meio ambiente”.

- Confúcio que terá dito (Confúcio “disse” aliás muitas coisas que nunca lhe passaram pela cabeça):” "Querem que vos ensine o modo de chegar à ciência verdadeira? Aquilo que se sabe, saber que se sabe; aquilo que não se sabe, saber que não se sabe; na verdade é este o saber."

- E finalmente uma comentadora (pouco assídua, aliás) deste blog, que assina discretamente MJM, mas que no mundo dos blogs e não só, dá cartas, e que, no post que pubiquei aqui há pouco tempo, com o título “Citações”, trouxe a “citada citação” do citado Confúcio, a lume.

 

Agradece-se a colaboração, forçada, a todos os referidos colaboradores.

 

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Quinta-feira, 3 de Maio de 2012
Feira da Ladra

Há dias numa visita à Feira da Ladra, onde já não ia há anos (da última vez fui enganado por um senhor de certa idade, numa negociação que mais tarde me deu muito gozo, exatamente por ter sido enganado), verifiquei que tudo está na mesma, ou seja, até a Feira da Ladra está cada vez pior.

Ao comparar com “outros tempos” em que eu me perdia a ouvir os vendedores de banha de cobra, os autênticos e não esses que agora vendem cobertores e lençóis e tretas dessas, lembrei-me dum post escrito quando comecei esta aventura do blog. Foi logo o post nº 3 que agora aqui transcrevo na íntegra.

 

 Os vendedores de banha de cobra

Aviso prévio: esta história deve ser lida dum fôlego, portanto recomenda-se prévia oxigenação para aguentar a leitura até ao fim…

 

Já não há vendedores de banha de cobra como havia dantes é certo que hoje ainda os há e cada vez mais mas a banha é que passou a ser diferente e diferente para pior porque a banha de cobra autêntica era mesmo banha e a banha de hoje é tudo menos banha não sei se me entendem mas nem os vendedores hoje dessa banha montam banca nas feiras perdão às vezes até montam mas vendem mais na televisão e noutros locais mais abrigados que não nas feiras nas feiras é mais em certas ocasiões quando o negócio vai a leilão esses até dão muitos beijinhos e sacos de plástico vocês estão mesmo a ver quem são esses vendedores mas também há os que tem banca montada em bons escritórios com ar condicionado e tudo e outros que são os tais que estão na televisão a vender a sua banha mas que não é da verdadeira daquela mesmo de cobra que se espalha no ombro na perna no braço lá onde está a dor e a dor desaparece está ali aquele senhor que me não deixa mentir até já me disse que a mulher diz que ele nunca esteve tão bem agora que já se pode mexer em todos os sentidos é verdade ou não é ele está ali e já me disse que quer levar mais três embalagens e olhem que eu hoje não tenho muito produto isto tem que ser bem doseado que pode não chegar para todos mas para a semana já recebo nova encomenda e estou apto a satisfazer todos os pedidos atenção não se chegue muito para a frente que eu vou abrir esta mala onde tenho o bicho e o bicho pode assustar-se e saltar por favor alarguem um pouco mais a roda para todos verem bem e assim por diante estes sim é que eram os verdadeiros vendedores de banha de cobra não esses do ar condicionado que não garantem nada só prometem e depois de lá estarem não se interessam que lhes doam as pernas ou o braço ou a cabeça ou outras partes que às vezes até fazem mais falta que o digam as vossas mulheres se bem me estão a entender certamente olha homem nunca estiveste tão bem desde que pões daquela pomada mas nem era bem destes vendedores de banha que eu aqui vinha falar que estes são sérios não estou aqui para enganar ninguém nem eu nem eles mas mesmo no meio destes há uns que também vem aqui montar banca na feira mas para enganar quem vai nas cantigas deles foi o que aconteceu naquela cidade do interior nem era bem do interior era quase litoral já faz anos mas que eu vou contar aqui porque assisti e então o homem montou o palanque este até tinha um pequeno palanque com chapéu de sol e tudo e vai abre a mala começa a contar anedotas e tal para chamar o pessoal que ia passando e ficando e mais isto e mais aquilo e depois de ter já bastante pessoal que estava a ver se ele vendia uma boa banha de cobra daquelas que duas limpam o sangue e cinco curam o câncaro sic mas afinal não era bem assim muita conversa e mais anedotas e então ele disse que se lhe passassem para as mãos uma nota de vinte euros nem era de euros que naquele tempo ainda não havia disso por cá nem por outro lado mas enfim era uma nota de vinte e que ele dava a palavra de honra perante o respeitável público e perante a autoridade e apontava para dois policias que de longe observavam a cena e que ia oferecer às pessoas que lhes passassem a tal nota de vinte umas coisas bem úteis e que depois não lhes ia ficar com os vinte euros eu já disse não eram euros mas também não interessa nada para o caso era sim uma nota de vinte e ao ouvir isto e ainda por cima ali com a autoridade lá começaram a aparecer as notas de vinte e mais uma e outra e outra e tantas e quando já não havia mais ele o vendedor de banha de cobra que como veremos não era um verdadeiro e honesto vendedor de banha de cobra mas sim um que mais se parecia com estes que agora não vendem banha ou melhor vendem mas não a verdadeira que matava o micróbio que estava alojado ao nível do fígado porque o fígado é que é o maestro do nosso corpo e por aí fora e então esse tal de que eu estou a contar a história deu às pessoas uma lâmina de barbear e um lápis e uma outra coisita que tudo valeria para aí um euro bem entendido que não era euro nessa altura porque eu já disse que ainda não havia e depois de muita conversa e como tinha dito no principio não estava ali para enganar ninguém dizem todos a mesma coisa e vai devolveu um cêntimo que não era um cêntimo bem entendido isso já perceberam com certeza a cada uma das pessoas e depois disse que como tinha sempre dito não ficava com os vinte euros que não eram euros porque se tinha devolvido um cêntimo agora já não eram vinte estão a ver como o homem era sério e apontava ali para a autoridade que garantia a sua honestidade e umas pessoas riram outras viraram as costas porque acharam que tinham sido bem enganadas mas ás tantas houve uma ou outra que disse alto que aquilo era um roubo e mais outra e outra e armou-se um trinta e um e a autoridade teve de intervir e acabou tudo na esquadra não é como agora que acontece o mesmo mas ninguém vai para a esquadra porque já nem sei bem o motivo mas deve ser por eu estar a ficar sem fôlego eu bem avisei no princípio para inspirarem fundo vou ficar por aqui ponto final

 

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Quinta-feira, 26 de Abril de 2012
Dr. Lopes (II)

Mais duas pequenas histórias do médico apresentado no post anterior.

 

A 1ª, foi contada por um colega dele, que também esteve presente no seminário de radiologistas em que se passou o caso.

Resolveram os organizadores do seminário (isto passa-se numa altura em que a organização destes eventos não tinha nada a ver com o que é hoje),  que cada congressista se apresentasse: nome, local onde exercia a sua profissão e mais qualquer coisa que ajudasse a saber quem era, como experiência profissional, algum caso especial que tivesse resolvido ou algum trabalho científico em que tivesse colaborado.

Quando chegou a vez do Dr. Lopes, que tinha sido avô uns dias antes, ele lá disse o nome e a cidade onde exercia a profissão e terminou de imediato com estas palavras: “…e avô da neta mais linda que há no mundo”.

Foi uma gargalhada geral.

 

A outra história, passou-se com um doente. A mulher deste doente telefonou aflita ao Dr. Lopes a pedir-lhe para se deslocar urgentemente a sua casa, porque o marido estava muito mal e a dizer que ia morrer. O médico tentou informar-se da situação, indagou do que se passava, perguntou se não podiam traze-lo ao consultório, mas do outro lado a mulher só dizia que não, que o marido estava de cócoras junto à cama, não queria sair daquela posição e só dizia para chamarem o médico, porque ia morrer.

Perante tal situação o médico, largou o consultório e dirigiu-se à casa donde lhe pediam ajuda.

Lá chegado confirmou tudo o que lhe tinham dito. Falou com o doente, disse-lhe para se sentar ou deitar na cama e o homem negou-se a fazer isso, não parando de dizer “ai senhor Dr. não me obrigue a deitar senão eu morro”. O médico, depois de várias tentativas para o convencer, dizendo que ele estava ali para o salvar e não para o deixar morrer, lá conseguiu que o doente se deitasse, mas sem parar de dizer “ai que vou morrer”.

O médico nem teve tempo para o auscultar: o homem segundos depois de estar na cama morreu. O Dr. Lopes foi apanhado de surpresa e ficou sem saber o que dizer à, nessa altura já, viúva.

Mas lá encontrou uma saída e comunicou-lhe a morte do marido, mas acrescentando de seguida:

“Minha senhora, tenho de lhe dar os parabéns pelo marido que tinha. Era um homem de palavra como hoje já não há. Disse que morria e morreu mesmo”.

 

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Quinta-feira, 19 de Abril de 2012
Dr. Lopes (I)

                             

Há dias li ou ouvi uma declaração de alguém que, a propósito de análises ao DNA, afirmou que “anda por aí muito boa gente a chamar pai à pessoa errada”.

Nada que não seja conhecido desde sempre, como prova o velho dito “os filhos das nossas filhas nossos netos são, os filhos dos nossos filhos serão ou não”. E há outra afirmação que diz que a paternidade é uma questão de confiança.

Ao ouvir a tal declaração lembrei-me do Dr. Lopes, médico de uma pequena cidade, numa altura em que não havia o Serviço Nacional de Saúde e em que os meios de diagnóstico eram ainda escassos e caros e os poucos que já havia estavam geralmente instalados só nas três principais cidades.

O Dr. Lopes era um homem alto, seco, meio curvado que fazia lembrar, diz quem o conheceu, o ator Jacques Tati no filme “O meu tio”.

Tinha um consultório equipado com aparelho de radioscopia e para além de medicina geral era especialista em doenças pulmonares e radiologia.

Dele se contavam, e ainda contam, histórias do arco da velha, a maior parte verdadeiras, mas outras já entrando no mundo do mito. Era conhecido e reconhecido dez léguas em redor e ele também conhecia meio mundo e o relacionamento familiar da grande maioria dos seus doentes, o que muitas vezes lhe facilitava o diagnóstico, mesmo antes de observar o doente.

Um dia entrou-lhe pelo consultório um cavalheiro dos seus 40 anos que ele nunca tinha visto. O doente disse ao que ia, apresentou as suas queixas e o médico começou por lhe pedir para tirar o casaco e a camisa para o auscultar. O homem assim fez e uma luzinha começou a brilhar na cabeça do ilustre clínico. Já tinha visto aqueles gestos. Os jeitos e trejeitos que o homem fez ao despir-se, não era a primeira vez que os via. Começou a pensar quando e a quem os teria visto, pois aquele pessoa era a primeira vez que entrava no consultório. Depois da auscultação começou a elaborar a ficha clínica. Quando o doente disse donde era natural, uma faísca iluminou a memória do médico. Os gestos eram dum tal padre Oliveira, entretanto falecido, mas que tinha sido pároco, durante muitos anos, na aldeia donde era natural o paciente. O padre também fora doente do dr. Lopes recorrendo a ele, nos últimos anos de vida com frequência, para pedir solução para alguns problemas que, supostamente, um padre não devia ter. Depois ele disse o nome de quem era filho e o médico disse-lhe que conhecia a família dele há muitos anos. Aproveitou para saber como estavam eles de saúde e, depois da medicação apropriada, despediu-se do doente.

 Alguns anos mais tarde o médico contou esta história a um amigo, acrescentando, que a Senhora Mãe do tal doente, quando se ia confessar, omitia certamente muitos pecados, por serem já do prévio conhecimento do confessor. E soltava uma estridente gargalhada, como era seu hábito, para além de aproveitar para lançar achas para a fogueira das suas convicções anticlericais.

O próximo post será, em princípio sobre outra das suas histórias.

 

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Quinta-feira, 12 de Abril de 2012
Citações

 

                                  

- Quem originalmente me pintou foi o Picasso. Mas, tal como me apresento aqui, quem me rabiscou foi o tipo do blog, que hoje está avesso a originais.

 

Não sei se foi de estar uns dias fora da caverna habitual sem fazer nada, se do açúcar das amêndoas, se do tempo que não é carne nem é peixe, se disto ou principalmente daquilo, a verdade é que hoje não consegui abrir a caixa das ideias (ou abri e estava vazia, o que é ainda pior) e tive de pedir auxílio a meia dúzia de compadres para me fazerem este post. Todos se mostraram muito compreensivos e disseram-me mesmo que ficavam à disposição para ajudar sempre que fosse preciso. Eu não gosto de abusar, senão bem que lhes passava a pasta daqui para a frente. Assim, e para já, vou aproveitar a oferta para esta semana. Para a próxima logo verei como anda a metereologia.

A palavra, portanto, aos compadres:

 

  • Se choras porque perdeste o sol, as lágrimas não te deixarão ver as estrelas. (Rabindranath Tagore)

 

  • E se não choras, do que costumas chorar? (Dante Alighieri)

 

 

  • Não gostar do que tem e querer o que não tem – é a história de todos os homens. (F. R. Chateaubriand)

 

  • Quando me contrariam, despertam-me a atenção, não a cólera: aproximo-me de quem me contradiz e instrui. (M. de Montaigne)

 

 

  • Pensar contra foi sempre a maneira mais difícil de pensar. (Jacques Bossuet)

 

  • Roube ainda hoje! Amanhã pode ser ilegal. (Millôr Fernandes)

 

 

  • Preferia ter sangue nas mãos do que água como Pôncio Pilatos. (Grahm Greene)

 

  • Aquele que acreditar que o dinheiro fará tudo, pode bem ser suspeito de fazer tudo por dinheiro. (Benjamin Franklin)

 

 

  • Contento-me com pouco, mas desejo muito. (Miguel de Cervantes)

 

  • A castidade é a mais anormal das perversões sexuais. (Aldous Huxley)

 

 

  • A mocidade é breve mas poderosa enquanto dura. (José Régio)

 

  • Ninguém mente quando diz que se sente só. (Do filme “Até à Eternidade”, dita por Montegomery Clif)

 

Foram escolhidas um pouco ao acaso mas, reparo agora, algumas delas assentam-me como uma luva. Também não admira. Com este corpinho qualquer trapinho me fica bem.

 

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Quinta-feira, 5 de Abril de 2012
Manifesto (a pedido)

 

 Carapaus unidos jamais serão comidos!

 

“Aqui está mais uma prova que a união faz a força. Assim unidos não há arrastão, rede, anzol e outras artes que nos apanhem. Esta associação feita há tempos para defesa dos nossos direitos (reparem que não há um único carapau torto) é composta por 6 dúzias (nada de modernices de sermos pesados em balanças viciadas). Somos 6 dúzias à partida, mas seremos dezenas, centenas de dúzias à chegada. Sim, porque nós vamos chegar “lá”. E não se julgue que este “lá” é alguma nota musical ou algum churrasco. “Lá” é o objetivo a nos propomos. Escrevemos “objetivo”? Escrevemos mal, porque nós temos objetivos, no plural. Cada qual tem o seu, somos diversos, mas caminhamos todos com os olhos postos naquele “E” que nos precede e que mais não é que o nosso Éden. Lá comeremos as maçãs que nos esperam, lá cantaremos as nossas canções de paz, lá descansaremos das nossas fatigantes corridas a fugir ao arrastão”.

“Oh vós que estais já a afiar o dente, deixai lá fora toda a esperança”!

“E para aqueles que ainda não se juntaram a nós, deixamos aqui uma palavra de solidariedade e um convite: adiram e serão bem recebidos”!

“Carapau unidos jamais serão comidos! Carapaus informados jamais serão grelhados”!

 

Aqui fica, a pedido destas dúzias de amigos e compadres, esta espécie de “manifesto” que me mandaram com pedido de publicação, apelando ao sentido de “serviço público” deste blog.

Para quem quiser ler o que lá não está escrito, quero dizer que não meti prego nem estopa no “manifesto”, que não entro em grupos, que gosto de me pesar e de não ser “contado” e que dificilmente me veriam naquele grupinho de “bem alinhadinhos”. Um dia alguém pega por um e vão todos atrás.

E já agora mais uma nota: os pobres diabos dizem que vão atrás do E de Éden, quando eu só lá vejo uma fivela de cinto.

 

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 Amêndoas doces para todos !



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Quinta-feira, 29 de Março de 2012
Comemoração - Uma história de amor

Faz hoje 4 anos, tinha este blog 3 semanas de vida, que foi publicado este pequeno conto com sabor a maresia. Como só hoje me lembrei da efeméride da abertura do blog, para comemorar esse “longínquo” tempo, aqui fica de novo

 

 

                              Uma história de amor

 

A Pescada alisou as escamas, escovou as barbatanas e deu uma limpeza nas guelras. Quando achou que estava em condições, saiu da toca e viu logo o Pargo que nadava devagar para cá e para lá. Tainha um certo receio do golpe de barbatana que ia dar, pois desconfiava muito das boas intenções dele. Era um belo exemplar, disso não tinha dúvidas e andava meio cardume atrás dele. A Corvina era uma das mais entusiastas e ela não queria guelras com ninguém e muito menos com a Corvina de dente sempre afiado.

 Mas a vida estava a ficar muito monótona e antes uma aventura com um Pargo jeitoso ainda que um pouco pedante, que um bate barbatanas com um Cachucho qualquer.

 Além disso ela era de boas famílias, muito ciente da sua linhagem, carne branca muito apreciada ainda que um pouco sonsa para a maioria.

Mal a viu, o Pargo deu um golpe de barbatana e veio em direção a ela e emparelhou por bombordo, depois de um rápido piscar de olhos. Daqueles olhos redondos e grandes que eram a perdição dela. Nadavam de vagar um ao lado da ostra com pequenos e espaçados golpes da barbatana caudal. Começaram a falar do tempo, bonito dia de sol, da água límpida boa para um passeio mas má porque poderiam ser vistos com mais facilidade.

Isto dizia ele. Ela abria as guelras a concordar e aventurou-se mesmo a dizer:

- Por mim não faz diferença. Até gosto de ser vista. Não tenho nada a esconder de ninguém. Agora tu estás com receio de algum encontro?

-Eu? Sou livre, não tenho satisfações a dar a ninguém…

- Nem à tua amiga Corvina?

- Muito menos a essa chaputa disfarçada que anda para aí a dizer coisas…

Ela corou um pouco, sorriu satisfeita com a resposta mas insistiu, venenosa como uma moreia:

- Ah! É só a dizer coisas? Ela gaba-se que tu és o namorado dela.

E ele a não morder o isco e a fugir como uma enguia:

- Já te disse que não tenho nada a ver com ela. Não é o meu tipo.

Ao longe passava o Carapau atrás duma Navalheira e fez um aceno aos dois. Era por demais conhecido para passar despercebido.

- Aquele também anda sempre naquilo - disse a Pescada para ver a reação.

-Também? Isso é piada? Eu nem gosto de Navalheiras…

A conversa decorria, eles sempre a nadar devagar, de vez em quando ele encostava a barbatana à dela, um ou outro linguado surgia, ela dava um impulso maior e afastava-se dele.

- Gosto pouco de mexilhões.

- Porquê? Já te fizeram mal?

- Não, que eu não deixo. Também não gosto de abúzios.

Distraídos nem deram conta que anoitecera e que estavam longe de casa. Valeu-lhes uma manta que lhes deu abrigo e aconchego durante a noite.

No outro dia, manhã cedo ele saiu do quente enquanto ela ainda dormia, e deu uma volta para ver se a surpreendia com um bom pequeno-almoço. Viu uma Sardinha meio parada ali perto e atirou-se a ela para a não deixar fugir. Qualquer coisa de inesperado aconteceu sem ele se aperceber bem do que seria.

E só quando se viu agarrado por duas mãos fortes que lhe retiraram o anzol e o atiraram para dentro duma caixa é que percebeu que tinha perdido a Pescada para sempre.

 

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Quinta-feira, 22 de Março de 2012
O dicionário

 

Não é a primeira vez (nem será a última, é um palpite meu) que me sirvo do dicionário para alinhavar um post.

E esta palavra “alinhavar” cai aqui como mel na sopa (para quem gosta de sopas adocicadas).

Vejamos:

Alinhavar – v. tr. dar alinhavos; coser a ponto largo e provisório; preparar; executar mal; (fig.) fazer mal e depressa; delinear.

Querem eles dizer que estou a preparar, a ponto largo e provisório (engano no que respeita ao provisórío), este post, que vou executar mal. Portanto serei um mau executante, mas não serei nunca (assim o espero) um bom executor. Bom executor (bom, profissionalmente falando) foi o que, com um machado supostamente bem afiado, degolou a Maria Antonieta. O gesto do executor foi definitivo, o meu gesto de executante pode ser emendado, alterado, melhorado. Isto se for possível melhorar um alinhavo, coisa já de si mal executada. Ponto assente: não sou executor e serei um mau executante. Pelo meio (no dicionário, pois é disso que se trata) fica o executivo. Que sou, enquanto “aquele que executa” (mal, já se viu, porque só alinhavo), mas não sou enquanto o que procede à execução judicial, ser do governo ou outra coisa ainda pior (se houver).

Portanto o melhor é pirar-me desta página do dicionário e passar à seguinte onde também não é melhor ser um exido, isto é, um baldio fora da povoação para compáscuo ou logradouro comum (deve ser uma coisa tão complicada que até o corretor assinalou erro no exido e no compáscuo…)

Piro-me a sete pés e vou cair lá muito para frente no raconto (também com direito a ser considerado erro) que mais não é que uma narração, uma descrição, uma narrativa. Já não me estico mais porque a seguir seria apanhado pelo radar e apanhava com a radiação e a radiatividade (que é mais conhecida como radioatividade), coisas que não me fazem nada bem à pele.

Vou lá para o fim tocar viola, antes de a meter no saco. De virgem, para já só encontro o azeite, a cera e a floresta e chego quase ao fim a zurrar, que entre outras coisas também é proferir asnices. E vem finalmente a última que é o zuzuto (aquele que é parvo ou aparvalhado).

 

Acontece sempre assim: quando nos metemos por caminhos que não conhecemos, corremos sempre o perigo de acabarmos em zuzutos.

 

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Quinta-feira, 15 de Março de 2012
Chuva

 

 

 

É dos livros. Já anda muita gente a pedir chuva, e nem chuva nem trovões, que os santos já fazem poucos milagres e não têm força para deslocar o anticiclone dos Açores, que é sempre o grande culpado (aqui) por estas coisas.

Isto no que respeita à chuva-chuva, a que cai do céu, às vezes a potes, às vezes às pinguinhas. Nunca vi chover cães e gatos como é usual em Inglaterra. Um sujeito ir na rua e cair-se um S. Bernardo em cima ou um pastor da serra da Estrela, não deve ser nada bom para a coluna. Pois se não me caiem outras coisas bem mais agradáveis em cima, porque raio havia de cair um cão? Já de gatos nem falo, que são bichos com quem me não dou.

Vem tudo isto a propósito (?) de uma notícia que vi/ouvi na tvi (saiu-me a terminação) a propósito de procissões que já se fazem pelo norte a pedir chuva. Por aqui (aqui, quero dizer mais para sul) fazem-se outro tipo de manifestações também a pedir chuva, mas a conversa é outra.

Hoje já vi “miles” de pessoas na praia a adorarem o deus sol e nenhuma delas queria chuva.

Lembrei-me então duma história que li quando era menino e moço (mais moço que menino) num livro de “short stories” dum senhor americano de origem arménia chamado William Saroyan (1908-1981) que, entre outras coisas foi laureado escritor e um “especialista” em contos curtos. De uma série a que chamou “histórias arménias” lembrei-me desta, que tento reproduzir de memória e que é mais ou menos assim:

“O homem seguia pela rua, quando começou a chover. Procurou abrigo num portal, à espera que a chuva parasse. Tinha começado o dilúvio universal”.

 

Perante isto, recomendo algum cuidado a quem anda a pedir chuva.

Nunca se sabe…

 

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