Segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2010
A cartilha

 

Agora que o Carnaval está a bater à porta, resolvi escrever uma treta, que até parece partida de Carnaval mas não é. Está tudo documentado, podem ir ver.

Há dias a saltar de blog em blog e a deixar-me arrastar por certos links acabei a ler um artigo do Diário de Notícias de Outubro de 2008, em que se falava do “Guia ecossexual da Greenpeace”.

Para começo de conversa e para ficarmos bem esclarecidos, nunca fui à bola com a Greenpeace. Não estou nada convencido dos seus propósitos e acho que por detrás daquela ecologia toda, há outras coisas que querem vender, o “tal” negócio escondido. Dito doutra maneira: ou querem vender ou querem vender-se.

Já em tempos escrevi aqui um post quase sobre o mesmo tema, mas o que me interessa agora é “debruçar-me” sobre os artigos do tal Guia.

E embarcamos já numa “noite de amor” de acordo com as “regras”.

1º - Banho em conjunto com as luzes apagadas, para poupar (?) na água e na energia. Da minha parte acrescento que a água deve ser fria para o “poupanço” ser maior. E digo mais: tudo bem rapidinho “et pour cause”.

2º - Jantarinho (agora já à luz dos cotos das velas) de crepes de legumes e frutas. Nada de carnes vermelhas, pois as explorações de animais para abate são autênticas fábricas de CO2 que o lançam na atmosfera. Isto diz a cartilha. Eu cá por mim penso como é que a namorada vai passar sem a carne vermelha…

3º - Ela opta por uma lingerie de algodão. Mas mesmo assim o manual põe as suas reservas. (Vamos resolver já o assunto: nada de lingerie, vai ser tudo nu). A cama tem de ser de madeira e certificada, dizem os “greens”. Nesta altura já estou a ver os utentes, de cócoras, a ver se descobrem o selo da certificação. Aqui está uma boa altura para… (mas isto já sou eu a falar e não o manual).

4º- Descoberto, ou não, o selo, vamos lá proceder às lubrificações. Atenção! Nada de lubrificantes à base de derivados de petróleo. Tudo à base de água. (Aqui ponho eu outro problema: dizem que devemos poupar a água, que é um bem escasso e vamos usá-la para lubrificar? Lubrificar o quê? Perguntarão. Então não chega a lubrificação…? Já percebi que não estão a entender nada).

5º - Esta lubrificação é para o caso (admissível) de se usarem “acessórios eróticos” (Greenpeace dixit) que não podem ser, nem pensar, de policloreto de vinil. (Eu recomendava aqui a colher de pau ou o maço de bater os bifes, salvo seja porque, como já vimos, carne vermelha não). Portanto quem esteja a pensar em “espanta-espíritos” tem de pensar em qualquer coisa que a cartilha permita. De latex e pele são aceites (eu recomendaria mais de osso em vez de pele, mas nisto sou suspeito, porque não gramo estes “Verdes”). E mais umas tretas que para o caso pouco adiantam.

Enfim: do artigo salva-se uma declaração dum senhor João Martins, que aparece no fim metido a martelo e que diz: "O certo é que não estamos a destruir o planeta pelas práticas sexuais, se calhar é pela falta de sexo".



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Quinta-feira, 4 de Fevereiro de 2010
Diálogos (V)

                

 

 

 O Tempo

 

- Bolas! Estou a ver que já não tenho tempo para…

- Estás a falar comigo?

- A falar com quem?

- Comigo.

- Quem és tu?

- O Tempo. Quem havia de ser?

- Ah! Nem sabia que estavas a ouvir.

- Estou sempre, mas normalmente não digo nada.

- Se calhar também não se perde grande coisa.

- Talvez.

- Talvez sim ou talvez não?

- Não sei.

- Eu também não. Mas que querias afinal?

- Eu? Nada. Tu, é que chamaste por mim.

- Eu? Não me lembro.

- Disseste que já não tinhas Tempo. Ora…

- Ah! Foi isso?

- Ora ainda tens Tempo.

- Mas não para fazer hoje o que queria fazer.

- Isso é problema teu. Ou programaste coisas a mais ou administraste-me mal.

- Acontece muitas vezes.

- Então não te queixes.

- Não me queixei.

- Não? Aquele “bolas” não era uma queixa?

- Sei lá! Talvez fosse, talvez fosse um desabafo. Era certamente o assinalar de uma contrariedade.

- De que o culpado és só tu.

- És um chato. Além de seres pouco ainda vens chatear.

- Pouco ou muito não sou eu que me administro. Isso cabe a…

- Está bem, pronto. Já cá não está quem falou. Olha lá…

- Sim…

- Ainda tenho muito Tempo disponível?

- Não sei e ainda bem que não sei e tu também não quererias saber.

- Mas que te parece?

- A mim não me parece nada. Sou Tempo, meu amigo, e nada mais.

- Cheira-me que estás cada vez mais curto.

- E para isso nem precisas de ter um grande olfacto. Toda a gente sabe isso.

- Já te gastei bastante….

- Isso é contigo, não me pronuncio.

- E pior que tudo, muitas vezes gastei-te mal.

- E outras vezes bem, certamente.

- Sobretudo quando…

- Quando...

- Quando eu entendi que te tinha gasto bem. Essas coisas sentem-se.

- O que me preocupa foi o mau uso que te dei. Bem que às vezes podias dar um toque…

- Sabes bem que não posso fazer nada.

- Calculo que não. Também não te posso trocar por outro.

- E se pudesses, trocavas? Com o Tempo de quem?

- Boa pergunta. Com ninguém em especial, mas talvez funcionasse com a estatística e com as probabilidades.

- Muito gostas tu de complicar as coisas. Deixa estar tudo como está.

- Mas devia ser aliciante não?

- Quantas vezes já te “saiu” a sorte grande?

- Ora. Nenhuma…

- E mesmo assim arriscavas?

- Não era de arriscar?

- Não sei, nem tenho esse problema. Aliás eu não tenho problemas, tu sim.

- Eu sim ou eu não. Também não te sei dizer. Tu és finito e como tal…

- Sou quê?

- Finito.

- Que é isso?

- Que tens fim.

- Isso sei eu desde o princípio.

- Sabemo-lo os dois e não adianta grande coisa.

- Também me parece.

- Ouve lá! Depois deste Tempo – tu – outro Tempo virá?

- Hum! Metafísica a esta hora? Não. Quando me esgotar já não haverá mais Tempo.

- Não ajudas nada.

- Não estou aqui para ajudar nem desajudar. Está tudo nas tuas mãos.

- Ai está? Então para já o melhor é ir perder o meu tempo para outro lado.

- Perdes Tempo a falar com o Tempo?

- Não perco?

- Perdes.

- Então?
- Nada, nada, foi só uma pergunta.

- Estúpida e … desonesta, direi eu.

- Como?

- O Tempo fazer-me perder tempo. Foi uma rasteira.

- Agora até tens um bocado de razão.

- Ah! Mas mesmo assim não tenho a razão toda?

- Nem pensar.

- E porquê?

- Porque neste jogo, eu só digo o que queres ouvir de mim. O jogo está viciado desde o princípio.

- Então não perco mais tempo com o Tempo.

- Ai sim?

- Sim.

- Fazes bem! Vive-o bem.

 

Conversa tida num dia de chuva numa sala de espera, enquanto esperava para ser atendido. Pensar na Parada do Tempo Perdido será também uma forma de perder o Tempo?



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Quinta-feira, 28 de Janeiro de 2010
Cena de rua

 

Vou poucas vezes à Baixa de Lisboa, entendendo como Baixa a zona do Rossio, Chiado, Terreiro do Paço e ruas das redondezas.

Há dias tive de ir tratar dum assunto e depois fiquei a vaguear um pouco por ali.

A Rua do Amparo é uma rua com meia dúzia de metros de comprimento, pois liga a Praça D. Pedro IV, nome oficial do conhecido Rossio, à Praça de D. João I (a velha Praça da Figueira). Paralela a essa, fica a Rua da Betesga que também une, mais a sul, as duas praças.

Nessa rua do Amparo, só para peões, estavam nesse dia instalados dois ou três engraxadores e um outro tipo com uma banca montada para plastificar documentos. São aliás figuras habituais daquele sítio.

Olhei para os meus sapatos, que já não viam graxa há muito, e resolvi sentar-me num dos bancos. O engraxador teria uns sessenta anos mal conservados, a barba por fazer, um grande bigode e um gorro enfiado a tapar as orelhas. Estava bastante frio e a rua era um verdadeiro canal por onde corria um vento de cortar. Sem conversa de parte a parte, o homem começou o seu trabalho e eu fiquei a observar o que se passava à volta. O tipo das plastificações era um fala-barato que se metia com toda a gente que “estacionava” ali pela rua, sempre a falar muito alto e com piadas a torto e a direito.

Um cauteleiro, cego, andava de um lado para o outro, meia dúzia de passos para a frente, outra meia dúzia para trás, a apregoar o jogo.

- Olha o dezassete quatro sessenta e nove, olha a grande!

O “plastificador” metia-se com ele:

- Ó Chico senta-te aqui no meu colo para aquecermos os dois! Agora até já podemos casar! Se tiveres umas massas…

O Chico cauteleiro esboçava um sorriso, e continuava:

-Olha o sessenta e nove! Comprem, não tenham vergonha! É só um número…

- Ó Chico hoje tás feito. Com esse número não fazes negócio! Tás pior que a águia do Benfica. Parece mais uma coruja de cauda branca…- gritou ele, e eu fiquei sem perceber a piada toda.

O outro resmungou qualquer coisa sobre as garras gastas do leão, e continuou com a sua lengalenga:

- Olha o sessenta e nove! Não tenham vergonha de comprar! Isto é só um número e pode ser a grande!

O engraxador continuava o seu trabalho, ainda não tinha aberto a boca, eu tão pouco, e às tantas aparece, vinda do Rossio, uma senhora de idade, que chega junto dele e lhe pergunta bruscamente:

- Ouça cá! Foi você que mandou vir este vento?

O engraxador abriu a boca pela primeira vez:

- Fui sim senhora.

Então a senhora fez-lhe uma festa na cara, enquanto dizia “Ah seu maroto” e continuou o seu caminho.

Eu observei a cena, o engraxador olhou para mim, fez um trejeito com o bigode naquilo que seria um sorriso, e disse:

- Tem noventa e tal anos e sempre que passa por aqui tem de dizer qualquer coisa.

- Sente necessidade de conversar, certamente - respondi eu a falar também pela primeira vez.

O homem olhou de novo para mim, abriu a boca como quem ia a falar, mas arrependeu-se, acabou por encolher os ombros e dar lustro ao sapato.

Entretanto acabou o primeiro sapato, deu-me um toque nele para eu mudar de pé, e nesta altura o cauteleiro aproximou-se de mim e perguntou-me:

- Não quer a grande?

- Nem a pequena – respondi-lhe a sorrir, esquecido de que ele não me via. Logo de seguida, não fosse ele ofender-se com a minha resposta, perguntei-lhe se conhecia essa história do cauteleiro e da “grande”.

- Disse-me que não e então contei-lhe rapidamente a anedota.

 “Num urinol público estavam lado a lado um cauteleiro, que segurava na mão esquerda a mola com as cautelas, e também desse mesmo lado, um outro utente. Às tantas o vizinho do cauteleiro começou a espreitar para o lado dele, muito curioso. A curiosidade que têm certos tipos que invejam sempre as “coisas” dos outros.

O cauteleiro julgou que ele estava a olhar para as cautelas e perguntou-lhe: “Oh amigo, quer a grande”?

E o outro, rápido, ansioso e curioso:

- Porquê? Tem outra ainda maior?”

O cauteleiro e o engraxador riram-se muito alto, o que intrigou o homem das plastificações que, por estar afastado não ouviu a anedota. Entretanto o meu prestador de serviços deu-me um toque no sapato a significar que tinha acabado o trabalho, levantei-me, paguei e ainda ouvi o cauteleiro dizer para o “plastificador”: “Querias saber? Qualquer dia conto-te… – e logo de seguida – olha o dezassete quatro sessenta e nove, quem quer a grande?”.

 

Este post fica a dever-se à colaboração do cauteleiro cego, do engraxador calado de farto bigode e do homem das plastificações, todos eles normalmente instalados na rua do Amparo, em Lisboa.

Teve ainda a participação especial de uma Senhora nonagenária, que colaborou com uma pergunta e um gesto carinhoso.

A todos eles o meu obrigado.

 

Para quem tenha interesse em saber coisas sobre a arte de engraxar, recomendo ir aqui e ver o video que aparece e que deve ter sido feito para as "novas oportunidades".



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Quinta-feira, 21 de Janeiro de 2010
Um quadro negro

 

                    

 

País pequeno e pobre, padecendo dos piores problemas para poder parecer progressista ao povo parvo, papalvo, pouco politizado, porém propalando postas de pescada. Políticos prolixos papam as papas na pinha do povo prometendo promessas patuscas, para poderem praticar o picanço. Procuradores protelam polémicos processos para poderem prescrever e passarem por probos. Poucos putos e putas pavoneiam prosperidades e propriedades e proclamam o próprio preço da progressão.

 

Onde os otários ouvem opiniões opostas e oportunamente optam por outorgar a outros óptimas oportunidades para operarem óbvios ofícios, onde o ouro oculta outras ordens.

Realidade ranhosa rasoira razoavelmente a réstia de rigor. A razão rasteja realmente rasgada. Ratos ratam, roem e realizam no rectângulo o retrocesso, refugiando-se nas redomas e nos redutos, receosos. Regrados remoem remédios e remam resignados. Reais recuos regista o regime.

 

Todos tentam topar tentadores tachos, trupes de trapalhões tapam todos

os tipos de trapaças e testam tentaculares tropelias. Tecnocratas tecem teorias, torcendo todas as teses. Todos tramam todos, totalmente tramados por tanta tolice.

 

Unidos unicamente no último ulo, urdimos nas urnas utopismos, untamos as unhas a uns e ultrapassamos ultrajes. Ulteriormente uivamos. Ungimo-nos e urinamos.

 

Gajada gosta de graveto, gagueja graças às galdérias, gajas e gajos gostam dos gargarejos e de galgar (pró) galarim, grandes gozadores, galhofeiros, gandulos gamadores de galináceos e grandes, grandes gabarolas.

 

Amadores na arte de arengar, atávicos artistas de artimanhas, admiradores de artes arcaicas, amigos do alheio, arquitectos de aldrabices, alguns ainda ajudam a adular almas afins.

 

Laureados latinos limpadores de latrinas, lamentamos lapsos, lateralizamos leis, laureamos “latas”, lançamos larachas. Laparotos

loquazes lemos lombadas e lambemos os lábios nas lautas libações. Lavramos lérias e lastimamos o labor.

 

 

Porém Outros, Raros, Testemunham Uma Grandeza  d’Almas Límpidas.

 

(Pois O Rapaz Tava Unicamente Gozando A Lusitanidade).

 



publicado por palavras-dos-outros às 14:44
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Quinta-feira, 14 de Janeiro de 2010
Diálogos (IV)

 

                                                                           

                                          (Ora ponha aqui, ponha aqui o seu pezinho…)

 

 

 

- Bom dia!

- Olá, bom dia! Fung, fung, fung….

- Funf, fung, fung? Que vem a ser isso?

- Estou a rir-me. Não é a primeira vez. Sempre que me saltas para cima dá-me vontade de rir.

- Salto para cima?

- Tens razão, não é bem assim, até és delicado…mas que queres?

- Que quero? O costume, ou pensas nalguma coisa diferente?

- Eu simplesmente não penso. Mostro-te o resultado e fico calada.

- Para isso aqui estás. Mas explica, já agora, essas fung…adelas iniciais.

- É fácil e não resisto. É a minha maneira de rir. Quando te vejo assim de baixo para cima, todo nu com esse penduricalho, dá-me vontade de rir e não resisto. É só isso.

- Deixa-te dessas fitas. Ou gostavas mais que o penduricalho, como lhe chamas, não estivesse caído, a “olhar” também para ti?

- Interessa-me pouco isso e não quero entrar nesses teus trocadilhos. Ficas ridículo e é disso que me rio.

- Deixa lá o ridículo e diz-me lá como estou hoje.

- Na mesma. De há uns tempos para cá, estás na mesma.

- E passo eu uma vida de cão, para estar sempre assim?

- Não sei disso, nem sei mesmo o que é vida de cão. Já me basta esta vida de Balança, sempre aqui no canto, arrumada junto à parede. Nem a janela vejo.

-Querias estar no salão nobre não? Tem juízo e dá-te por satisfeita. Ao menos não apanhas humidade, nem frio nem calor.

- Também se apanhasse, já sabias o que acontecia à minha mola…

- E trata de manter a mola em forma, senão…

- Senão o que? Vens com as ameaças do costume?

- Do costume? Nunca te ameacei. Foi agora a primeira vez que…

- Já ameaçaste a Cadeira, a Porta, o Espelho e sei lá que mais. Passas a vida nisso.

- Sabes muito para uma simples Balança e ainda por cima das antigas.

- Sou antiga mas nunca te falhei. Ou já?

- Não.

- Então arranja uma dessas modernaças que trabalham a pilhas ou lá o que é e vais ver como elas te cantam. Volta e meia ficam caladinhas ou dizem que pesas uma arroba…

- Por falar nisso, sabes que há colegas tuas que falam?

- E eu que estou a fazer agora contigo?

- Mas elas falam mesmo. Outras conversas. Até sabem línguas e tudo…

- Interessa-me pouco. Também só te peso a ti e a … pouco mais. E só tu usas esse penduricalho.

- Outra vez?

- Que queres? Faz-me impressão.

- Pois a mim faz um jeitão. Percebes a diferença?

- Não, nem estou interessada. E se te faz assim tanto jeito, por que é que as outras pessoas que também me usam, mas não abusam como tu, não têm isso?

- Pergunta-lhes.

- Não são como tu. Nunca falam comigo.

- E tu gostas de falar comigo não?

- Ora! Dá para desenferrujar a mola…

- Isso. Tem cuidadinho com a mola, senão já sabes…

- Lá volta a conversa outra vez ao mesmo. Põe-me na sucata e arranja logo uma dessas que usam pilhas e falam, se calhar até cantam. Uma chinesa que até tem os olhos em bico e fica baratinha…

- Que sabes tu disso?

- O que ouço nas notícias. Aqui onde estou nem vejo nada, só ouço. E é só à noite…

- Sabes que além dessas há outras baseadas no efeito piezoeléctrico?

- Ena! O que tu sabes. E essas piezoqualquercoisa também dão o peso?

- Claro.

- A minha prima da cozinha já é dessas?

- Não. É como tu, uma antiquada. Além disso não tem uso. Já nem sei dela.

- Não tem uso? Então a pobre está assim tão mal?

- O problema não é estar mal ou bem. Não é utilizada. Aquilo na cozinha é outro reino.

- Ai não é a mesma república?

- Não. Sabes que hoje as coisas já vêm pesadas, medidas, em doses. Nada já é a granel.

- Granel?

- Depois ali predomina a alta tecnologia do “a olho”, “por palpite”, “mais coisa menos coisa”. É uma pitada disto, uma colher daquilo um gole de assim, uma mão cheia de assado. Para que é precisa uma balança?

- Oh coitada da minha prima, assim fica muito desvalorizada.

- Que queres? Agora só os adeptos da cozinha molecular ainda usam disso.

- Vais despedi-la?

- Não sei. Em princípio vai ficar por aí…

- Fico mais satisfeita. Um dia quando me mandares embora já não vou sozinha…

- Porta-te mal e vais ver… Já ando a desconfiar de ti. Marcas sempre a mesma coisa, não sei se não terás já a mola plasmada…

- P(l)asmada estou eu com essa tua conversa. Nunca enganei ninguém. Sou Balança séria…

- Qualquer dia faço um teste com o vizinho do lado. Ele pesa uns 150 kg quero ver se te aguentas com ele…

- Bem diz a Porta que não regulas bem! E a Cadeira também insinua…e o Espelho…

- O quê? Vocês falam uns com os outros sobre mim? Temos um sistema de escutas aqui instalado? Não me digas que também o Gravador está metido…

- Não, não é nada disso, só trocamos umas impressões, nós…

- Quero a verdade toda! Já!

- Mas eu…

- Já!

- Mas…ai…não me apertes … olha que eu gri…

- Já! Tudo! Vomita tudo o que sabes!

- Ai…eu…ai…tá bem… não apertes tanto, eu digotens quase 4 quilos a mais…

 

 

(Já nem em balanças podemos confiar...)

 

 

 

 



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Sábado, 9 de Janeiro de 2010
"Centenário"

                                

 

 

 

 

Pois é verdade. Este é o 100º post deste blog.

Nada do outro mundo, há blogs com centenas e milhares de posts, mas para quem não sabia no que isto ia dar, é um bom motivo para uma comemoração.

O boneco comemorativo fi-lo eu, ainda que inspirado num semelhante que vi há tempos numa revista. Acho que vai bem com a cara estanhada do Carapau. Cem posts a uma média de 700 palavras por post são 70.000 palavras a que corresponderão perto de meio milhão de batidas de teclas. Ufa!!! Para um Carapau não deve ter sido tarefa fácil. Não foi mesmo, mas em geral foi feito com gozo do próprio…

Nestes 100 posts houve de tudo. Maus, muito maus, assim-assim (a maioria) e um ou outro que me agradou. Agradam-me aqueles em que, ao escrevê-los, solto umas sonoras gargalhadas. Sinal que a coisa me está a sair bem e com algumas hipóteses de agradar a outros peixes que resolvam navegar por estas águas. Em geral límpidas, ainda que aqui e ali possa ter havido uma ligeira turvação.

Gosto de rir e mais ainda de brincar. Tendo já uma certa experiência em fugir aos arrastões, é natural que não me preocupe muito com certas coisas  da vida. Mas, curiosamente ou não, acabo por levar a vida muito mais a sério do que ela merece. Quando me apercebo disso, tento mudar de agulha, algumas vezes sem o conseguir.

Por isso, ao longo destes 100 posts, foi um ziguezaguear constante, sem rumo, nadando ao sabor das marés e deixando-me ir ao sabor das correntes, mas tentando controlar-me. Depois, de repente saio da corrente e nado contra ela. Exercita-me a barbatana, ou melhor, as barbatanas, que nesta manobra tem de entrar tudo: cabeça, tronco e barbatanas.

Este é portanto um post diferente e para esquecer. Isto de centenários nunca fizeram bem a ninguém, quando lá se chega, raramente, se está com pachorra para os aturar.

(Para quem não estiver a perceber nada do que estou a dizer, faço aqui esta pausa, para poderem escapulir-se sem ninguém topar. Façam o favor…)

Continuando…

Falava eu de centenários. Este ano comemora-se o da implantação da república, vai haver discursos, foguetório e bandas de música, digo eu, a revelar já parte do programa. “Cem anos de progresso, de avanços, de grandes passos em frente”. Aqui chegados já estamos a um passinho do abismo. Agora é só dar mais esse passo. Mais um esforço e lá vamos nós (ou vós que eu já estou cá em baixo à vossa espera há muito. A nadar, a palrar com as navalheiras, a ouvir as queixas destes e daquelas).

Se tivéssemos continuado na monarquia, estaríamos (é curioso!) exactamente no mesmo sítio. Isto quer dizer muito, digo eu, que nem sou monárquico.

(Aqui, assim à beira do abismo, apetecia-me meter umas palavras em latim, para me dar ares a modos de Padre António Vieira a pregar aos peixes, mas não tenho por aqui nada nem ninguém à mão que me ajude. Além disso os outros peixes fugiam logo, que agora fogem do latim como o diabo da cruz, isto porque o burro do diabo não conhece uma Cruz que eu conheço. Ainda bem. Atenção! Não tirar conclusões erradas. Este “ainda bem” refere-se à Cruz que eu conheço e a nada mais. Nada de extrapolar).

Daqui a pouco chego ao fim do post sem ter dito nada de jeito, o que é bom sinal e mostra que estou ainda em plena forma. É só picar alguns dos 99 anteriores e tirar a prova dos noves. 99, noves fora, nada. Nunca a matemática enganou ninguém. Nem eu, a não ser daquelas vezes em que…

(se estavam à espera duma confissão, desiludam-se. Aqui na caverna, como no inferno de Dante, está pendurado à entrada o aviso: “Oh vós que entrais, deixai lá fora toda a esperança”).

 Até já eu perdi a esperança de terminar isto duma maneira airosa e não me salta nenhuma faísca de talento (de quê? Ah! Ah! Ah!) para o conseguir. Mas em dia de centenário, quem não desculpa estas coisas ao “aniversariante”? Há sempre aquela: “o tipo já está com os copos. Hoje ainda pior que nos outros dias”.

O que não deixa de ser uma boa maneira de me despedir.

Agradecido e até ao próximo! Voltem… porque só se arrependerão depois.

 

(Olho em volta e já não vejo ninguém. É sempre assim: desde que não haja navalheiras, búzios, pasteis de bacalhau, rissóis de camarão e outros petiscos, debandam todos. Mas fica aqui um aviso. O 101º vai valer a pena. Promessa de…)

 

Nota:

Não contando com estas, o post tem 757 palavras, o que prova: 1º- que não está longe da média; e 2º- que o Carapau é lixado para fazer contas.



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Terça-feira, 5 de Janeiro de 2010
Encher pneus

 

Comecei o ano a meter essência no tanque. Agora, aqui, para continuar vou bufar ar nos pneumáticos, por manifesta falta de inspiração. Este é o post nº 99 e o centenário está aí à porta e eu assim de mãos a abanar, sem ter conseguido até agora arranjar alguma coisinha saborosa para oferecer. Estou a ver a coisa negra…

Vamos lá então encher este pneu.

 

OOe oP

(ou a técnica de encher pneus, sem ser a bufar ar)

 

Ocupam, respectivamente, as 15ª e 16ª posições no alfabeto, considerado sem o “K”. Um dia destes, com a entrada daquele, descem um lugar na classificação. São actualmente duas entre vinte e três, passarão a ser duas entre vinte e seis, quando com o “K” entrarem também o “W” e o “Y”.

Andam muitas vezes juntas, guardando a ordem por que aparecem no alfabeto, mas na maior parte dos casos aparecem com a ordem invertida, isto é, com o P a empurrar o O. As duas sozinhas aparecem em poucas ocasiões e em geral o O usa um sinal na cabeça parecendo, neste caso, um boné de pala. O PÓ que então fazem, causa alergia a muita gente. Eu, espirro quando me aparecem assim. Outros fazem “linhas” com ele e aspiram-no.

Na aspiração também há dois processos: por meio dum aspirador, para o PÓ que se acumula lá em casa, e por um canudinho para o PÓ que é importado, sem pagar direitos alfandegários. Deste, também há quem o leve em injecções. Parece que então lhe chamam cavalo, vá-se lá saber a razão…

Por vezes, deve ser quando chove, o O usa um chapelinho e aparece o PÔ, mais no Brasil do que cá, mas só quando não se quer dizer PÔrra mesmo.

No verão o chapéu é de outro feitio, para melhor resguardar do sol, mas nessas ocasiÕes andam sempre acompanhadas. Quem PÕem e disPÕe  sabe do que eu falo.

Já na posição OP, e sozinhas, são raramente vistas. Normalmente em meios mais eruditos, seja a falar das obras de um grande escritor, seja, e aqui mais frequentemente, a falar das obras dos grandes compositores. Veja-se o exemplo “Concerto para piano e orquestra em lá menor, OP. 54 de Shumann”.

Mas não passa de uma redução duma palavra latina (op. de opus=obra).

Quando uma coisa é ÓPtima lá estão os dois pela ordem, mas com acompanhamento. E brevemente, no caso deste exemplo, o “O” vai ficar só, porque o “P” vai à vida. E em mais palavras vai acontecer o mesmo. Um tal acOrdO, em que o P não entra, a isso vai obrigar.

São duas letras que entram em muitas palavras com as mais diversas companhias, sobretudo o O que andam sempre em grandes fOlias, já que o não deixam entrar em “grandes festanças, pequenas festinhas, nem em bailes, nem em serenatas, e em tantas danças”. Mas quando entra, arrasta a perna no tangO, já que não dança a valsa, nem mesmo o samba.

No OvO (que mais parece uma cara que uma palavra) está em maioria e são precisas aquelas duas traves inclinadas para os dois juntos não fazerem um infinito \,\!\infty. Quando um O salta para cima de outro O já a coisa é mais fácil pois não fazem mais que um 8. Já no 80 são precisos três e, quando entram mais, nunca se sabe o que pode acontecer…Uma suruba não fazem, porque o O não entra nesses ajuntamentos.

Já o P é Pau para muita obra, mas nunca foi encontrado agarrado a outro P. Nem salta para cima de outro P, ainda que também dê os seus Pulos. É letra que não entra nesse tipo de coisas, coisas essas que, curiosamente, até começam por P. Ironias…

Muito Prático é mais do tiPo Pão Pão e nenhum queijo, mas emparelha com muitas letras, não indo, no entanto, com qualquer uma. Já o O é pau para tOda a Obra, querendo eu dizer que tanto vai à frente como atrás, tanto se agarra ao F como ao G ou ao H.

Ao H andou agarrado o P, em tempos, como acontecia nas “Parmácias” antigas e mesmo quando duas pessoas “POdiam”, bem ou mal, uma com a outra. Mas não era de seu feitio essa companhia e desligaram-se. Depois deixou essas coisas para o F sozinho e por isso nunca mais se juntaram. O P é “Porreiro Pá”, já o F está Feito para outras Funções (bem agradáveis muitas vezes, mas isso já sou eu a falar).

Mas a conversa é sobre o O e o P, as outras letras também darão PanO para mangas, mas noutra OcasiãO. No PratO, no PatO, no PitO e quando se empoleiram no PináculO, uma abre e a outra fecha. Já numas boas aPOstas deixam esse trabalho para outros. No meio da corruPçãO, está o P, e o O aparece no fim para fechar o negócio.

Por falar nisto, nenhuma das duas (O e P, recorde-se) é suspeita de estar metida na sucata, mas têm ParceirOs POlíticos que estão metidos até ao PescoçO. Uns OPinam sobre a OPacidade  das OPerações, outros OPõem-se, OPortunistas, na esperança de também virem a ser convidados para OPíParOs  almoços.

O e P dão valiosa colaboração aos PhilhOs da Puta, mas enquanto o P só ajuda os que fazem Panelas, já o O entra em quase todas, desde o Ócaraças até outros PalavrÕes de importância superior.

 

Isto só não foi um POst para encher chOuriçOs, ou mesmo Pneus, porque as duas letras não se entenderam sobre o assunto, mas depois acabaram por chegar a acordo e fizeram um PactO. Encheram um PneumáticO e um PaiO. Sendo com carne do lombo, nem é PiOr…

“PiOr que o PaiO do PriOr só mesmo o PaiO do ProcuradOr” (mas isso deve ser da qualidade da carne). Isto dizem as beatas, que é coisa onde P e O não metem o bedelho.

E ProntO, cheguei ao Phin(O)!

 

(Também era  _ _ssível escrever sem _s  e _ês , mas nã_ era a mesma c_isa)

 

 

 

 



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Terça-feira, 29 de Dezembro de 2009
Uma noite de passagem de ano...

                                          

 

 

 

 

 

Há já bastante tempo que deixei de fumar. Mas em minha casa tenho sempre um maço de cigarros e alguns charutos.

Uma pequena história explica a razão desta minha mania.

Há um bom par de anos atrás, vivi, por motivos profissionais, algum tempo numa pequena vila. Além de pequena, era triste, monótona, fechada, quase sem existência. Para mim foi como uma penitenciária onde espiei um qualquer crime que não cometi. Não vivi lá muito tempo, portanto também não me cheguei a integrar numa coisa que também não vislumbrei: qualquer tipo de vida social. “Fui estando”.

Uma noite – noite de passagem de ano – depois dum jantar melhorado num dos poucos restaurantes que havia, e que nessa noite esteve aberto porque eu era cliente diário, sai a dar uma volta para ajudar a fazer a digestão, antes de regressar a casa. Tinha comido demais e bebido também mais que o meu normal. Uma espécie de vingança por ter de passar sozinho naquele local “fora do mundo” aquela noite. Estava uma noite fria e um nevoeiro cerrado envolvia a pequena povoação como uma capa negra. Só de muito perto se vislumbrava a claridade dos candeeiros da iluminação pública. Àquela hora já ninguém andava pelas ruas. Nem um único carro vi passar durante o tempo em que durou o meu passeio. Para não me perder, limitei-me a andar junto aos prédios do quarteirão onde morava. Tinha dado já duas voltas quando de repente junto a um dos candeeiros fui abordado por um homem que tinha aparecido não sei de onde. Na volta anterior, pelo menos, não estava lá.

Deu-me as boas noites, pediu desculpa pela abordagem e pediu-me um cigarro.

- Não tenho. Deixei de fumar já há algum tempo. – Respondi enquanto olhava para a cara do homem que estava mesmo junto a mim.

Havia qualquer coisa de estranho, e que não oferecia confiança, na cara do sujeito.

-Raios… - resmungou ele entre dentes – como é que eu vou agora arranjar tabaco nesta terra? Tudo fechado… com este nevoeiro não passa ninguém pelas ruas…

Eu não deixava de o fitar com algum receio e lembrei-me de um conto do Miguel Torga sobre uma situação semelhante: a de um homem que sem tabaco, desesperado, pede um cigarro a um outro homem que por acaso passou por ele, lá no meio da serra. O segundo homem ia a fumar, portanto tinha tabaco e deu-lhe um cigarro. No fim de puxar umas fumaças o primeiro homem confessou que se ele lhe tivesse negado um cigarro o tinha matado.

Esta lembrança, o ar desesperado do homem e o facto de naquele momento “estarmos sós no mundo” fez-me arriscar um convite:

- Tenho em casa alguns cigarros, se me quiser acompanhar, dou-lhos. Moro aqui perto.

- Fico-lhe muito agradecido.

Andamos os poucos metros que me separavam do prédio onde morava e quando entrei em casa convidei-o também a entrar.

Procurei um maço meio cheio que, por esquecimento, um amigo aí tinha deixado, e entreguei-o ao homem, que me pediu licença para fumar logo um deles.

Disse-lhe que sim, abri uma janela apesar do frio que entrava, e fiquei a observar a maneira “dramática” como o fumou: as duas ou três primeiras fumaças foram prolongadas, engolindo e retendo o fumo durante o máximo de tempo, consumindo logo quase metade do cigarro, depois passou a fumar mais calmamente.

- Não sei como lhe agradecer – disse o homem.

- Não precisa. Teve sorte em um amigo meu se ter esquecido desse tabaco aqui em casa, senão…

- Senão estava eu tramado.

- Está tudo fechado por aqui … – atirei eu sem saber que dizer mais.

- Tudo. E com este nevoeiro e na noite de hoje não anda ninguém na rua…

Bem…Obrigado mais uma vez …e boa noite. Vou andando.

Pensei em convidá-lo para uma bebida, estava agora seguro que nada de perigoso aconteceria, mas depois desisti da ideia.

- Gosta de charutos? – perguntei um pouco abruptamente.

- Creio que só fumei um ou dois em toda a vida, portanto não sou grande apreciador. Mas se esta noite tivesse um, já me teria dado por muito satisfeito.

- Tenho aqui meia dúzia deles que tenho recolhido nuns casamentos e outras festas, vou-lhos dar.

Ofereci-lhos, mas ele só aceitou um.

- Obrigado, mas fique com os outros. Levo só este para fumar amanhã que é dia de Ano Novo.

E dito isto, dirigiu-se para a porta de saída.

- Agora me lembrei – disse eu, talvez para não ficar calado. O posto da polícia está aberto com certeza. Aí teria encontrado algum guarda que certamente lhe teria dado um ou dois cigarros.

- Tem razão, mas nem pensei nisso… então obrigado uma vez mais e boa noite. Um bom ano para o senhor.

- Bom ano também para si.

E saiu.

 

Dois dias depois, ao fim da tarde quando regressei a casa, tinha na caixa do correio um maço de cigarros e uma folha de papel manuscrita.

Dizia mais ou menos assim:

“Este maço de cigarros não é para pagar aquele que o senhor me deu há dois dias. É sim para ficar com ele, para poder valer a alguém numa aflição, como aquela por que eu passei. Percebi que o senhor não é de cá, senão certamente não me teria convidado para ir a sua casa. Também aquele seu alvitre de eu ir à polícia pedir um cigarro, prova que o senhor não sabe quem eu sou. Se eu tivesse ido à polícia, era mais certo prenderem-me do que darem-me um cigarro. Mas isso é outra história.

Obrigado pelo que fez por mim. Se alguma vez precisar de alguma coisa da minha parte, basta dirigir-se ao homem que está na bomba de gasolina à saída da vila, e dizer que quer falar comigo, que ele lhe indicará o caminho. Basta dizer que o senhor é o dos cigarros.

Mais uma vez obrigado.”

 



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Terça-feira, 22 de Dezembro de 2009
Uma história de um Natal

 

Na véspera de um já afastado Natal, seguia eu no meu belo carrinho pela então EN1 em direcção ao norte (a auto estrada A1 tinha então só alguns troços ao serviço), numa fila interminável de trânsito, quando a determinada altura do trajecto me apercebi que junto à berma da estrada uma mulher me fazia, discretamente, o sinal de pedir boleia. Encostei o carro à berma e ela correu para mim e perguntou-me se a podia levar até um ponto mais à frente meia dúzia de quilómetros. Entrou, e mesmo nem eu lhe perguntar nada, contou-me a sua odisseia desse dia. Que tinha estado com um cliente, que se tinha afastado um pouco da sua zona habitual, que estava com muita dificuldade em regressar pois o trânsito era muito, mas os carros iam “todos cheios com as famílias” e que por isso não lhes podia pedir nada. Que quando me viu sozinho não hesitou em fazer-me sinal e que estava muito contente por eu ter parado. Eu disse qualquer coisa como “pois, hoje deve ser complicado” ela confirmou e disse que até estava arrependida de ter vindo “trabalhar” porque além de não haver clientela, ia ter agora um problema para regressar a Lisboa, onde vivia. Ela e dois filhos. Fiquei também a saber que o filho tinha 6 anos e a filha 4, e que estavam em casa duma senhora, que durante o dia tomava conta deles, e onde ela também vivia.

Depois contou que o local onde normalmente esperava pelos clientes era um pouco mais à frente, perto havia um pequeno restaurante onde costumava almoçar e onde agora queria ficar. “Se eu tivesse pensado bem, hoje nem tinha vindo para cá. Com o trânsito que está e sem os camiões a circular, tenho certamente de voltar na camioneta da carreira, a não ser que no restaurante ainda arranje alguém que me dê boleia. Em geral são os camionistas que me valem, tenho bons amigos entre eles, alguns também são clientes, outros não, mas são eles que me trazem e levam de volta. Hoje o dia está estragado, só tive aquele cliente e se soubesse que ele me lavava para tão longe nem tinha ido”.

 Eu continuava calado, de vez em quando olhava para ela e sorria, para lhe dar a entender que a ouvia com interesse.

Disse-me ainda que talvez nem fosse mau ter de voltar mais cedo, assim ainda ia a horas de comprar qualquer coisa para melhorar o jantar dos pequenos, ainda que já tivesse deixado dinheiro à senhora para umas compras extra.

Depois, apontando um largo que havia mais à frente ao lado da estrada, e onde ficava o  restaurante, avisou-me que era ali que queria ficar. Entrei no tal largo, ela agradeceu-me muito, disse-me que eu tinha sido um anjo que lhe tinha aparecido. Eu sorri, respondi-lhe que não era nenhum anjo, que nem asas tinha, quando muito parecia mais o Menino Jesus. E quando ela, já fora do carro insistia nos agradecimentos, eu saí também, disse-lhe para esperar mais um minuto, e dirigi-me à mala do carro. Tinha lá uns bolos rei que levava para distribuir pela família e uns brinquedos para os mais novos, retirei um bolo-rei e algumas das bugigangas e dei-lhas dizendo que eram para os filhos.

E enquanto ela continuava a segurar no regaço as prendas que lhe dei, de boca aberta sem dizer nada, eu entrei no carro e preparei-me para arrancar. Foi quando ela finalmente falou. “Obrigada, não sei o que lhe hei-de dizer mais, quando o senhor por aqui passar procure-me que eu também lhe quero dar uma prenda”.

- Está bem, não se preocupe, depois vemos isso. Bom Natal! – respondi-lhe eu, enquanto lhe fazia um aceno de despedida e arrancava com o carro.

Nunca mais a vi, nunca mais soube nada dela, nunca recebi a prenda prometida…

Aqui está uma minha pequena história de Natal, de que não me esqueci, tanto assim que resolvi recordá-la, agora que estamos em vésperas de mais um.

 

 

Aos que aqui costumam vir, quer deixem rasto ou não, desejo um Feliz Natal e um Bom Ano Novo. Boas Festas!

 

 



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Quinta-feira, 17 de Dezembro de 2009
O Mastro

 

 

Eu não podia perder esta!

No Jornal de Notícias de 16/12/2009 vem a seguinte notícia, de que transcrevo algumas passagens:

 

Um milhão de euros é quanto vai custar um mastro com cem metros de altura que a Câmara de Paredes vai construir para içar uma bandeira nacional.

Deverá ser uma das maiores bandeiras portuguesas do Mundo a ser içada, quase tão alta como o monumento do Cristo-Rei, em Lisboa, e com mais 25 metros do que a Torre dos Clérigos, no Porto. O mastro com cem metros será maior que o Big Ben, em Londres, e a bandeira terá 25 por 16 metros.

Pelo tamanho do mastro, a bandeira içada em Paredes poderá ser avistada de Braga ou até de Aveiro.

"Este monumento permite georreferenciar o concelho de Paredes", explica o autarca que espera cativar apoio financeiro em mecenas privados. Adianta ainda que o monumento será simples: "Terá apenas um pequeno motor eléctrico para içar a bandeira".

 

Para quem quiser ler a notícia na íntegra pode ir aqui, pois encontra umas coisas e uns nomes interessantes…

A mim, aqui e agora, interessa-me o mastro. Dou comigo a pensar em como a minha vida poderia ter sido diferente se eu também tivesse um mastro, já não digo que se visse desde Aveiro ou Braga, nem que superasse o Big Ben, mas pelo menos que fosse avistado por algumas das minhas vizinhas. Que fosse como que uma georrefência (com pedido de licença ao presidente da câmara de Paredes pelo uso da palavra), para o mulherio das redondezas. Assim, quando alguma se sentisse perdida ou desorientada, olhava aqui para as minhas bandas e com os sentidos fixados no mastro, orientava-se e orientava a sua vida.

Porque um mastro, respeitável público, não é um pau ao alto. Ou melhor, não é só um pau ao alto. É um farol, uma torre de emissão de ondas, que orienta, que desperta o interesse, que satisfaz (ou pelo menos deve fazer por isso).

Ora se eu tivesse um mastro desses, que pelos vistos vale 1 milhão, eu seria o farol que iluminava o caminho, seria a Meca para onde se voltariam as almas necessitadas (“almas” é maneira de dizer, porque nestas coisas de mastros os corpos contam muito), seria o conforto de tanta gente. E, sendo munido de um motor eléctrico, com um simples toque no botão estaria sempre apto a ser içado, o que não acontece com qualquer mastro até hoje conhecido. Por muito boa que seja a qualidade da madeira, há sempre pequenas falhas, às vezes, direi mesmo sempre, nos momentos mais delicados.

Daí que ao ler a notícia, eu entenda muito bem o Sr. Presidente da Câmara de Paredes. Há lá coisa melhor, para o bem das gentes de Paredes, que passarem a ter um mastro para se orientarem. Direi mais: para sonharem, para darem asas à imaginação, pensando quão felizes seriam se dispusessem de um mastro assim para… para…sei lá para quê! Para pendurarem a roupa por exemplo. Para as pessoas de Aveiro ficarem cheias de inveja, por não terem mastros como os de Paredes. Estou em lançar daqui uma palavra de ordem: “Povos de todas as terras, exijam mastros que se vejam e não deixem que as vossas cuecas, que os vossos sutiãs, que as vossas peúgas, mesmo que as vossas bandeiras, sejam pendurados num pauzito com 2 ou 3 metros de altura. Mastros ao alto e mastros que se vejam!”

 

É por estas inesperadas notícias que a vida conserva o seu interesse. E eu, que nunca tinham pensado em tão importante assunto, agora vejo tudo mais claro. Um mastro assim, satisfaz no presente (um milhão deve dar de comissões…ora bem… três vezes sete são…não é 3  é 4 vezes…pois…é só fazer as contas) e satisfará mais tarde (quando já se fizerem mastros mais sofisticados e este tenha de ser vendido para sucata), um bom sucateiro, que fará um bom negócio, que dará umas boas comissões…É só fazer as contas! Não deve ser por acaso que o mastro de Paredes é para ser avistado de Aveiro. Ele há cada coincidência…

E foi assim que um post, que começou com um mastro virado para um certo objectivo, certamente elevado, caiu no mundo rasteiro e sujo da sucata.

 

E agora fica aqui uma dúvida: será que um mastro com um motor eléctrico não será a mesma coisa que um zequinha vibrante?

 

 

 



publicado por palavras-dos-outros às 12:50
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